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Parteiras Tradicionais
Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
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Mães de umbigo, curiosas, parteiras do mato ou simplesmente parteiras são mulheres detentoras de conhecimentos acerca de costumes, técnicas e saberes “da arte de botar gente no mundo”, como chamou Mário Souto Maior. Essas mulheres, que sobrevivem de outras ocupações, vivenciam a mesma realidade sociocultural das mulheres atendidas e consideram seu ofício de parteira como mais uma de suas atribuições: “pegam menino” por solidariedade ou para suprir uma necessidade da comunidade onde vivem. Portanto, é comum não cobrarem pela atividade. Dia ou noite, embaixo de sol ou de chuva, “acodem” outras mulheres que dão à luz aos seus filhos em regiões de difícil acesso ou periferias de grandes cidades.

Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2010, p.15): 

estima-se que existe um número expressivo de parteiras tradicionais, principalmente das regiões Norte e Nordeste. Entretanto, não se dispõe de dados que expressem o real quantitativo das parteiras, pois existe um cadastramento insuficiente destas por parte das secretarias estaduais e municipais de saúde, visto que ainda é predominante a situação de não articulação do trabalho das parteiras tradicionais com o sistema de saúde formal.

Referências de saúde e figuras de liderança nos grupos em que atuam, exercem múltiplos papéis em suas comunidades (parteiras, agentes de saúde, mediadoras de conflitos, etc). Geralmente são mulheres mais velhas, sem formação acadêmica, mas com experiência e conhecimento acerca de técnicas, manobras e uso de ervas no ciclo de gestação, parto e pós-parto. Iniciam-se no ofício por acaso, destino ou “precisão” (por necessidade). 

A partir da primeira assistência, a mulher se faz parteira e, assim, passa a ser chamada para auxiliar outros partos. O aprendizado ocorre na prática e/ou com parteiras mais experientes. Algumas contam que a memória da experiência de seus próprios partos, observando as mulheres que lhe assistiram, foi ativada na hora em que precisaram ajudar as parturientes. Outras dizem que eram curiosas desde criança, que se escondiam embaixo da cama para ver a mãe dar à luz os irmãos ou ficavam escutando a conversa das mulheres mais velhas por trás da porta e, assim, já sabiam como agir na hora que fosse preciso. Em alguns casos, começam no ofício como auxiliares ou aprendizes de mulheres mais velhas e experientes nesse ofício. Atualmente, outro meio de adquirir conhecimento são os cursos de capacitação voltados para parteiras tradicionais promovidos pelo Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais de Saúde e/ou Organizações Não Governamentais (ONGs).
 
A prática do ofício das parteiras tradicionais consiste no acompanhamento da gestação, parto e pós-parto, com variações. Algumas parteiras são procuradas pela mulher durante a gestação. Outras não acompanham a gestação, apenas o parto e o pós-parto. Há casos em que apenas assistem o parto em si, ficando a responsabilidade pelos cuidados do pós-parto com os familiares da parturiente. 

Comumente, quando a mulher entra em trabalho de parto, alguém vai chamar a parteira, que, muitas vezes, antes de sair de casa pede apoio a Deus ou aos santos aos quais é devota. Essas mulheres levam consigo, quando disponível, o material para assistência ao nascimento da criança (tesoura ou kit da parteira fornecido nos cursos de capacitação). Na casa da parturiente, avaliam o bebê apalpando a barriga da mulher e a estimulam a se movimentar para “aumentar as dores” (contrações). Também são oferecidos chás e mingaus para “esquentar” e o bebê se “espertar” e achar “seu caminho”. Normalmente estão presentes familiares, vizinhas ou o futuro pai. Caso a parteira detecte algum problema e ache que o parto não deve acontecer em casa, a mulher é encaminhada ao hospital. 

Após o nascimento do bebê, algumas parteiras esperam a saída espontânea da placenta para então cortar o cordão umbilical, enquanto outras não. Geralmente, o corte do cordão é feito medindo três dedos a partir da barriga do bebê. Caso a placenta demore a ser expulsa, são utilizados chás, simpatias e orações como a de Nossa Senhora do Bom Parto ou a de Santa Margarida. Em último caso, a mulher é levada ao hospital.

Os primeiros cuidados com o bebê são prestados pela parteira, que comumente dá o primeiro banho e orientações quanto à forma de cuidar do coto umbilical do recém-nascido para que caia mais rapidamente. No pós-parto, por um determinado período de tempo, há uma série de restrições à puérpera tanto alimentares, quanto de atividades, a exemplo de não poder se abaixar, manter relações sexuais ou tomar banho com água fria. Entretanto, essas limitações vêm sendo modificadas ao longo dos anos, principalmente após as mulheres passarem a parir no ambiente hospitalar, onde os protocolos são diferentes.  Durante o período de resguardo, as parteiras dão orientações sobre alimentação, cuidados com o recém-nascido, por exemplo, e voltam à casa da puérpera para verificar seu estado de saúde e o do bebê. 

Apesar de não ser comum a cobrança do parto, por diversos fatores — a população assistida é carente; muitas parteiras acreditam que partejar é um dom divino e por isso não se deve cobrar; por não ser um trabalho oficial não esperam remuneração —, verifica-se uma troca simbólica pelo serviço prestado. A recompensa vem em forma de reconhecimento e agradecimento: são chamadas de mães ou madrinhas pelos filhos de umbigo e de comadres pelas mulheres que atendeu.

Ao longo dos anos, o número de partos atendidos por parteiras tradicionais vem diminuindo. Contribuem para esse fato, entre outras coisas, a diminuição da taxa de natalidade, o maior acesso aos serviços de saúde e a valorização do conhecimento biomédico. De acordo com o Instituto Nômades (2010, p.67),
 
Os saberes tradicionais relacionados à gestação, parto e puerpério, intimamente ligados ao conhecimento de ervas e à religiosidade, estão perdendo o espaço de transmissão que ocorria por meio da experiência prática e da observação durante o nascimento. Cabe destacar que muitas vezes esses saberes são de conhecimento da população em geral (a exemplo de interdições alimentares no pós-parto), principalmente das mulheres que vivenciaram a experiência de parir com a ajuda de uma parteira. Entretanto, há ainda a referência da comunidade a mulheres detentoras desses saberes e de outras “ciências”, que são as parteiras. 
Verifica-se uma mudança na forma de atuação da parteira, que passa a fazer o elo entre as mulheres e o serviço de saúde, muitas vezes acompanhando as parturientes até a maternidade. Devido à experiência acumulada, muitas parteiras enveredaram para o trabalho em hospitais, seja na função de auxiliar de enfermagem ou como parteiras hospitalares, e, mesmo aposentadas, continuam atendendo partos domiciliares e exercendo tarefas ligadas à enfermagem (aplicar injeção, fazer curativos, etc). (INSTITUTO NÔMADES, 2011). 

Recife, 23 de maio de 2014.

FONTES CONSULTADAS:

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Parto e nascimento domiciliar assistidos por parteiras tradicionais [recurso eletrônico]: o Programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais e experiências exemplares. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2010. Disponível em:
 <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/parto_nascimento
_domiciliar_parteiras.pdf
>. Acesso em: 21 maio 2014.
 
FUNDAJ. Parteiras tradicionais: entre a tradição e a contemporaneidade. Relatório de pesquisa. Mimeo. Recife, 2009.

INSTITUTO NÔMADES. Inventário Saberes e Práticas das Parteiras Indígenas de Pernambuco. Relatório Final. Mimeo. Recife, 2010. v. 1.

______. Inventário Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais de Pernambuco. Relatório Final. Mimeo. Recife, 2011. v. 1.

SOUTO MAIOR, Mário. Como nasce um cabra da peste. 2. ed. Recife: Grumete Serviços Editoriais, 1984.

COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: MORIM, Júlia. Parteiras tradicionais. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:
<http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

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