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Marabaixo
Júlia Morim 
Consultora Fundaj/Unesco
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Associado às festividades de devoção a santos católicos, o Marabaixo, manifestação que congrega dança, música e canto, é, na atualidade, relacionado à identidade social do estado do Amapá. Com forte ocorrência na capital, notadamente nos bairros de Laguinho e Favela, e na comunidade de Curiaú, localizada a 8 km de Macapá, o Marabaixo também pode ser encontrado no interior do estado . 

Não se sabe ao certo a origem do termo Marabaixo e há várias versões sobre seu surgimento. Uma delas, é que o Marabaixo seria criação de negros africanos trazidos, em meados do século XVIII, para a construção da Fortaleza de São José de Macapá e que, por isso, reflete nas letras seus lamentos e, no ritmo, o balançar do navio no longo trajeto pelo Oceano Atlântico, mar-a-baixo. Outra, é de que o Marabaixo seria uma adaptação dos cocos dançados ainda na África, modificados pela dura travessia nos navios negreiros, o que trouxe o tom de lamento às letras cantadas. Quanto à denominação, de acordo com Nunes Pereira (1989, p.19), “nada se sabe com segurança sobre sua origem, havendo quem a diga de procedência bantu”. E questiona: “Ligar-se-á, por acaso, às longas e dramáticas travessias do Atlântico, ao léu das correntes marinhas e dos ventos alísios, para o regime de trabalho escravo, ou como uma expressão portuguesa de abandono e desgraça?” (PEREIRA, 1989, p. 20).
  
A manifestação está diretamente ligada a lugares ocupados por populações negras, cujas narrativas remetem ao processo de ocupação do território do Amapá, a exemplo da reforma urbana ocorrida na década de 1940, quando os negros que residiam na área central da capital foram removidos para uma região mais afastada a fim de dar espaço a uma “nova” cidade. Os versos das músicas do Marabaixo, conhecidos como Ladrões, contam a história daqueles que o produzem e reproduzem e, consequentemente, do lugar e da sociedade onde estão inseridos, transmitindo oralmente sua memória entre gerações. “Aonde tu vai rapais [sic]” é um dos Ladrões mais emblemáticos:

Aonde tu vai rapais
Por esses campos sosinho
Vou construir minha morada
Lá nos campos do Laguinho
............

A Avenida Getulio Vargas
Tá ficando que é um primor
Essas casas foram feitas
P’ra só morá os douto
(PEREIRA, 1989, p. 103)

Uma prática com forte influência negra associada ao catolicismo popular podemos compreendê-la como 

uma manifestação híbrida, resultante do encontro de diferentes etnias, interagindo em um mesmo contexto social. Se, por um lado, diversos santos do panteão católico são citados nas cantigas, por outro, a própria dança do Marabaixo é um arremedo dos tempos da escravidão, quando os negros eram acorrentados a um tronco central e dançavam girando ao redor do mastro, em sentido anti-horário. (ACIOLLY; SALLES, 2012, p. 3).

O que hoje é chamado de Ciclo do Marabaixo — instituído pela Lei Estadual nº 0845/2004 — tem início no Sábado de Aleluia e estende-se até as festividades dedicadas ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade, comemoradas quarenta dias após o Domingo de Páscoa. Inserido no calendário cultural do Amapá, os grupos praticantes recebem apoio e incentivo financeiro dos órgãos governamentais, diferente do que ocorria há anos atrás, quando a própria comunidade era responsável desde a busca por recursos até a organização logística e realização da festa.

Os mastros, as bandeiras, os altares, as coroas, a murta, a bebida, a comida, a indumentária e os instrumentos são elementos fundamentais do Marabaixo. Os mastros, feitos com troncos de árvores retirados da mata, podem ser entendidos como um elo entre céu e terra ou como um marco que demonstra a realização de uma festividade em devoção a determinado santo. São confeccionados dois mastros para cada santo — um enfeitado com murta e outro pintado com as cores representativas do santo — os quais recebem, em seu alto, a bandeira do respectivo santo. De acordo com o Dossiê do Marabaixo (IPHAN, 2013a, p.48), as bandeiras são

de grande importância, muitas vezes conservadas por gerações, elas são a identidade do grupo, o documento de sua presença. Por isso, elas vão à frente do grupo quando ele está em cortejo, não apenas identificando o grupo e sua devoção, mas também como instrumento de proteção e bênção, daí o costume de que seja beijada e agitada efusivamente nos cortejos. 

Para receber às celebrações do Marabaixo, cada festeiro ou associação monta um altar onde é colocada a coroa, geralmente de metal prateado, que é coberta de fitas pelos promesseiros. Além dos altares, outras modificações são feitas no espaço onde irão ocorrer as noites de Marabaixo, a exemplo da ornamentação do teto com papéis e fitas coloridas.

Os grupos de Marabaixo, que chegam a ter setenta componentes, se apresentam com instrumentos de percussão (tambores) chamados de caixa, comumente confeccionados pelos próprios tocadores, que ficam no centro da roda. Os cantadores entoam os Ladrões e as dançadeiras – vestindo saias rodadas e floridas, blusa com babados e usando colares, pulseiras e uma flor no cabelo – dançam em círculo, em sentido anti-horário, em torno dos músicos. Caldo de carne e legumes e gengibirra, bebida feita de gengibre e cachaça, são servidos ao público e aos marabaixeiros.

Em termos gerais, a festividade se inicia com a retirada do mastro da mata, no Sábado do Mastro. Em seguida, no Domingo do Mastro, o mastro percorre as ruas da comunidade em cortejo. Na Quarta-Feira da Murta, é realizado outro cortejo, desta vez com murtas (erva aromática que se acredita ter funções purificadoras) em mãos. No dia seguinte, a Quinta-Feira da Hora, no amanhecer do dia, após uma noite de festa, o mastro é enfeitado com murta e erguido em frente à casa do festeiro ou da associação, ao som de fogos de artifício. Até a derrubada do mastro, no encerramento do Ciclo, ocorrerão ladainhas, novenas e festas com apresentação de Marabaixo na sede das associações ou na casa dos festeiros. No último dia de festa, o festeiro do próximo ano é escolhido. 

No interior do estado, o Marabaixo ocorre ao longo do ano, em centros comunitários ou terreiros de uso público, em conformidade com o calendário das festas de santo de cada comunidade e/ou município, a exemplo de São José, São Tomé, Santa Maria, além do Divino Espírito Santo e da Santíssima Trindade.

Assim como outras manifestações culturais, o Marabaixo vem se transformando ao longo dos anos, tanto no conteúdo de suas letras e no ritmo do toque de suas caixas e de sua dança, quanto no modo ou nos períodos de apresentação. A partir da década de 1980, quando houve uma espécie de resgate das tradições, o Marabaixo atraiu o interesse de jovens, cuja presença vem modificando os temas dos Ladrões, que hoje falam mais de orgulho do que de lamento. Novos grupos foram formados desde então. Os já existentes viram novos integrantes chegarem. Hoje, dissociado das festas de santo, o Marabaixo está também presente na comemoração do aniversário da cidade, em escolas ou no aeroporto, recepcionando turistas.

Com a passagem do tempo, com a melhoria das condições sociais dos filhos e netos e aumentando consideravelmente a distância da memória direta da escravidão, partindo de um contexto de opressão para uma época em que os indivíduos e as instituições estão mais atentos aos direitos sociais, o status do negro passou por uma valoração positiva e o Marabaixo passou a ser atividade de valor e fonte de distinção não só para os executantes como para o conjunto da sociedade amapaense. De forma que este lamento foi cedendo lugar a uma prática mais descontraída, mais festiva e celebradora do status alcançado e mais ciente da possibilidade de luta pela tradição, do que a aceitação passiva da dominação. (IPHAN, 2013a, p. 39).

De marginal, a manifestação foi alçada à referência da identidade negra e da própria identidade do estado do Amapá. Em 2008, foi considerada bem histórico e cultural do Estado do Amapá por meio da Lei 1.263, de 2 de outubro. Em 2010, a Lei Estadual nº 1.521 instituiu o dia 16 de junho como o Dia Estadual do Marabaixo Amapaense.

Recife, 26 de março de 2014.

FONTES CONSULTADAS:

ACIOLLY, Sheila M.; SALLES, Sandro G. Marabaixo: identidade social e etnicidade na música negra do Amapá. 2012. Disponível em: <http://encipecom.metodista.br/mediawiki/images/5/56/GT2-002-Marabaixo-Sheila_e_Sandro.pdf>. Acesso em: 24 mar. 2014.

IPHAN. Dossiê do Marabaixo. Macapá, 2013a. Disponível apenas em meio digital.

IPHAN. Inventário das referências culturais do Marabaixo do Amapá. Macapá, 2013b. Disponível apenas em meio digital.

PEREIRA, Nunes. O sahiré e o marabaixo: tradições da Amazônia. Recife: FUNDAJ, Editora Massangana, 1989. 

TAMBORES no meio do mundo: o rufar da cidadania. Macapá: Seafro, 2012. Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/142747357/Folh-Tambores-no-meio-do-mundo-o-rufar-da-cidadania-GEA-2012>. Acesso em: 21 mar. 2014.

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: MORIM, Júlia. Marabaixo. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

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