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Arte Santeira

Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
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A religiosidade é componente crucial de uma manifestação artística que encontrou seu ápice no Piauí, estado do Nordeste do Brasil. A arte santeira pode até ser confeccionada em diversos cantos do país, mas, no Nordeste, assume uma proporção mítica e tradicional ao conjugar a representação de santos católicos com a religiosidade forte e presente em praticamente todos os lares da região. No Piauí, os mestres da arte santeira apresentam a habilidade em talhar todos os tipos de imagens em madeira e a delicadeza em manter a simplicidade nas peças que expressam uma visão de mundo.

Como tradição cultural, a arte santeira é um dos mais significativos braços da cultura popular e uma das forças do artesanato piauiense no campo da atividade turística. Ela consiste em esculpir, na madeira, as pequenas imagens de santos ou os ex-votos, que são peças que simbolizam diferentes partes do corpo, também feitas em madeira, geralmente para marcar o pagamento de alguma promessa ou a concessão de alguma graça por parte do santo protetor.

Seu desenvolvimento em Teresina é diretamente relacionado a dois imigrantes oriundos do interior do estado. O primeiro deles é José Alves de Oliveira, o mestre Dezinho, que após trabalhar como lavrador, carpinteiro, marceneiro e servente de pedreiro, chegou à capital do Piauí para trabalhar como operário na construção da Igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Seu talento de escultor foi descoberto pelo padre Francisco Carvalho, que aproveitou as rústicas imagens feitas por Dezinho no próprio templo, onde até hoje suas caracterizações de anjos, Nossa Senhora e do Menino Jesus podem ser vistas e apreciadas.

O segundo é Expedito Antônio dos Santos, o mestre Expedito, que veio para Teresina nos anos 1970 e chegou a esculpir peças maiores também na Igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Embora sejam mestres reconhecidos e admirados pelos jovens santeiros, Dezinho e Expedito possuem estilos diferentes, o que por si só atesta a singularidade da arte santeira. Enquanto Dezinho explora traços mais primitivos, exagerando, por exemplo, na representação das feições do santo, Expedito se aproxima do estilo barroco, mantendo-se mais fiel às proporções anatômicas e à escala natural do corpo humano.

Graças à originalidade e à diversidade no modo de produção dos artesãos locais, a arte santeira supera a tradição de outras regiões (em que se concretiza a partir de matérias-primas como a cerâmica, o gesso e a pedra sabão) no que se refere ao reconhecimento no País ou mesmo no exterior. Vislumbra-se uma boa oportunidade de exportação, principalmente para os países em que é vasto o número de católicos praticantes, como Itália, França, Espanha e Polônia. De acordo com um estudo feito pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE, 2005, p. 31).

a grande vantagem da arte santeira de Teresina em comparação à de outras regiões é a maior referência cultural, já que a madeira possibilita uma melhor inculturação artística da religiosidade popular, ou seja, há uma identificação dos santos e anjos com a figura típica e sofredora do homem nordestino, além de uma maior durabilidade das peças.

A arte santeira do Piauí, contudo, tem esbarrado em alguns entraves. O primeiro dele diz respeito ao elevado custo de matéria-prima. A melhor madeira é o cedro, que precisa ser trazida de Belém do Pará, o que encarece o processo. Na ausência do cedro, utiliza-se umburana, cerejeira e mogno na confecção das peças. Outro aspecto a ser considerado é o preço final das peças, o que tende a afastar o consumidor médio ou as camadas mais populares da sociedade de uma arte que nasceu justamente a partir dos mais humildes.

No entanto, nada minimiza a importância da arte santeira, ainda mais quando se leva em consideração que o Nordeste é uma região em que peregrinações religiosas fazem parte da vida corriqueira. Tanto em Canindé ou Juazeiro, no Ceará, como em São José do Ribamar, no Maranhão, ou em Santa Cruz dos Milagres, no Piauí, romeiros fazem procissões em vários meses do ano. A devoção deles é o maior combustível para que a arte santeira nunca desapareça.

 

Recife, 28 de maio de 2014.

 

 

FONTES CONSULTADAS:

 

 

CARVALHO, Danúbia Silva. A arte santeira como elemento de valorização da cultura popular em Teresina-PI na atividade turística. Interciências, Teresina, PI, v. 2, n. 1, jan./jun., 2010. Disponível em: <encurtador.com.br/bkFRU>. Acesso em: 15 maio 2014.

 

CAVALCANTE, Ivana Medeiros Pacheco. O patrimônio - cara de pau, cara de santo. Disponível em: <http://www.fumdham.org.br/fumdhamentos6/artigos/O%20patrimonio%20-%20Ivana%20Medeiros.pdf>. Acesso em: 15 maio 2014.

 

SAGRADA família. Foto neste texto. Disponível em: <http://artepopularbrasil.blogspot.com.br/2011/01/mestre-expedito.html>. Acesso em: 26 jul. 2016.

 

SEBRAE. Estudo da situação econômica do artesanato de Teresina: cerâmica, tecelagem, arte santeira e bordado. Teresina: SEBRAE; PI/Prefeitura de Teresina; Fundação Wall Ferraz, 2005. Disponível em: <encurtador.com.br/esOT2>. Acesso em: 20 fev. 2014.

 

 

COMO CITAR ESTE TEXTO:

 


Fonte: MORIM, Júlia. Arte Santeira. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

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