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Ilha Joana Bezerra - Coque (Bairro, Recife)

Analice Albuquerque Barbosa
Érica Montenegro de Melo

Professoras da Escola Municipal do Coque
(Programa Manuel Bandeira de Formação de Leitores).
Cláudia Verardi
Bibliotecária - Analista em C&T da Fundação Joaquim Nabuco
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Há muitos anos, quando o Recife já se libertara da ideia de vila construída em torno do Porto, quando a reforma sanitária do início do século XX já tinha acontecido e quando começou o crescimento da cidade em direção aos subúrbios, um comerciante resolveu doar uma parte de suas terras para a expansão da cidade. O senhor Belchior e sua esposa Joana Bezerra doaram uma das ilhas do Rio Capibaribe, na qual a maré subia e descia ao sabor das horas e de onde os moradores tiravam seu sustento com os peixes e frutos do mar. E assim começou a história da Ilha Joana Bezerra, localizada a cerca de 2 km do Marco Zero do Recife.

Era uma pequena porção de terra cercada pela água límpida do Rio que naquele tempo ainda tinha areias claras e água limpa. Para homenagear a antiga dona daquelas terras, o povo que morava ali deu seu nome ao lugar e lá passaram a viver muitas pessoas que trabalhavam na região do centro do Recife e nos bairros mais próximos, a exemplo de Afogados e mesmo do Bairro de São José, que estava também em expansão. Como o próprio nome diz, é uma ilha, pois está cercada de água e ligada a outros bairros por pontes e viadutos.

O alto crescimento demográfico rapidamente fez com que o povoado fosse elevado à categoria de bairro, cujo nome oficial é Ilha de Joana Bezerra, segundo os vários mapas que consultamos da cidade do Recife, mas é popularmente conhecido como Comunidade do Coque. Muitos se perguntam qual é a verdadeira identidade do bairro, uma vez que o nome Coque tornou-se muito mais popular. Este é um pouco mais atual e surgiu porque os primeiros habitantes do bairro sobreviviam da extração do carvão mineral que era conhecido como coque, facilmente encontrado na região. Muitos moradores relatam uma carvoaria vegetal próximo ao pontilhão que corta a principal rua do bairro e outros fazem referência a esse carvão natural, mas quase não há registros desses achados nos documentos oficiais.

Com o passar do tempo, a comunidade foi crescendo sem que houvesse um planejamento e contando com poucos investimentos em urbanização. Existem poucos registros oficiais do bairro na época do seu surgimento, porém, as fotografias antigas revelam que esse crescimento desordenado acarretou visível desigualdade social no bairro. Os moradores mais antigos vieram em busca de trabalho e por falta de moradia foram ocupando espaços, construindo barracos e palafitas, avançando pelo Rio Capibaribe, aterrando e construindo sobre a água.

Esse crescimento demográfico foi acompanhado de violência nas mais diversas áreas. Cabe aqui apresentar o pensamento de Josué de Castro (1984) que defende a ideia de que a fome é propulsora da “morte” do sujeito em suas mais diversas esferas, pois ao analisar a situação do bairro, verificamos que a comunidade cresceu sobre o Rio Capibaribe em quantidade não em qualidade. Fato esse comprovado pelos diversos problemas que fazem parte da realidade do bairro: serviços de saúde precários, ausência de esgotamento sanitário, recolhimento inadequado do lixo e constante falta de água, entre outros.

Segundo Prefeitura (2016?, p. 1), que revela dados do último censo, a população de 12.629 habitantes é predominantemente parda, constituída por 52,47% de mulheres e 47,53% de homens, distribuídos em mais de três mil domicílios que se amontoam nos 87 hectares. Coque (2016?, p.1), no entanto,  aponta dados divergentes quanto ao número de habitantes: cerca de 40.000 habitantes em 133 hectares.

Quando se trata de desenvolvimento humano, o bairro do Coque é um claro exemplo do que a ausência de políticas públicas podem acarretar, como se vê:

O Coque é o último colocado no ranking do Desenvolvimento Humano recifense. A população local sofre com graves problemas de saneamento, moradia, meio-ambiente, educação e saúde. Os índices de pobreza da região são gritantes: 57% da população vive com renda mensal entre 130 e 260 reais, número abaixo da média estadual, segundo o Mapa do Fim da Fome II (Abril/2004). A partir de índices sociais tão negativos, a escalada da violência vem crescendo em gravidade, tornando-se o maior desafio para as instituições governamentais ou não-governamentais que lá atuam (COQUE, 2016?, p. 1).

A renda média da população é de um salário mínimo, o que dificulta a subsistência digna da população e lhes obriga a procurar as mais diversas formas de trabalho para o sustento das famílias.

O quadro abaixo apresenta, em números, as principais características do bairro.

 

 Quadro 1 – Apresentação das instituições da Comunidade do Coque.


Fonte: As autoras.

 

A violência, infelizmente, é a referencia mais marcante dessa comunidade. A expectativa de vida é baixíssima e os altos índices de criminalidade elevam o Coque à categoria de área perigosa, ainda que esteja situada em área nobre da cidade. Sua localização entre a praia e o centro comercial, junto ao polo médico e à beira do Rio Capibaribe, despertam a especulação imobiliária e promovem certas ações de “expulsão” de seus moradores, a despeito do que aconteceu, por exemplo, com a comunidade Entra a Pulso, em Boa Viagem, que foi engolida pelas construções. Assim, a Ilha Joana Bezerra e a comunidade do Coque lutam cotidianamente pela preservação de seu espaço, para que sua população consiga manter e fortalecer sua identidade.

Chama a atenção dos pesquisadores e de toda a sociedade o quanto a comunidade, apesar de todo o descaso político e econômico, resiste em seu direito à permanência neste lugar. Os moradores têm uma identificação e valorização de seu espaço, o que se vê claramente na participação da comunidade em importantes movimentos sociais como o “Coque (R)existe” que discute a identidade do bairro a partir de suas lutas para barrar a especulação imobiliária. (CISNEIROS, 2013, p. 3).

Mesmo assim, pesquisa realizada por doutorandos em sociologia da UFPE mostrou que 86,8% dos moradores gostam muito de viver lá, apesar dos estigmas alimentados pela mídia e pela alta especulação imobiliária do local (Ibid).

"É por isso que o Coque Vive! Por que tem muita gente nele, e, onde tem gente, tem vida!" (COQUE, 2016?, p. 1). Esse é o lema de muitas das instituições que lutam pela permanência dos moradores na comunidade, primando pelo cuidado com investimentos que ofereçam melhor qualidade de vida.

A partir de movimentos da população apoiados pela sociedade civil, a comunidade participou da criação das ZEIS - Zonas Especiais de Interesse Social, que protegem o direito a moradia, importante avanço na conquista da garantia de ocupação do espaço pelos próprios moradores. No entanto, ainda não há planos de intervenção urbana que garantam a melhoria do lugar, enquanto política pública.

Atualmente no Coque existem ações de cidadania por todos os lados devido à atuação de algumas ONG’S e dos próprios moradores dispostos a transformar a dura realidade. O Bairro conta com o Museu da Beira da Linha do Coque (Museu Audiovisual Itinerante), a Biblioteca Comunitária, a Academia da Cidade e diversos projetos que contemplam principalmente crianças e adolescentes. Nas escolas se veem ações pedagógicas permanentes para que as crianças possam atuar na melhoria da comunidade, enquanto agentes de transformação de seu espaço. Essa semente para as novas gerações é a garantia de que a história do Bairro será transformada.

 

Recife, 13 de outubro de 2016.

 


 FONTES CONSULTADAS:

  

CISNEIROS, Leonardo. Nota coletiva de associações, coletivos e entidades do Recife sobre o Projeto Novo Recife. 2013. Disponível em: <https://direitosurbanos.wordpress.com/tag/coque/>. Acesso em: 8 set. 2016.

COQUE. Foto nesse texto. Disponível em: <http://wikimapia.org/9050763/pt/Ilha-Joana-Bezerra#/photo/1483279>. Acesso em: 13 out. 2016.

COQUE vive. 2016? Disponível em: <https://coquevive.wordpress.com/coque/>. Acesso em: 12 set. 2016.

ILHA Joana Bezerra. In: RECIFE. Prefeitura. [2016?]. Disponível em:< http://www2.recife.pe.gov.br/servico/ilha-joana-bezerra>. Acesso em: 10 set. 2016.

 

 

COMO CITAR ESTE TEXTO:

 

Fonte: BARBOSA, Analice Albuquerque; MELO, Érica Montenegro; VERARDI, Cláudia Albuquerque. Ilha Joana Bezerra - Coque. (bairro, Recife). Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br//>. Acesso em: dia mês ano. Ex. 6.ago.2009.

 

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