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Anastácia: a rainha do forró
Cláudia Verardi
Bibliotecária - Analista em C&T da Fundação Joaquim Nabuco
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Lucinete Ferreira, de nome artístico Anastácia, cantora e compositora, nasceu no Recife, em 30/5/1941. Despertou desde criança o interesse pela música, aos sete anos de idade já acompanhava um cantador de cocos no bairro Macaxeira, onde morava.

Em 1954 iniciou a carreira cantando na Rádio Jornal do Comércio no Recife. Inicialmente interpretava canções do sul do país, principalmente os sucessos de Celly Campello.

Autora de “Eu só quero um Xodó” e mais 212 composições feitas em parceria com o sanfoneiro Dominguinhos. De acordo com Maria (2013, p. 1), por 11 anos marido e mulher foram “letra e música’:

Domingos acordava cedo, preparava o café, tomava um banho e se sentava com a sanfona no peito. Ligava o gravador e registrava suas ideias. Depois, Anastácia inspirava-se nas melodias e criava as letras. Dominguinhos nunca compôs versos, apenas melodias.

Anastácia entrou na vida de Dominguinhos depois da primeira esposa Janete com a qual teve um filho: Mauro. Estava separado quando cruzou com a cantora e compositora nos palcos do Nordeste em 1967, depois de ganhar a benção de Luis Gonzaga e se tornar “O príncipe do baião”. Foi durante uma turnê que durou 3 meses e meio pelo sertão, começando pela Bahia, que a compositora e Dominguinhos se apaixonaram mas não queriam que Luis soubesse. Quando chegaram a Aracaju, no entanto, ela fez uma declaração de amor em forma de música para revelar sua paixão por Dominguinhos, assim nasceu a composição “Mundo de amor”.

Anastácia não toca nenhum instrumento, mas, escreve letras e faz melodias bem como desenvolve temas a pedido de amigos. Alguns artistas famosos já cantaram canções de sua autoria. Como é o caso de Gilberto Gil gravou duas canções da cantora em parceria com Dominguinhos, que passaram a ser clássicas: “eu só quero um xodó” e “tenho sede”.

A canção “Eu só quero um xodó” segundo a própria Anastácia, foi regravada por 440 artistas em todo o mundo.

Segundo Rosa (2011, p. 564), outras canções de Anastácia e Dominguinhos foram gravadas, por artistas de renome como Marinês, Gal Costa, Nana Caymmi, Jane Duboc, Gilberto Gil, dentre outros.

Uma de suas composições favoritas em parceria com Dominguinhos é “Contrato de separação”, também gravada por Nana Caymmi, que foi criada em uma noite de saudade quando o marido estava em uma turnê com Gal Costa:

“Olha essa saudade que maltrata o meu peito/ É ilusão e por ser ilusão/É mais difícil de apagar/ Ela vai me consumindo lentamente/Ela brinca com meu peito/E leva sempre a melhor/Eu quis fazer com ela/Um contrato de separação/Negou-se então a aceitar/Sorrindo da minha ilusão”.

Filha de operários de uma fábrica de tecidos na época famosa: Cotonifício Othon, que se localizava na Avenida Norte, no bairro da Macaxeira em Recife, embora não tivesse nenhum parente artista e nem mesmo encontrado apoio familiar para seguir essa carreira, Anastácia se profissionalizou como cantora da fábrica onde a mãe, então viúva, trabalhava. Aos 14 anos passou a ganhar maior salário que sua genitora e, portanto, decidiu “tirar” a mãe da fábrica passando a ser a principal provedora da família, sustentando a mãe, irmãs, irmãos e sobrinha. Trabalhou como atriz, comediante, vendedora e secretária, antes de se tornar uma grande compositora de forró reconhecida a nível nacional.

Rosa (2011, p. 559), comenta que o livro “Eu sou Anastácia: histórias de uma rainha” não se trata apenas de uma cronologia por apresentar, de uma forma extremamente humana, as diversas faces de uma artista brasileira de peso em suas múltiplas competências artísticas e pessoais.

O livro anteriormente citado mostra claramente as relações étnico-raciais e de gênero que fizeram parte da história de vida de três gerações: avó, mãe e filha. A avó materna foi vítima fatal de violência doméstica, a mãe enfrentou a viuvez e a discriminação com seu novo relacionamento por ser negro o seu companheiro e Anastácia enfrentou o racismo e sexismo por ser uma artista nordestina.

Portanto, é uma obra que contribui não somente para o campo de estudos da música popular brasileira e especialmente, o forró, trazendo o que é raro no panorama da música nacional ainda hoje: a atuação de mulheres compositoras-intérpretes que alcancem uma visibilidade artística (ainda mais aquelas oriundas da região Nordeste), assim como,também, para os estudos sobre raça e gênero, dentro do campo dos estudos feministas. (ROSA, 2011, p. 560).

A música “Mundo de amor” gravada por Marinês e posteriormente por Gal Costa teria marcado Dominguinhos por se descobrir compositor segundo seu próprio depoimento: “foi aí que descobri que eu era compositor; por causa de Anastácia, por que foi ela quem começou a botar letra nas minhas músicas!” (FERREIRA; DIAS, 2011, p. 254).

Anastácia como mulher, nordestina, cantora e compositora, é uma peça importante no cenário musical brasileiro, tendo nos agraciado com cerca de 600 belíssimas composições de forró, das quais 210 em parceria com Dominguinhos, que expressam da melhor maneira possível suas vivências e memórias afetivas como observamos, por exemplo, na letra da canção “Eu só quero um Xodó”:

Que falta eu sinto de um bem
Que falta me faz um xodó
Mas como eu não tenho ninguém
Eu levo a vida assim tão só...

Eu só quero um amor
Que acabe o meu sofrer
Um xodó prá mim
Do meu jeito assim
Que alegre o meu viver


Recife, 29 de julho de 2016.



FONTES CONSULTADAS:

ANASTÁCIA, compositora pernambucana, foi parceira de Dominguinhos em mais de 200 canções. Disponível em: <http://g1.globo.com/pb/paraiba/paraiba-comunidade/videos/v/anastacia-compositora-pernambucana-foi-parceira-de-dominguinhos-em-mais-de-200-cancoes/2718761/>. Acesso em: 8 jul. 2016.

ANASTÁCIA. Foto neste texto. Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/-B5H1h2Fw5yM/Te2Je90hLqI/AAAAAAAAD1I/P-GC1Kwd1IQ/s320/12222.jpg>. Acesso em: 19 jul. 2016.
DICIONÁRIO Cravo Albin da Música Popular Brasileira. 2016? Disponível em: <http://dicionariompb.com.br/anastacia/dados-artisticos>. Acesso em: 19 jul. 2016.

FERREIRA, Lucinete; DIAS, Lêda. Eu sou Anastácia!: histórias de uma rainha. Recife: FacForm, 2011.

MARIA, Julio. O Tesouro de Dominguinhos. 2013. O Estado de São Paulo. Disponível em: <http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,o-tesouro-de-dominguinhos-imp-,1058173> . Acesso em: 8 jul. 2016.

ROSA, Laila. Eu sou Anastácia: histórias de uma rainha. Caderno Espaço Feminino, Uberlândia/MG, v. 24, n. 2, p. 559-565, Jul./Dez. 2011 Disponível em: <http://www.seer.ufu.br/index.php/neguem/article/viewFile/14459/9522>. Acesso em: 8 jul. 2016.
 

 
COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: VERARDI, Cláudia Albuquerque. Anastácia. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:. Acesso em: <http://basilio.fundaj.gov.br/undefined/pesquisaescolar>. dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

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