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Piaçabeiros
Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
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Piaçabeiro é quem corta piaçaba, quem conhece e beneficia. É quem sabe extrair.
(Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, 2007, p.3).

A extração da fibra da palmeira da piaçava (utilizada no fabrico de vassouras), do tupi “planta fibrosa”, é uma das principais atividades econômicas das populações que habitam o médio e alto Rio Negro e seus afluentes, no Amazonas. Aqueles que vivem dessa prática extrativista são conhecidos como piaçabeiros, ofício que envolve a localização e abertura dos caminhos até os piaçabais; corte, limpeza e beneficiamento da piaçava; transporte até a paragem onde o produto é pesado e negociado.

Como os piaçabais estão localizados em igarapés, braços de rio que adentram a mata, é necessário que os trabalhadores montem uma colocação, ou seja, abram um descampado e construam barracas (para morar e para armazenar o produto), para permaneceram durante a coleta da fibra, período que pode durar de seis meses a um ano. Da colocação é preciso abrir caminhos até as palmeiras, que ficam normalmente a algumas horas de distância de caminhada.
 
O trabalho se inicia cedo, às 4 ou 5 horas da manhã, pois o caminho a ser percorrido é longo. Com pouco de café, às vezes em jejum para não perder tempo, seguem carregando um pouco de chibé (água com farinha de mandioca), faca e lamparina. Ao longo do dia, trabalham arduamente para conseguirem uma boa quantidade de piaçava. No começo da tarde, iniciam o regresso para estarem de volta ao acampamento ainda de dia, já que se gasta muito tempo no deslocamento. 

Para realizar esse trabalho é preciso ter grande conhecimento da floresta e diversas habilidades, como aponta Reis (2007, p. 72; 74):

O piaçabeiro deve conhecer as manhas da floresta, os rios e seus meandros, as entradas e saídas dos igarapés, os locais que são fontes de alimentos, as técnicas de captura de  animais e de plantio, como achar as piaçabeiras, como cortar suas fibras, como evitar que a piaçabeira morra, como explorar o produto, entre outros elementos de sobrevivência. 
[…]
O piaçabeiro além de extrair piaçaba, amarra, carrega, descarrega, corta paus, rema, guia, constrói barracos, pesca, caça, dentre outras atividades. Naufragar e arrastar canoas são dificuldades costumeiras que acompanham a vida destes trabalhadores nos piaçabais, que faziam e ainda fazem este sacrifício porque têm necessidade quando não encontram alternativa mais rentável. 

Apesar de autônomo, sem acesso a direitos trabalhistas, o piaçabeiro tem um patrão, que o chama de freguês. Os patrões são aqueles que se dizem donos dos igarapés, para quem os piaçabeiros vendem seus produtos e que antecipam algum dinheiro, deixado com a família, e fornecem mercadorias num sistema de aviamento, de modo que os piaçabeiros adentram a floresta já com dívidas a pagar. “O patrão chega, pesa o produto e tira a tara que pode chegar a 30%. Faz a despesa, mais ou menos de três mil reais, e acerta a conta que no final ficamos sempre devendo”. (PROJETO, 2007, p. 3). Dessa forma, dificilmente há um saldo, sendo o regime de trabalho análogo à escravidão. Devido às péssimas condições de trabalho, os piaçabeiros chegam a ser considerados os novos seringueiros, em referência aos que trabalharam na extração do látex dos seringais.

Diante desta realidade, o Ministério Público Federal e o Ministério do Trabalho vêm conduzindo investigações, realizando fiscalizações e resgatando trabalhadores encontrados em condições similares às do trabalho escravo. 

Por um piaçabal livre e condições de trabalho dignas, os piaçabeiros se organizaram na Cooperativa Mista Agroextrativista dos Povos e Comunidades Tradicionais do Médio Rio Negro (COMAGEPT) e demandam dos poderes públicos “a imediata regularização fundiária para que os piaçabeiros possam garantir o direito de explorar os recursos naturais de forma sustentável, assegurando o sustento de suas famílias e não sendo submetidos a trabalho forçado”. (PROJETO NOVA CARTOGRAFIA SOCIAL DA AMAZÔNIA, 2007, p. 4).

Recife, 29 de maio de 2014.

FONTES CONSULTADAS:

CONAB. Conjuntura Mensal – Piaçava (fibra). fev. 2014. Disponível em: 
piacavafibrafevereiro2014.pdf>. Acesso em: 28 maio 2014.

FERREIRA, Evandro J. L. A exploração da palmeira piaçava no vale do rio Juruá, Acre. Revista Cidadania e Meio Ambiente, Rio de Janeiro, 29 nov. 2005. Ecodebate. Disponível em:
 
OPERAÇÃO resgata 13 trabalhadores em condições análogas à escravidão em Barcelos (AM). Instituto Socioambiental. 16 maio 2014. Disponível em: 

PROJETO Nova Cartografia Social da Amazônia. Piaçabeiros do Rio Aracá, Barcelos – Amazonas. Manaus, fasc. 17, jul. 2007. (Série Movimentos sociais, identidade coletiva e conflitos). 

REIS, Lilia Maria de Oliveira. Os piaçabeiros de Barcelos. 2007. Dissertação (Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia) – Instituto de Ciências Humanas e Letras, Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2007.

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: MORIM, Júlia. Piaçabeiros. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:
 <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

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