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Cuias de Santarém
Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
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O nosso artesanato de cuia é utilitário, é ornamental, tem também nas
danças, o pessoal usa muito a cuia. Então, assim, é um produto natural,
 vem da cuieira, não tem nada industrial, é tudo manual, ninguém usa máquina
pra nada. Nossas máquinas são nossos dedos, nossos estiletes e tudo, é cultural
porque a gente cria, a gente não copiou de outro né. É da memória, então
se a gente tem memória, a gente tem história.
 (Lélia Maduro. Carapanatuba. In: Arte na Cuia)

Reconhecidas por ser o recipiente em que é servido o Tacacá – caldo típico da região amazônica feito à base de tucupi –, as cuias artesanais, feitas a partir do fruto da árvore Crescentia Cujete, ou cuieira, são típicas da região de Santarém, no Pará, notadamente das comunidades das várzeas do rio Amazonas. Utilizadas para diversas finalidades – como taças, fruteiras, copos, potes, baixelas e também para decoração – a sua confecção segue a tecnologia tradicional que envolve cortar ao meio, lixar, tratar, tingir e ornamentar a cuia por meio de pintura ou de incisões.
  
A produção das cuias, que acontece nos quintais das casas ou debaixo de árvores, é uma atividade econômica eminentemente feminina e coletiva. Talvez seja uma das mais antigas na região do Baixo Amazonas, visto que a pintura das cuias tem registros em relatos de viajantes do século XVII.

Após a coleta da fruta da cuieira, o miolo é retirado – é nessa etapa em que acontece a maior participação masculina. A cuia é fervida, eliminam-se as imperfeições, muitas vezes com escama de pirarucu, e tinge-se com o cumatê, que é uma tinta natural vermelho-escuro, extraída da casca do axuazeiro. Em seguida, em jiraus, ocorre a fixação da tinta: as cuias são colocadas sobre um forro de palha espalhada sobre um local com urina e cinzas, de modo que a tinta, sob a ação da amônia aí liberada, sofre um processo químico e torna-se preta.  Depois de lavada, a cuia está pronta para ser decorada.

O repertório tradicional estampado nas cuias, repassado de mães para filhas, reflete  paisagens, fauna, flora, lendas e imaginário amazônicos. No caso dos grafismos feitos por meio de incisão são utilizados padrões gráficos chamados de tapajônicos ou indígenas e florais, baseados em arranjos florais da faiança portuguesa. 

A região do Aritapera destaca-se na fabricação das cuias. Lá, cinco comunidades – Enseada do Aritapera, Centro do Aritapera, Carapanatuba, Surubiu-Açu e Cabeça-d’Onça – estão organizadas na Associação das Artesãs Ribeirinhas de Santarém (ASARISAN), criada em 2003 com vistas a aprimorar a produção e a comercialização das cuias.

Presente no cotidiano das comunidades, o artesanato típico se tornou ícone da identidade do Pará sendo encontrado tanto em mercados quanto em lojas de souvenires. Em 2009, as cuias pintadas de Santarém tornaram-se Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Pará por meio da Lei Estadual n. 7.316.

Recife, 19 de maio de 2014.
 
FONTES CONSULTADAS:

NOVA Cartografia Social da Amazônia. Arte na cuia: experiência tradicional de saber fazer. Série cultura e resistência no Oeste do Pará. Manaus: UEA Edições, 2013. v. 1. 

SOUZA, Antônio Maria de; CARVALHO, Luciana Gonçalves (Org.). Terra, água, mulheres e cuias: Aritapera, Santarém, Pará, Amazônia. Belém: PRODETUR, 2012.

COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: MORIM, Júlia. Cuias de Santarém. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 

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