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Terreiro do Alaketu / Ilê Maroiá Láji
Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
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O mito fundador do Terreiro do Alaketu, ou Ilê Maroiá Láji, transmitido pela tradição oral, conta que este foi fundado há mais de trezentos anos, por uma africana, Otampê Ojaró, membro da família real de Ketu, que, ainda criança, foi, juntamente com sua irmã gêmea, raptada e vendida como escrava. No Brasil, assumiu o nome de Maria do Rosário Francisca Régis. Após a alforria, teria voltado à África, casado com Babá Láji, com o qual voltou a Salvador e fundou o terreiro. Assim, o Terreiro do Alaketu seria o mais antigo do Brasil. Contudo, estudos recentes (CASTILLO, 2011; SILVEIRA, 2003) apontam que, embora grande parte da memória oral encontre respalda em documentos e na historiografia, sua data de fundação é mais recente.

Segundo Castillo (2011), com base em documentos levantados em sua pesquisa e em dados historiográficos, pode-se concluir que a origem da fundadora é bastante plausível. O nome do terreiro significaria gente de Ketu, corruptela de ará Ketu, ou então seria uma menção à denominação dada ao rei daquele reino, aláketu. A consagração do terreiro a Oxóssi, talvez a mais importante divindade iorubá, também revela ligações com Ketu. Ainda, “o sobrenome da fundadora do terreiro, Ojaró, é uma das cinco linhagens do reino, mais conhecida como Aro”. (CASTILLO, 2011, p. 218). 

No tocante à data de fundação do terreiro, o período mais provável é a primeira metade do século XIX — em 1810 (SILVEIRA, 2003, p. 377), ou então entre os anos de 1833 e 1850 (CASTILLO, 2011, p. 216) — e não em 1616, conforme registrado no relato da Ialorixá Olga do Alaketu, ou em 1636, conforme placa no barracão do Alaketu. De acordo com Silveira (2003), não havia nagôs de Ketu no Brasil no século XVII, uma vez que o tráfico de escravos vindos da região onde foi o Reino de Ketu, hoje Nigéria e Benin, não havia se iniciado ainda. Esta região passou a ser alvo do tráfico no final do século XVIII. Porém, no simbolismo jeje-nagô, os números seis e dezesseis têm grande significado (SILVEIRA, 2003, p.349) e talvez por isso essa data de fundação tenha sido perpetuada. Assim, o Terreiro do Alaketu divide com o Terreiro da Casa Branca o posto de um dos mais antigos do País em atividade.

O Terreiro do Alaketu segue a tradição nagô, do povo Iorubá. Localizado na Rua Luís Anselmo, n. 67, Beco do Alaketu n. 13, ocupa cerca de 1.500 m2 no centro do que era a “roça” pertencente à família Régis desde início do século XIX. Com uma área de vegetação reduzida — o “mato” onde estão árvores sagradas —, possui em seu espaço “vários santuários individuais e assentamentos, a cozinha ritual, três residências de membros da família e o templo principal” (IPHAN, 2004, p.11), no qual estão 

o salão de cerimônias públicas (ou “barracão”) e, ainda, os santuários principais de Oxalá e Xangô; os aposentos para recolhimento e obrigação — também denominado de ‘camarinha’ ou ‘runcó’ — e outros para estar e guarda de objetos.

Há ainda os assentamentos de Okê, Ogum e Oxóssi onde estão enterrados os objetos sagrados trazidos pela família de Otampê Ojaró.

O comando da casa se dá por sucessão em linha matrilinear, de modo que é exercido por uma mulher que mantenha laços de parentesco com a fundadora. Dentre as Ialorixás, destaca-se Olga Francisca Régis, Olga do Alaketu, sobrinha-neta de Dionísia (Mãe Dionísia), falecida em 1953, e sua sucessora. Olga esteve à frente do Alaketu por cinquenta anos. Após sua morte, foi sucedida por Jocelina Barbosa Bispo (Mãe Jojó).

Uma das casas matrizes do culto afro-brasileiro, o Terreiro do Alaketu formou dezenas de “barcos” (turmas de filhos e filhas de santo) ao longo de sua existência. Para além da esfera religiosa, o terreiro assume também um papel de espaço de preservação da memória, transmissão de saberes e apoio comunitário.

Por sua importância para a cultura e a perpetuação da memória africana no pPaís, o Terreiro do Alaketu foi reconhecido como Território Cultural Brasileiro pela Fundação Palmares e, em 2005, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ou seja, foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil e, enquanto tal, deve ser salvaguardado para as próximas gerações. 

Recife, 2 de maio de 2014.

FONTES CONSULTADAS

CASTILLO, Lisa Earl.  O Terreiro do Alaketu e seus fundadores: história e genealogia familiar, 1807 – 1867. Revista Afro-Ásia, Salvador, n. 43, p. 213-259, 2011. Disponível em:

IPHAN. Parecer n.163/04 – 7ª SR, de 23 de março de 2004. Ref.: Processo n. 1.481 – T – 01 – Terreiro do Alaketu, em Salvador/BA. Salvador, 2004. v. I.

_____. Processo de tombamento n. 1.481 – T – 01. Salvador, 2001. v. I.

SILVEIRA, Renato. Sobre a fundação do Terreiro do Alaketo. Revista Afro-Ásia, Salvador,  n. 29/30, p. 345-379, 2003. Disponível em:

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: MORIM, Júlia. Terreiro do Alaketu/ Ilê Maroiá Láji. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:
<http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

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