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Vicente Salles
Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
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Vicente Juarimbu Salles foi um dos maiores pesquisadores e difusores da história e da cultura amazônicas. Nascido em 1931, na Vila de Caripi, Município de Igarapé-Açu, a 117 km de Belém, capital do Pará, formou-se em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia. Destacou-se pelos estudos da presença negra na Amazônia e publicou vinte e dois livros e cinquenta e uma microedições (livretos artesanais feitos por ele) em diversas áreas — música, folclore, literatura, teatro. 

Filho do rábula Clóvis de Mello Salles e da dona de casa Maria Cristina Passos Salles, ambos cearenses, Vicente foi o terceiro dos sete filhos do casal. Recebeu o nome indígena Juarimbu como uma homenagem de seu pai ao povo Tembé, o qual vivia na região em que nasceu. Durante sua vida, seguiu a família nas mudanças por cidades do Pará, acompanhando as oportunidades de trabalho do pai. Passou sua infância em Castanhal, onde foi amamentado por uma ama de leite, Maria Pretinha, quilombola que lhe ensinou cantigas e histórias. Seu pai o alfabetizou em casa, ambiente em que teve acesso a diversos livros da biblioteca paterna, de clássicos a literatura de cordel. De acordo com Souza (2013, p. 187), 

Além de livros, o mundo de Vicente era povoado pelas modinhas cantadas pela mãe, os serões políticos liderados pelo pai, que também gostava de ler, em voz alta e cantada, os romances de cordel, que mais tarde se tornaram objeto de estudo de Salles. O menino também estudou canto orfeônico e violino, mas acabou desistindo do desejo de se tornar músico profissional. 

Ainda adolescente, começou a trabalhar para ajudar a família com as despesas de casa. Em 1945, já em Belém, atuou como auxiliar de escritório datilografando cartas comerciais. Na ausência do chefe, escrevia poesias, cartas e artigos. Tinha gosto por coleções e, nessa época, começou a montar seu acervo, primeiramente relacionado à música. Nesse período, colaborou com a imprensa local.

O encontro com Edison Carneiro, folclorista baiano, em 1954, daria um novo curso à sua vida. Por ele, Salles foi incumbido de realizar um mapeamento dos terreiros de umbanda em Belém. O resultado desse levantamento subsidiou a inclusão da religiosidade negra na Amazônia nas pesquisas de Carneiro, assunto que era considerado de pouca relevância até então. Do mencionado folclorista, recebeu também o conselho de cursar a faculdade no Rio de Janeiro, para onde Salles partiu. 

No Rio de Janeiro, conheceu sua esposa, Marena, com quem teve três filhos: Marcelo, Mariana e Márcia. Trabalhou no Ministério da Educação e Cultura (MEC) como datilógrafo até 1961, quando foi transferido para a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (CDFB), onde permaneceu até 1972, sendo responsável por uma pesquisa de abrangência nacional sobre cultura popular. Atuou ainda na organização da Biblioteca Amadeu Amaral, hoje integrada ao Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, e na redação da Revista Brasileira de Folclore. No Conselho Federal de Cultura, foi membro da Câmara de Artes ocupando o cargo de secretário. A Câmara, segundo Souza (2013, p. 189), era “uma academia de notáveis intelectuais brasileiros, da qual fazia parte, entre outros, o sociólogo Gilberto Freyre”.
 
Nesse período, escreveu sua obra mais conhecida e de suma importância para os estudos sobre os negros na Amazônia: O negro no Pará sob o regime da escravidão, publicado em 1971. O livro apresentou a relevância do papel do negro na região Norte contrariando a tendência da época que acreditava que não teria havido presença negra suficientemente forte na região para influenciar a dinâmica cultural e os que lá chegaram já haviam perdido a “pureza africana”, aspecto levado em consideração para se realizar uma pesquisa. Mas
 
Salles foi na contramão, orientando-se por outros padrões teórico-metodológicos de uma pesquisa nessa área. Usando recortes de jornais, códigos de postura, autos de infração, literatura, música e imagens, mostrou por onde circulavam aqueles sujeitos, como participaram ativamente do movimento da Cabanagem e, finalmente, como contribuíram para a formação cultural, política e econômica da região amazônica. (SOUZA, 2013, p.189-190). 

Transferido para Brasília em 1975, colaborou com a criação da Fundação Nacional de Artes (Funarte). Nesta época, trabalhou com diversos produtores e artistas do país e participou da elaboração de vários discos. Aposentou-se em 1990, no Governo Fernando Collor de Mello. Mas não ficou parado. Continuou atuando e escrevendo.
 
Em meados da década de 1990, dirigiu, em Belém, o Museu da Universidade Federal do Pará, instituição para qual fez a doação do acervo de pesquisa coletado durante sua vida. O Acervo Vicente Salles, referência para pesquisa sobre a cultura amazônica, contém três mil livros, hemeroteca, dezenas de fitas magnéticas e partituras, e foi, segundo Souza (2013), alimentado por ele até antes de sua morte.
 
Assim como no que tange à presença negra na Amazônia, Salles foi pioneiro nas pesquisas sobre a produção da literatura de cordel na região. O escopo de sua obra é bastante abrangente, tendo sempre como tema condutor o negro e o folclore, num período de tempo que vai do século XVII ao XX. Em 2011, foi contemplado com o título de doutor “Honoris Causa” pela Universidade Federal do Pará pela contribuição à cultura do Pará e à do Brasil. 

Apesar de sua vasta obra, de ser autor de importantes escritos sobre o negro no Brasil e de sua contribuição para a historiografia da Amazônia, o autor é desconhecido fora da Região Norte. Souza (2011, p. 2) observa que, a despeito da universalidade de sua produção intelectual, ela não tem sido objeto de investigação na esfera acadêmica e, além disso, encontra dificuldades para a publicação por editoras comerciais ou institucionais. 

Salles voltou ao Rio de Janeiro em 2012 e faleceu nessa cidade, em março de 2013, deixando três livros prontos para publicação, entre eles Lundu: canto e dança do negro no Pará, e um enorme legado. 

Abaixo algumas de suas publicações:

Música e Músicos do Pará - (1970);
•O negro no Pará sob o regime da escravidão - (1971); 
•A música e o tempo no Grão-Pará - (1980); 
•Repente e cordel, literatura popular em versos na Amazônia – (1985);
•Memorial da Cabanagem - (1992);
•Época do teatro no Grão-Pará ou Apresentação do teatro de época - (1994); 
•Marxismo, socialismo e os militantes excluídos - (2001); 
•Vocabulário crioulo: contribuição do negro ao falar regional amazônico - (2003);
•O negro na formação da sociedade paraense: textos reunidos - (2003). 

Recife, 8 de maio de 2014.

FONTES CONSULTADAS:

MENEZES NETO, Geraldo Magela de. As contribuições de Vicente Salles (1931-2013) para os estudos da literatura de cordel na Amazônia. Nova Revista Amazônica, Manaus, v. 1, n. 2, p. 9-26, jul./dez. 2013. PPG Linguagens e Saberes da Amazônia, Bragança, Pará. Disponível em: <http://novarevistaamazonica.files.wordpress.com/
2014/01/geraldo_neto.pdf>. Acesso em: 5 maio 2014.  
 
OLIVETO, Karla Aléssio. Vicente Salles: trajetória pessoal e procedimentos de pesquisa em Música. Dissertação (Mestrado em Música em Contexto) – Instituto de Artes, Universidade de Brasília, Brasília, 2007. Disponível em:
<
http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/1621/1/Dissert_
Karla_Oliveto.pdf>. Acesso em: 5 maio 2014. 

SOUZA, Roseane Silveira de. Vicente Juarimbu Salles (1931-2013): o tempo vence o homem, não a obra. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. Hum., Belém, v. 8, n. 1, p. 185-194, 2013. Disponível em:
<
http://www.scielo.br/pdf/bgoeldi/v8n1/v8n1a11.pdf>. Acesso em: 5 maio 2014.

______. O sujeito visível: uma biografia de Vicente Salles. SIMPÓSIO NACIONAL DA ANPUH, 26., 2011, São Paulo. Anais... São Paulo, 2011. Disponível em:

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: MORIM, Júlia. Vicente Salles. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:
<http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

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