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Índios brasileiros, instrumentos musicais
Lúcia Gaspar
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
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[...] 1500. Da Carta de Pero Vaz de Caminha, informando sobre gente do grande território que se tornaria o Brasil, ficou a certeza de que o som musical era utilizado pelo índio muito antes da descoberta do Continente americano. 
Logo no primeiro encontro entre a gente de Cabral e o nativo foi constatado pelo cronista que os índios “dançaram e bailaram, com os nossos”. [...] Na mesma ocasião notou que “além do rio andavam muitos deles dançando e folgando” e ainda que “depois da missa quando nós sentados atendíamos à pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço”.[...] (CAMÊU, 1977, p. 20).

Associada ao universo transcendente e mágico, a música para a maioria dos povos indígenas brasileiros é utilizada em rituais religiosos, socialização, ligação com ancestrais, magia e cura. Está presente em festas comemorativas, sazonais, guerreiras, ritos de passagem e congraçamento entre as tribos. 

Uma parte essencial dessa música são os instrumentos que a produzem. Segundo a compositora, pianista, professora e musicóloga Helza Camêu (1979, p. 9):

[...] Para o índio o instrumento tem uma origem, uma razão, uma finalidade, por isso, sonoro ou musical conta uma lenda, a sua lenda, que lhe determina um princípio, que lhe encarece a importância, dando-lhe especificação, vinculando-o a sua gente [...]

Predominam entre os índios brasileiros os instrumentos musicais de percussão e sopro. Embora todos eles sejam sonoros, há os que possibilitam estender a escala dos sons sendo, dessa forma, considerados musicais. 

Cada tribo possui seus instrumentos, que são utilizados de maneiras diferentes por diversas comunidades. Apesar de confeccionados basicamente com os mesmos materiais, apresentam particularidades, distinguindo-se entre si pela aparência, complementos, pormenores, estrutura e ornamentação, que refletem características próprias das culturas a que estão ligados. 

Os instrumentos indígenas, do ponto de vista da sua utilidade, podem servir para a comunicação ou para funções propriamente musicais. Dessa forma, a obtenção do som entre os índios é uma mensagem sonoro-musical destinada a diversos fins.

Os de percussão são aqueles que produzem som por meio de pancadas sobre qualquer superfície ou pelo atrito. Nessa categoria podem ser incluídos – além dos tambores, bastões de ritmo, reco-reco e chocalhos – o próprio corpo humano, pela utilização de pés, mãos e outras partes do corpo. 

O bater de pés, que resulta na vibração do solo, serve para ordenar e animar os movimentos das danças indígenas. As palmas, não tão frequentes quanto o bater de pés, têm também uma função disciplinadora. Com chocalhos presos aos tornozelos, coxas, braços, pescoço e cintura, o corpo inteiro do índio pode se tornar uma fonte sonora, com diversos matizes, dependendo do material utilizado.

Os instrumentos de percussão por atrito ou choque – reco-reco, bastões e chocalhos em geral – causam mais ruído do que som, com variações de timbres de acordo com os materiais em choque, como madeira, sementes ou élitros (asas de besouros), assim como a intensidade e regularidade dos movimentos que os impulsionam. 

Existem os chocalhos em fieiras (conjunto de objetos enfiados em linha, fio) e em recipientes fechados.

Os chocalhos em fieiras são feitos de frutos – normalmente nozes e cocos – caracol, cabaça, élitros, garras e cascos de animais (anta, veado, boi). São usados como braçadeiras, pulseiras, joelheiras, colares, tangas, tornozeleiras ou  movimentados diretamente na mão.

Os chocalhos em recipientes fechados, dependendo da forma, podem ser classificados em globulares (forma esférica) e tubulares (forma alongada).

Os globulares são feitos de frutos – como o cuité (Crescentia cujete), a cabaça (Cucurbita lagenaria), o cupuaçu (Theobroma grandiflorum)–, ovos de ema, crânio de macaco, carapaça de filhote de tartaruga (encontrados em todas as tribos indígenas brasileiras), cerâmica e lança. Este último é confeccionado com uma vara de muirapiranga (pau-brasil), medindo de um a dois metros (ou mais), dividida em quatro partes: punho, lança, chocalho e ponta. 

A utilização do chocalho globular está ligada às atividades mágico-religiosas e os de   lança são usados, normalmente, em cerimônias de iniciação para os jovens.

Os tubulares são confeccionados de trançado de taquarinha (plantas da família das gramíneas), madeira ou bambu, contendo no seu interior sementes, seixos, dentes ou élitros, para a produção do som ao se chocar com a madeira. 

Outro instrumento de percussão importante utilizado pelos índios brasileiros é o tambor. Pode ser feito com madeira (de tábua ou troncos escavados), carapaça de tartaruga, cerâmica, couro e pele de animais. Os tambores são instrumentos utilizados tanto para sinalização e comunicação, quanto em festas e cerimônias sociais e religiosas. 

Os bastões de ritmo, feitos de bambu ou madeira, servem para produzir o som nos tambores. Os confeccionados com bambu são mais toscos e alguns trazem, no seu interior, materiais que causam maior efeito sonoro. 

Os índios Makuxi costumam colocar chocalhos em fieira em volta dos seus bastões. Os confeccionados pelos Tikuna, chamado de Dopa, trazem sempre figuras de animais ou humanas neles esculpidas. 

Os instrumentos de sopro, como pios, apitos, buzinas, trombetas e flautas, produzem som pela introdução de ar em tubos e cavidades. São feitos de folhas retorcidas, frutos, troncos, bambu, ossos, cabaça, cerâmica, chifre e carapaça de animais. 

Os pios, também chamados de chamariz, são utilizados para a caça e feitos de  bambu, madeira, frutos, cerâmica, caracol (carapaça) ou crânios de pequenos animais. Os índios conseguem produzir com eles sons com timbres bem agradáveis. 

Os apitos são objetos pequenos, feitos de material perecível ou durável: folhas de palmeira, bambu, madeira, frutos, chifre e osso de animais.

As buzinas, confeccionadas com conchas, caudas de tatu, bambu, cabaça, cerâmica, madeira, chifre de boi e de carneiro, serve basicamente para a comunicação, fato observado e registrado entre os índios brasileiros desde a carta de Pero Vaz de Caminha, em 1500. 

As trombetas, instrumentos maiores e de forma alongada, são feitas de troncos de palmeira, cascas de vegetais, trançado de taquara, madeira e bambu. Há ainda trombetas de cabaça e de chifre de animais. Os índios Juruna, originários da região do Xingu, possuem trombetas de guerra tem têm como caixa de ressonância um crânio humano.

As flautas, em princípio instrumentos constituídos por um tubo aberto em uma ou em ambas as extremidades, são feitas de bambu, madeira e osso, como fêmur de onças, tíbia de veados, cervos, alces, asas de jaburu, clavículas. São encontrados registros sobre flautas de osso desde o período colonial.  Há ainda as flautas nasais,  acionadas pelo nariz, que tanto podem ter uma forma reta quanto arredondada, quando  confeccionadas com dois pedaços de cabaça unidas com cera. 

A flauta Pã, encontrada em diversas tribos brasileiras, pode ter até 25 tubos e é normalmente feita com bambu. 

O zunidore é um instrumento que emite som pelo deslocamento do ar atmosférico, em consequência de objetos em movimento. É utilizado para a comunicação entre os índios, mas também em manifestações religiosas por algumas tribos, a exemplo dos índios Borôro, que a consideram um animal aquático e, por isso, a guardam mergulhada em pântanos e rios.

Há registro de viajantes estrangeiros sobre instrumento de corda, com o arrabil  (instrumento de arco de origem árabe) e o berimbau, importados de outras culturas, porém não são usuais nas comunidades indígenas brasileiras.

Atualmente, devido à convivência com a população sertaneja, podem ser encontrados entre os indígenas instrumentos musicais como, a sanfona, o violino rústico ou a viola. O índio, no entanto, embora os incorpore aos seus costumes não os consideram vinculados à sua cultura.

Recife, 19 de dezembro de 2012.

Obs.: As três ilustrações foram extraídas da obra: CAMÊU, Helza. Introdução ao estudo da música indígena brasileira. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, Departamento de Assuntos Culturais, 1977. p. 212, 222 e 234. Na sequência: um chocalho globular, apresentando desenhos peculiares à região. Índios Tukano - rio Tiquiê - Amazonas; um tambor de barro cozido coberto de cernambi. Índios Pacas-Nova; e uma buzina de cerâmica de conformação zoomorfa. Sem indicação da tribo - rio Uaupés.

FONTES CONSULTADAS:

CAMÊU, Helza. Instrumentos musicais dos indígenas brasileiros: catálogo da exposição. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional; Funarte, 1979.  

CAMÊU, Helza. Introdução ao estudo da música indígena brasileira. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, Departamento de Assuntos Culturais, 1977.

AS ORIGENS da música brasileira (música indígena/música do Brasil colonial). ETE-Curso Técnico em Música, Ourinhos, São Paulo. Disponível em: . Acesso em: 17 dez. 2012.

PEREIRA, Edmundo. Música indígena, música sertaneja: notas para uma antropologia da música entre índios do Nordeste. In: OLIVEIRA, João Pacheco (Org.). A presença indígena no  Nordeste: processos de territorialização, modos de reconhecimento e regimes de memória. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011. p. 577-603. 

TUGNY, Rosângela Pereira de; QUEIROZ, Ruben Caixeta de (Org.). Músicas africanas e indígenas no Brasil. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.  

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: GASPAR, Lúcia. Índios brasileiros, instrumento musicias. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>.  Disponível em: dia mês ano. Ex.: 6 ago. 2009.
 

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