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Naíde Regueira Teodósio (médica, pesquisadora)

Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora aposentada da Fundação Joaquim Nabuco
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Naíde Regueira, pessoa de origem muito humilde, nasceu em Serinhaém, no Estado de Pernambuco, no dia 6 de junho de 1915. Através do esforço dos pais, conseguiu estudar, em regime de internato, no Colégio da Sagrada Família, e isto decolou sua inserção no universo cultural. Ali, ela aprendeu, inclusive, a falar e a dominar a língua francesa.

Com muita audácia, aos dezesseis anos de idade, e contra a vontade paterna, ela decidiu vir morar no Recife, com o objetivo de trabalhar e estudar. Trouxe consigo, inclusive, suas duas irmãs mais novas.

A jovem não aceitava o papel tradicional, imposto às mulheres pela cultura patriarcal, nas primeiras décadas do século XX: o de casar, ter filhos, e ser uma simples dona-de-casa. Esse era o destino das mulheres brasileiras e, em particular, o das nordestinas. Naíde conseguiu ingressar na Faculdade de Medicina de Pernambuco, em uma época na qual o curso era frequentado, quase que exclusivamente, por homens. Ela tinha o grande sonho de poder ajudar as pessoas mais carentes.

Na década de 1940, discordando da política do Estado Novo, durante a Ditadura de Getúlio Vargas, passou a sofrer discriminações e ficou proibida de estagiar em hospitais, a despeito do fato de ser acadêmica de Medicina. Entretanto, como era funcionária da Assistência aos Psicopatas, conseguiu driblar a vigilância, entrando nas Unidades de Saúde, conforme a exigência da Faculdade. Foi um exemplo de mulher decidida, assumindo uma causa considerada justa.

Excelente aluna teve, entre seus professores, Bernardo Houssay, pesquisador agraciado com o Premio Nobel de Medicina; e dois dos mais brilhantes expoentes no campo da desnutrição infantil, e estudiosos no combate à fome - Nelson Ferreira de Castro Chaves (Nelson Chaves) e Josué Apolônio de Castro (Josué de Castro) - com os quais trabalhou e firmou amizade. Com entusiasmo, ao concluir o curso, decidiu ser pesquisadora e professora na área da Nutrição e Fisiologia.

Naquela Faculdade, ainda estudante, se apaixonou pelo médico Bianor Teodósio e, em 1942, casou com ele. Teve três filhos, Manoel, Joel e Ricardo, e uma filha, Marta. Esta última, e uma neta de Naíde, que tem o mesmo nome da avó, seguiram, também, a carreira de Medicina.

Na Faculdade, ela foi professora universitária na área de Fisiologia, como Mestre Adjunto IV e Livre Docente. Em suas pesquisas, desenvolveu um composto à base de sangue de boi, como complementação alimentar para crianças desnutridas e mulheres grávidas. O produto deu bons resultados, foi nomeado Prothemil, e ganhou o suporte do Laboratório Farmacêutico de Pernambuco (Lafepe), que iniciou a sua produção.

Na Região Nordeste, no que diz respeito à sua postura em relação à fome, ela ressaltou, em uma das palestras que deu:

"A nutrição está inserida entre as Ciências Sociais. Este leque de ramos da ciência envolvidos no estabelecimento do estado nutricional é o mesmo implicado nos índices de morbidade e de mortalidade da criança. Eis porque estudar as causas da desnutrição e da mortalidade infantil significa investigar os fatores que determinam a qualidade de vida da comunidade, em seus múltiplos aspectos."

Naíde se destacou, também, pela luta em defesa da democracia, tendo sido simpatizante do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em uma época proibida de se falar sobre o comunismo, ela se tornou amiga de vários comunistas, a exemplo de Paulo Cavalcanti (membro do PCB). Porém, acredita-se que foi sua ligação com o ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes de Alencar (1916-2005), o estopim para que a prendessem, durante o Golpe Militar de 1964. Acusada de subversão, ficou encarcerada durante quatro longos anos, na extinta Casa de Detenção do Recife, hoje, transformada na Casa da Cultura, sem que nada houvesse sido provado contra sua impecável conduta humanista. Por outro lado, o seu marido, Bianor Teodósio, que, como ela, não teve qualquer participação política, ficou encarcerado durante seis meses no mesmo presídio.

Ela jamais esqueceu a prisão do seu filho Manoel Teodósio, mais conhecido como Mano Teodósio, que lutou contra o regime ditatorial, tendo sido brutalmente torturado. Após uma longa militância política, Mano faleceu no final da década de 1980. Sobre as perseguições que sofreu, a médica e nutricionista desabafou:

"Eu e Bianor ficamos presos no mesmo período de Gregório Bezerra. Sofri muito, o clima policialesco tem dessas coisas. A prisão me ajudou a conhecer melhor o ser humano. Ensinei matemática e francês, quando estava presa, aos policiais estúpidos, mas coitados, eram ignorantes."

Apesar das perseguições políticas durante a Ditadura Militar, ela conseguiu vencer todos os obstáculos em sua trajetória universitária. Ao completar setenta anos de idade, porém, a incansável médica foi aposentada, compulsoriamente. Inconformada com o fato, ela protestou:

"Eu não fui aposentada, me aposentaram! Mas, como tenho saúde, vou continuar trabalhando. A despedida é termo de intromissão espúria em meu mundo afetivo, no qual figura nossa Universidade em plano apenas superado pelo amor à minha família, porém em plano igualitário àquele ocupado pelo nosso povo sofrido, a quem aprendi a amar, sentindo a necessidade imperiosa de servir, de doar-me, desde a minha vida de criança. Considero-me entre aqueles cuja lucidez indicará o exato momento de se afastar".  

Naíde permaneceu vários anos como professora-pesquisadora, dando aulas na pós-graduação e orientando teses, mesmo sem receber qualquer remuneração por tais serviços. Em 1993, aos 78 anos de idade, assumiu um importante compromisso, com o Arcebispo Emérito da Cidade do Recife, Dom Helder Câmara (1909-1999), em sua Campanha Contra a Fome e a Miséria. Anos depois, com a saúde já fragilizada, aceitou a ideia da aposentadoria.

Naíde formou mais de uma geração de cientistas na área de Saúde, e consolidou vários grupos de pesquisadores na área de Nutrição. Ficou conhecida, nacionalmente, por sua luta contra a fome, pela contribuição aos programas de erradicação da miséria, tendo sido a primeira mulher a receber a Medalha do Mérito Sanitário Josué de Castro. O prêmio representou uma importante homenagem àquela mulher que lutou, toda a sua vida, por uma sociedade mais justa e igualitária.

No âmbito acadêmico-científico, a professora emérita da UFPE orientou pesquisas para mitigar as desigualdades sociais, com um enfoque particular no combate à desnutrição; tendo publicado mais de cinquenta artigos científicos, em periódicos nacionais e internacionais; e fundado o Laboratório de Fisiologia da Nutrição, no Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco, que se chama, hoje, Laboratório Naíde Teodósio.
 
Em abril de 2005, na cidade do Recife, aos 89 anos de idade, morreu a ilustre professora-pesquisadora e nutróloga, de falência múltipla dos órgãos. Ela morava com a sua filha, Marta, que também é médica. Os filhos Ricardo e Joel, residentes no Rio de Janeiro, vieram para o sepultamento da mãe. O corpo de Naíde foi velado no Salão Nobre da Universidade Federal de Pernambuco, e enterrado no Cemitério Parque das Flores, em Jaboatão.

Com o falecimento de Naíde Regueira Teodósio, os brasileiros perderam uma das personalidades mais emblemáticas e relevantes das áreas de Fisiologia e de Nutrição, não apenas em Pernambuco porém, em todo o Brasil.

 

 

FONTES CONSULTADAS:

 


PRÊMIO Naíde Teodósio de Estudos de Gênero. Disponível em: http://www.portaisgoverno.pe.gov.br/web/secretaria-da-mulher/premio Acesso em: 15 ago. 2011. 

 
TEODÓSIO, Naíde. Elas fizeram e fazem História. Recife: SINDSEP/PE, 2011.


TEODÓSIO, Naíde. Símbolo de luta por melhores condições de vida. Naíde Teodósio morre aos 89 anos. Disponível em: <http://portal.pps.org.br/portal/showData/32998>. Acesso em: 20 ago. 2011


TEODÓSIO, Naíde. Disponível em: http://www.adrenaline.com.br/forum/papo-cabeca/207282-naide-teodosio-simbolo-de-luta-por.html Acesso em:25 ago 2011.


TEODÓSIO, Naíde Regueira. Disponível em: <http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Na%C3%ADde+Regueira+Teod%C3%B3sio<r=n&id_perso=1384


ZISMAN, Meraldo. Nordeste pigmeu (uma geração ameaçada). Recife: Editora Oedip, 1987.

 

 

COMO CITAR ESTE TEXTO:

 

 

Fonte: VAINSENCHER, Semira Adler. Naíde Regueira Teodósio (médica, pesquisadora). Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br//>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 

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