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Carnaval: origem e evolução

Cláudia Verardi
Bibliotecária - Analista em C&T da Fundação Joaquim Nabuco
Lara Nogueira
Monitora da Fundação Joaquim Nabuco
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A palavra carnaval derivada da expressão latina “carne levale”, começou a se tornar conhecida por volta dos séculos XI e XII e significa “retirar a carne”, ou seja, “abstenção da carne” e está associada ao controle dos prazeres mundanos.

Apesar de ser lembrada apenas como uma festa pagã, o período chamado carnaval marca a véspera da quarta-feira de cinzas, exatamente o dia em que se inicia a abstenção de carne (jejum da Quaresma). O carnaval está, portanto, diretamente ligado à Quaresma, pois, é como se fosse uma última oportunidade de dar vazão às compulsões antes do período de 40 dias de jejum e oração que antecedem a Páscoa. Os Cristãos geralmente se abstêm de certos alimentos ou atividades que gostam de praticar como penitência para se prepararem para a Páscoa.

As comemorações do carnaval costumam se iniciar no sábado e se estendem até a quarta-feira de cinzas. A “terça-feira gorda” é oficialmente o último dia de Carnaval e a quarta-feira de cinzas marca o início da Quaresma (que antecede a Páscoa). Essa época é caracterizada por muita folia e irreverência, pois as pessoas liberam a imaginação nas fantasias, músicas e bailes.

A data da Páscoa define a data do carnaval e outras datas “móveis” (mudam a cada ano) do calendário. A Igreja Católica celebra a Páscoa (Ressurreição de Cristo) acompanhando o calendário judaico que celebrava a libertação da escravidão do Egito para a liberdade da Terra Prometida por Deus a Abraão. De acordo com Aquino (2008, p. 1): “...o calendário judeu era baseado na Lua, então a data da Páscoa cristã passou a ser móvel no calendário cristão, assim como as demais datas referentes à Páscoa, tanto na Igreja Católica como nas Igrejas Protestantes e Igrejas Ortodoxas”.

Os países católicos do sul da Europa e América latina costumam celebrar todos os anos a festa de carnaval e em cada lugar as manifestações são bastante diversificadas, mas, têm em comum a alegria e a descontração.

As festas de carnaval nos contam muito sobre um povo e seus anseios, revelando em suas manifestações de folia seus costumes, modo de pensar e de viver, bem como por vezes revelam situações de crise política ou social.

O período de carnaval proporciona aos indivíduos uma sensação ilusória de igualdade e liberdade, diminuindo as diferenças entre as camadas sociais e indo também de encontro aos tabus e regras da sociedade:

A festa carnavalesca é o momento de total inversão do regime dominante: a liberação, ainda que provisória, a abolição das hierarquias, regras e tabus, o congraçamento pagão. Desejos oníricos de um lugar outro e de um tempo outro, de uma utopia e de uma ucronia. Tal abolição tem um sentido especial. Nas festas oficiais, as distinções hierárquicas, com insígnias, títulos, discursos e pompas, marcavam intencionalmente as desigualdades. Na festa popular, o ideal utópico e o real constituíam uma parte essencial da visão carnavalizada da vida e do mundo. Em consequência, essa eliminação provisória, ao mesmo tempo ideal e efetiva, das relações hierárquicas entre os indivíduos, criava na praça pública um tipo particular de comunicação, inconcebível em situações normais (BAKHTIN, 1993, p. 9).

No Brasil fica muito evidente essa inversão de valores, o sarcasmo e a ironia que brincam com situações da realidade. São várias as demonstrações do “mundo ao revés”, de acordo com Miranda (1997, p. 134): troca-se o dia pela noite, a vida do bairro pelo centro da cidade, o território do trabalho dá lugar ao território da dança e do prazer. Os papéis sexuais e sociais são trocados: homens machistas vestem-se de mulher, adultos usam fraldas e chupetas, homens sérios fantasiam-se de malandros, negros e brancos fantasiam-se de índios, pobres usam fantasias de nobres, pessoas de outras classes sociais vestem-se de mendigos e mesmo os mais animados foliões cobrem-se com “mortalhas” como se quisessem reverenciar a morte. Esses contrastes causam admiração e graça e fazem parte da espontaneidade e irreverência próprias da época.

Ainda de acordo com Miranda (1997, p. 126), a festa carnavalesca é um traço marcante quase onipresente em várias práticas culturais e no imaginário do povo brasileiro, influenciando as manifestações artísticas tanto no cinema, como na literatura e na música.

A forma mais antiga de diversão nessa época do ano era o entrudo, que foi trazida pelos colonizadores portugueses em que senhores e escravos saíam às ruas para participar de jogos e brincadeiras onde aparentemente estavam em situação de igualdade, porém, seus papéis definiam bem em que posição estavam já que, comumente, os escravos eram os “alvos” nas brincadeiras de atirar limões e laranjas de cheiro, por exemplo. Nessa época os negros costumavam brincar entre si quando os senhores já haviam se recolhido ou pela manhã bem cedo.

Houve uma considerável mudança nas camadas sociais nas cidades do centro-sul no período de 1870 a 1930 devido ao rápido enriquecimento trazido pela cultura cafeeira, primeiramente ao redor do Rio de Janeiro ocupando depois o Vale do Paraíba em direção a São Paulo.

Nesse período apareceram formas de divertimento que se restringiam ás camadas superiores da sociedade em detrimento às maneiras antigas de festejar que começaram a ser vistas como inadequadas e passaram a ser exclusivamente das camadas mais populares.

A camada mais abastada modificava suas atividades festivas pela importação e adaptação às condições brasileiras das maneiras europeias de se divertir, não criando nada de realmente novo, apenas utilizando suas possibilidades econômicas para aqui introduzir as usanças d’além-mar; as camadas populares, no entanto, não contando com recursos necessários às importações, usavam sua criatividade e as experiências anteriores para elaborar formas novas de divertimento. (SIMSON, 1981, p.47).

No século XIX e início do século XX, estando já desenvolvidos os meios de comunicação, os jornais da época começaram a fazer campanha contra o entrudo, pois somente aos burgueses era permitido desfilar e o povo apenas podia assistir sem participar. Já existia há bastante tempo uma série de medidas municipais que proibiam essas brincadeiras das camadas mais altas da sociedade e cobravam dos chefes de polícia o cumprimento das mesmas.

O Entrudo era uma forma primitiva e violenta de diversão que se baseava em atirar coisas uns nos outros (água, farinha, frutas, etc.) e permaneceu até os anos de 1880, quando a intensa campanha da imprensa juntamente com a ação repressiva da polícia tornou o carnaval mais “civilizado”.

De acordo com (Galdin, 2000; p.49) na década de 1880, aconteceu uma junção do carnaval de rua (o prétito) com carnaval de salão (os fantasiados dos bailes) e dessa união nasceram as associações carnavalescas.

O Brasil recebeu influência dos bailes de carnaval de outros países, a exemplo da Itália, sobretudo de Veneza com seus desfiles de máscaras. Ainda hoje, quando se fala em carnaval na Itália, normalmente são lembradas as festividades de Veneza e Viraggio,  na Toscana, pois conquistaram fama mundial.

Muitos dos trajes e figurinos característicos do século XVIII,  tentavam reproduzir o estilo e a moda dos nobres desta época, as mascaras nobres, com caretas branca, roupa de seda negra e chapéu de três pontas. Posteriormente somaram-se a essas o modelo das personagens da Commedia dell’Arte (figuras de representações teatrais comuns na Itália e em toda Europa desde o século XVI até meados do século XVIII – algumas cultuadas até os dias atuais):

...Arlequim ( criado de roupa em losangos, inteligente, sedutor e trapalhão), a Colombina (criada, sua apaixonada), Briguela (criado ganancioso e espertalhão), o Burratino (criado sagaz), o capitão Scaramouche ( aventureiro militar e navegador) , Doutor (médio ou aristocrata), Pantaleão (mercador aventureiro estúpido), Polichinelo (corcunda enamorado, cruel e astuto), os Zanni (criados espertos e atrevidos), os Jester ( palhaços, bobos ou tolos), as damas elegantes e requintadas, a que se juntaram depois as máscaras do Pierrot (figura inocente, belo, charmoso e gentil) e dos gatos, entre outras mais recentes. Não esqueçamos que, afinal, Veneza era o ambiente primordial por excelência deste gênero teatral. (FERRO, 2014, p .41).

Apesar da forte influência europeia, sobretudo nos bailes de carnaval conhecidos como “Carnaval de Salão”, atualmente é um tanto quanto impreciso falar do carnaval do Brasil como um todo. As manifestações variam de região para região e até mesmo de cidade para cidade. As mais expressivas festas de carnaval do país são as da cidade do Rio de Janeiro (no Rio de Janeiro), Salvador (na Bahia) e as de Recife e Olinda (ambas em Pernambuco).

Segundo Miguez (p. 75), o carnaval carioca, caracteriza-se, especialmente, pela sua condição de espetáculo; a marca do carnaval pernambucano é a tradição juntamente com a participação popular; o carnaval baiano, também reconhecido pela sua grande participação popular, busca manter a tradição mesclada às inovações.

No Rio de Janeiro o espetáculo fica por conta das escolas de samba que, conjugando artes plásticas, música, poesia e dança, buscam harmonizar-se durante todo o desfile.  A apresentação de cada uma delas é um show à parte e os desfiles atraem turistas do mundo inteiro.

O carnaval de Salvador assemelha-se ao do Rio de Janeiro no que se refere à característica de espetáculo, pois a criação do trio elétrico em 1950, pelos baianos Dodô e Osmar, modificou totalmente o panorama do carnaval da Bahia. Os foliões passaram a “pular carnaval”, ou seja, dançar com movimentos livres seguindo os trios elétricos que são como palcos móveis.

Em Pernambuco, há mais de uma década o carnaval de Recife foi denominado pelos órgãos oficiais como “carnaval multicultural” devido às diversas formas de manifestação popular observadas nessa época do ano:

De um lado, a tradição, representada pelos espetáculos populares, a exemplo do maracatu de nação, do maracatu rural, dos blocos de frevo, das troças, dos clubes de alegoria e crítica, dos caboclinhos, das tribos de índios, dos ursos, dos vários grupos de afoxés, das escolas de samba, dos reisados e dos bumba-meu-boi; de outro, a cena musical que nos é contemporânea. (VIEIRA, 2014, p. 113).

A abertura oficial do carnaval da cidade do Recife é marcada com o desfile do Galo da Madrugada.

O Galo da Madrugada é um bloco carnavalesco que sai todo sábado de carnaval na região central da cidade do Recife. A agremiação foi criada por Enéas Freire em 1978. Os foliões começam a chegar por volta das 7 horas da manhã a pé ou posicionam seus barrcos no Rio Capibaribe para acompanhar a passagem do bloco cuja saída oficial se dá às 9 horas e os trios elétricos tocam até às 18 horas.

...em 1994, veio o reconhecimento internacional do livro dos recordes, o Guinness Book. Tornou-se, então, oficial: o Galo da Madrugada era considerado o maior bloco de carnaval do planeta, num carnaval que reuniu um milhão e meio de foliões. O título estampou a edição do ano seguinte do livro. Para comemorar e também reverenciar a majestade do carnaval pernambucano que acabara de ganhar o mundo, a Prefeitura do Recife pôs, em 1995, um gigantesco galo sobre as águas do Rio Capibaribe, tornando ainda mais belo o espetáculo carnavalesco recifense. Em 1996, a apoteose do desfile ganhou ainda mais cor e brilho: camarotes, sombrinha gigante, casal de Rei e Rainha do Maracatu sobre o Rio Capibaribe e um Galo bem mais gigantesco, desta vez montado na Ponte Duarte Coelho – onde é posto até hoje. (MAIA, 2013, p. 9).

O Galo da Madrugada permanece fiel às suas raízes valorizando o ritmo pernambucano e seduzindo a todos com seu refrão:

 “Ei pessoal, vem moçada! Carnaval começa no Galo da Madrugada.”

Em Olinda o carnaval surgiu no começo do século XX juntamente com os Clubes carnavalescos a exemplo do Clube Carnavalesco Misto Lenhadores (1907) e do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas (1912). Tradicionalmente o carnaval da cidade é marcado por vários blocos de rua com foliões fantasiados acompanhados geralmente de orquestras de frevo e os desfiles de bonecos gigantes (desde o início da década de 30). O mais conhecido boneco gigante, o "Homem da Meia-Noite"desfilou pela primeira vez nas ruas de Olinda em 1932.

As mais diversas manifestações do carnaval no mundo representam a mistura de traços culturais numa magia de cores e sons que revelam e a criatividade e a irreverência dos foliões em todos os cantos da terra. E o carnaval brasileiro é a própria expressão da alegria contagiante dessa época do ano.

 

Recife, 28 de dezembro de 2016.



FONTES CONSULTADAS:

 

AQUINO, Felipe. Por que muda a data da Páscoa e do Carnaval? 2008. Disponível em: <goo.gl/FS8Yu7>. Acesso em: 27 dez. 2016.

ARANTES, Nélio. Pequena História do Carnaval no Brasil. Revista Portal de Divulgação, n 29. Ano III. Fevereiro.2013, ISSN 2178 – 2178. Disponível em: <goo.gl/XSkxLa>. Acesso em: 08 nov. 2016.

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: Hucitec, 1993.

CARDOSO, Monique. História do Carnaval. Disponível em: <   http://www.areliquia.com.br/artigos%20anteriores/57histcarn.htm> Acesso em: 08 nov. 2016.

CARNAVAL [Foto neste texto]. Disponível em: <https://ednene.files.wordpress.com/2011/03/carnaval-2011.jpg>. Acesso em: 28 dez. 2016.

CARNAVAL: a festa da carne. Disponível em: <http://www.icp.com.br/31materia1.asp>. Acesso em: 14 dez. 2016.

FERRO, Manuel. Chi vuol essere lieto, sai;/Di doman non c’è certezza: festa e tradição do carnaval em Itália. In: RIBEIRO, Maria Aparecida; ARNAUT, Ana Paula (Org.). Viagens do carnaval no espaço, no tempo, na imaginação. Salvador: EDUFBA; Coimbra: Universidade de Coimbra, 2014. p. 27-45.

GAUDIN, Benoit. Da mi-carême ao carnabeach – história da(s) micareta(s). Tempo Social; Revista de Sociologia da USP, São Paulo, 12(1):47-68, maio de 2000.

MAIA, Anderson. O Galo. 2013. Disponível em: <http://www.galodamadrugada.org.br/index.php/o-galo/historia>. Acesso em: 28 dez. 2016.

MIGUEZ, Paulo. Carnaval da Bahia: do entrudo lusitano aos desafios contemporâneos. RIBEIRO, Maria Aparecida; ARNAUT, Ana Paula (Org.). Viagens do carnaval no espaço, no tempo, na imaginação. Salvador: EDUFBA; Coimbra: Universidade de Coimbra, 2014. p. 73-93.

MIRANDA, Dilmar. Carnavalização e multidentidade cultural: antropofagia e tropicalismo. Tempo Social, Revista de Sociologia da USP, São Paulo, v. 9, n. 2, p. 125-154, out. 1997.

PINTO, Tales dos Santos. "História do carnaval e suas origens"; Brasil Escola. Disponível em < http://brasilescola.uol.com.br/carnaval/historia-do-carnaval.htm>.  Acesso em 08 nov. 2016.

SIMSON, Olga R. De Morais Von. Transformações culturais, criatividade popular e comunicação de massa: O carnaval brasileiro ao longo do tempo. In: Centro de Estudos Rurais e Urbanos, n14, p 43-56. Dez 1981.

VIEIRA, Anco Márcio Tenório. As interpenetrações culturais e o carnaval de Pernambuco. RIBEIRO, Maria Aparecida; ARNAUT, Ana Paula (Org.). Viagens do carnaval no espaço, no tempo, na imaginação. Salvador: EDUFBA; Coimbra: Universidade de Coimbra, 2014. p. 111-133.




COMO CITAR ESTE TEXTO:

 

Fonte: VERARDI, Cláudia Albuquerque; NOGUEIRA, Lara. Carnaval: origem e evolução. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:< http://basilio.fundaj.gov.br//>. Acesso em: dia mês ano. Ex. 6.ago.2009.

 

 

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