Home
Pixinguinha
Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.

Alfredo da Rocha Viana Filho, nascido no Rio de Janeiro em 23 de abril de 1898 (ou de 1897, data que consta em sua certidão de batismo), mais conhecido como Pixinguinha, foi compositor, instrumentista, arranjador e regente de grande influência na música brasileira, especialmente no que diz respeito ao choro.
  
Seu apelido foi dado pela sua avó, de origem africana, que o chamava de piziguim. Após contrair bexiga, começou a ser chamado de bexiguinha, depois de pexinguinha. (CABRAL, 1978, p. 23) Nos discos e na impressa seu nome foi escrito de diversas formas (pechinguinha, pichinguinha, pexinguinha) até meados de 1920, quando passou à maneira como conhecemos hoje: Pixinguinha. Não se sabe ao certo o significado do apelido, que pode ser pequeno bobo ou comilão.

Filho mais novo de Alfredo da Rocha Viana e de Raimunda Maria da Conceição, tinha treze irmãos: quatro do primeiro casamento da mãe, e nove do segundo casamento de sua mãe com o seu pai, do qual foi o derradeiro. Seu pai, além de funcionário da Repartição Geral de Telégrafos, era flautista e gostava de reunir em sua casa a família e amigos em rodas de choro, a ponto de a casa ser conhecida como “pensão Viana”. 

No dia seguinte às noites de choro, Pixinguinha tentava tocar na flauta o que havia escutado de seu quarto e aprendido de ouvido. O primeiro instrumento que lhe ensinaram a tocar foi o cavaquinho. Em meio a uma família de músicos, já que, além do pai, quase todos os irmãos tocavam algum instrumento, seu destino não poderia ser outro. 

Pixinguinha começou cedo nas atividades musicais. Em 1911, ainda adolescente, fez parte da orquestra do rancho carnavalesco Filhas da Jardineira, onde conheceu os amigos João da Baiana e Donga. Ainda neste mesmo ano, estreou em disco como parte do conjunto Choro Carioca, liderado por Irineu de Almeida, seu professor de flauta. 

Ao mesmo tempo em que frequentava a escola, Pixinguinha era contratado para tocar em bailes e festas. Apresentava-se também nas festas de outubro da Igreja Nossa Senhora da Penha e em rodas de choro, momento em que deixava fluir a inspiração e tocava mais do que estava na pauta. Seu primeiro emprego foi em um bar chamado La Concha, na Lapa, onde, às vezes, se apresentava com o uniforme do colégio. Por volta dos quinze anos largou a escola e, apoiado pela família, tornou-se instrumentista profissional. 

Negro e alto, chamava a atenção, como ele mesmo reconheceu em entrevista concedida ao Museu da Imagem e do Som: “eu era um molecote azougado. A minha cor, o meu tamanho e a flauta me tornavam interessante” (CABRAL, 1978, p. 23).

Para Cabral (1978), Pixinguinha foi um gênio: um flautista de grande capacidade criativa e interpretativa. Em sua época, as gravações de discos tinham que ser feitas na primeira tentativa para não acarretar em muitos custos, já que os recursos técnicos eram mínimos. Nesse contexto, Pixinguinha se destacou tanto pela destreza e segurança com que executava a flauta quanto pela capacidade de improvisação. Como flautista, integrou diversos grupos, entre eles o Oito Batutas, que, na década de 1920, fez turnês pelo Brasil, Europa e Argentina.

Bastante lembrado pela desenvoltura na flauta e no saxofone, Pixinguinha teve papel fundamental como arranjador. Até meados da década de 1940 teve forte atuação como orquestrador em gravadoras, período em que escreveu inúmeros arranjos.

Suas composições, gravadas por diversos ícones da música brasileira, são bastante sensíveis e bonitas. Entre elas estão Rosa, de 1917, que teve mais visibilidade após ser gravada por Orlando Silva, em 1937:

Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito teu
Tu és a forma ideal
Estátua magistral. Oh, alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza
Perdão se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer

E Carinhoso:

Meu coração, não sei por quê
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo,
Mas mesmo assim foges de mim.
Ah se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero.
E como é sincero o meu amor,
Eu sei que tu não fugirias mais de mim.
Vem, vem, vem, vem,
Vem sentir o calor dos lábios meus
À procura dos teus.
Vem matar essa paixão
Que me devora o coração
E só assim então serei feliz,
Bem feliz.

Em 1942, Pixinguinha fez sua última gravação como flautista. Trocou a flauta pelo saxofone, fato cuja razão nunca explicou. Talvez, naquele tempo, o saxofone representasse a modernidade. No saxofone executou maravilhosos contrapontos, incomuns na música popular brasileira, e criou um estilo: “estilo Pixinguinha”. Neste período, gravou diversos discos com o flautista Benedito Lacerda.

Pixinguinha foi casado com Dona Beti e teve um filho, Alfredinho. Funcionário da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro desde a década de 1930, em 1951, foi nomeado professor de música, profissão exercida até a aposentadoria. 

Após um enfarte, em 1963, sua saúde começou a declinar. Em 1971, sua esposa ficou doente e precisou ser internada. A circunstância foi forte demais para um coração já fraco e ele também foi internado no mesmo hospital. Sem que ela soubesse de sua situação, diariamente Pixinguinha se arrumava de terno e ia visitá-la. Dona Beti morreu em 1972. Em 1973, Pixinguinha sofreu um enfarte e não resistiu. No dia 17 de fevereiro de 1973, a música brasileira perdeu aquele que popularizou o choro no país.

No final da década de 1970, seu nome batizou um projeto de âmbito nacional, que visava formar plateias disponibilizando shows de qualidade a preços baixos. O Projeto Pixinguinha promovia o encontro entre dois ou mais artistas de gerações, estilos e/ou origens diferentes, a exemplo das duplas Cartola/João Nogueira, Marlene/Gonzaguinha e Nara Leão/Dominguinhos. Segundo o idealizador, Hermínio Bello de Carvalho, a escolha do nome do projeto se deu porque “Pixinguinha era o nosso Deus. Quando digo nosso, é porque se há um nome que sempre é lembrado como espécie de matriz da nossa música, é dele que recordamos.” (CARVALHO, 2013). 
Em 2000, a Lei Federal n. 10.000, de 4 de setembro, instituiu o dia 23 de abril, data de nascimento de Pixinguinha, como o Dia Nacional do Choro. Desde então, nesta data, diversas atividades comemorativas são promovidas em todo país.

Em 2005, sua obra — partituras, documentos, fotografias — foi tombada pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Parte dela está exposta no Instituto Moreira Salles e no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro.

Recife, 7 de maio de 2014.

FONTES CONSULTADAS:

ALENCAR, Edigar de. O fabuloso e harmonioso Pixinguinha. Rio de Janeiro: Cátedra. Brasília: INL, 1979.

BRASIL. Lei Federal n. 10.000, de 4 de setembro de 2000. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L10000.htm>. Acesso em: 10 abr. 2014.

CABRAL, Sérgio. Pixinguinha vida e obra. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1978. (Coleção MPB, 1).

CARVALHO, Hermínio Bello de. O pai do Projeto Pixinguinha. Entrevista concedida ao Projeto Brasil Memória das Artes, da FUNARTE.  2013. Disponível em:
<
http://www.funarte.gov.br/brasilmemoriadasartes/acervo/pixinguinha
/o-pai-do-projeto-pixinguinha/
>. Acesso em: 10 abr. 2014.

SILVA, Marília Trindade Barboza da; OLIVEIRA FILHO, Arthur Loureiro de. Filho de Ogum Bexiguento. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1979. 

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: MORIM, Júlia. Pixinguinha. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:
<http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

Busca "Palavra-chave"

Busca "A a Z"


Copyright © 2019 Fundação Joaquim Nabuco. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido pela Fundação Joaquim Nabuco