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Imbiribeira revisitada (Bairro, Recife)

Ana Patrícia de Souza e Silva
Professora da Escola Municipal Inês Soares de Lima
(Projeto interagindo com a história do seu bairro - Programa Manuel Bandeira de Formação de Leitores).
Cláudia Verardi
Analista em C&T - Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
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O bairro da Imbiribeira no Recife tem suas origens no antigo Sítio da Barreta, área de grande extensão, da Ponte Motocolombó até chegar aos limites entre Jaboatão e Recife. Registros que remontam ao ano de 1630 já fazem menção ao bairro, ao se referir a um engenho com um depósito de açúcar. O transporte do produto até os navios era feito pelo Rio Barreta, composto pelas águas do Rio Jordão e pelas águas do mar, e era considerado bastante estratégico, uma vez que o fluxo dele desembocava no porto, próximo ao Forte das Cinco Pontas.

Localizada na zona sul da cidade do Recife, a Imbiribeira tem uma área territorial de 666 hectares, pertencentes à Região Político-Administrativa 06, distribuídos numa densidade demográfica de 72,85 hab/hec.

A população média de 49 mil habitantes, com taxa média de crescimento anual em torno de 0,43%, de acordo com o Censo Demográfico de 2010, tem como características a faixa etária predominante entre 25 a 59 anos, representando cerca de 49,51% do total de moradores. As mulheres são a maioria e aparecem também em maior número como responsáveis pelo domicílio, equivalendo a 46,15%. A renda mensal dos moradores da Imbiribeira está em torno de R$ 2.110,00 e índice de alfabetização de 91, 6%.

É importante ressaltar que o bairro já possuiu vários outros nomes, como: Sítio da Barreta, Estância da Barreta, Estrada da Barreta, Passo da Barreta, Barreta, Sítio dos Jesuítas, Passagem dos Tocos, Estrada do Sul, Sítio da Imbiribeira, Estrada da Imbiribeira e, por fim apenas Imbiribeira. Imbiribeira é um nome de origem indígena e se refere à árvore IMBIRA - muito forte, resistente e durável - que era muito comum por essas terras. Com a sua entrecasca é possível fazer cordas e suas ripas eram usadas na fabricação de telhados das primeiras moradias e dos cercados de terrenos. Atualmente essa planta já não é encontrada na paisagem das ruas e avenidas do bairro.

Desde a descoberta da localidade, a área da Imbiribeira pertencia à Coroa Portuguesa. Porém, no período da ocupação holandesa, no século XVII, as terras foram tomadas e uma grande exploração foi realizada para descobrir o potencial protetivo e bélico do lugar. De lá, atravessando toda a extensão das terras da estrada da Barreta, saíram as tropas que guerrearam contra os portugueses, nos Montes Guararapes, em duas grandes batalhas. O “loteamento” das terras também passou a ser algo muito comum. Muitas edificações foram erguidas e um forte foi construído no bairro, recebendo o nome de Schoonenburgh.

Com a expulsão do povo maurício, em meados do século XVII, a região volta ao domínio português, que encarregou padres jesuítas de tomarem conta do lugar. Em 1836, abre-se a estrada da Imbiribeira, possibilitando a criação de uma pequena vila de moradores. Uma capela foiconstruída, recebendo o nome de Nossa Senhora do Rosário e outros prédios foram levantados, entre eles uma vivenda e uma senzala para abrigar escravos. Curiosamente, nesse período, o nome Imbiribeira, referindo-se ao bairro, aparece numa carta datada de 18 de janeiro de 1669, mencionando os combates contra os holandeses e a participação do capitão Alexandre Cardoso nessa ação, na área denominada “Estância da Imbiribeira”.

O bairro foi palco de episódios violentos e trágicos, no percurso de sua história. Uma dessas histórias ocorreu em 1852: uma mãe matou a filha com a ajuda de um fiel ex-escravo de nome Julião. Ela foi presa, condenada e cumpriu sentença, junto a Julião, no Presídio em Fernando de Noronha. Esse fato gerou uma “lenda urbana” - Dizem alguns moradores da Imbiribeira que, em certas noites, ainda é possível ouvir as súplicas da jovem para não ser morta.

Outro acontecimento que merece destaque foi o fuzilamento de marinheiros simpáticos à Revolta Armada, movimento eclodido no Rio de Janeiro em 1893, contra o Presidente Floriano Peixoto, que se recusava a promover novas eleições, após a renúncia do Marechal Deodoro da Fonseca. Cinco marinheiros do navio cruzador Parnaíba se encontravam em terras recifenses e foram detidos por crime de conspiração. Um breve interrogatório - sem a presença de qualquer juiz ou testemunhas nem depoimento dos acusados - e julgamento com um conselho secreto de oficiais da marinha foram os passos que culminaram na condenação dos rapazes. Levados de mãos atadas para a Imbiribeira, eles foram escoltados até o fatídico local e sucumbiram ao fuzilamento. Os guardas inclusive tinham ido munidos de pás para cavar as covas dos rebeldes mortos. Os restos mortais desses cinco homens estão, hoje, na Igreja Matriz de Afogados, no bairro vizinho.

No ano seguinte, em 1894, foi a vez do fuzilamento do sargento Silvino de Macêdo, supostamente um dos líderes da Revolta da Fortaleza de Santa Cruz e de estar envolvido na revolta da esquadra.

Não foram apenas fatos violentos que constituíram a história da Imbiribeira, há outros aspectos interessantes que merecem destaque como suas riquezas naturais, por exemplo.

No Bairro, há um cenário lindo de se ver: a única lagoa natural existente na cidade do Recife! Anteriormente chamada de Lagoa do Pilar, e conhecida por um tempo como Lagoa dos Botos. Nesse lugar, do século XVII até meados do século XX, os botos iam ali para procriar, isso explica o nome pela qual a lagoa passou a ser conhecida. Havia na época um sortimento de peixes, camarões de água doce (pitus), guaiamuns e outros animais marinhos - um verdadeiro bioma garantido. Hoje é denominada Lagoa do Araçá, nome que já aparecia nas anotações cartográficas holandesas, no século XVII. O novo título veio em decorrência da grande quantidade do fruto araçá, cujos arbustos eram muito evidentes nos arredores da lagoa.

A água salobra não era poluída e frequentemente os garotos banhavam-se por lá. Essas características primitivas da lagoa se mantiveram intactas até os meados da década de 1950, quando a Prefeitura da Cidade do Recife concedeu a licença para a viabilização do loteamento Nossa Senhora do Pilar.

Com uma área de 14, 2 hectares, a Lagoa do Araçá tem um espelho d’água em torno de 109.000 metros quadrados, alimentado por meio de um canal natural com as águas do estuário do Rio Tejipió - que tem influência da água do mar - hoje artificializado com um tubo tricelular. Há também suporte dos Rios Jequiá e Jordão, uma vez que eles estão numa zona de convergência. A mistura dessa água doce com a salgada faz com que a água do mangue da Lagoa seja salobra e muito adequada à procriação da vida marinha, se não fosse hoje tão poluída.

Por volta de 1960, por ocasião da implantação do loteamento Nossa Senhora do Pilar, a profundidade das águas da lagoa foi ampliada (por meio de escavações) para oportunizar a dragagem. O aterro das áreas de seu entorno foi potencializado, a fim de propiciar o povoamento do lugar. Isso fez com que boa parte do ecossistema sofresse um impacto em sua composição, porque houve alteração do habitat, já que era uma área de alagados e mangues.

No final da década de 70, houve um “incentivo” por parte dos governantes da época, no que se refere ao povoamento do lugar. O loteamento das terras da Imbiribeira agravou consideravelmente os danos ambientais da Lagoa. Esse fenômeno persistiu até meados da década de 80, quando a população do bairro percebeu a perda do patrimônio natural, não apenas da Lagoa, como também de parte da reserva ambiental nos limites da Imbiribeira com o Ipsep, por onde está hoje o conjunto Residencial INOCOOP, na Avenida Recife.

A corretora de imóveis Lourdes Tenório, moradora da Imbiribeira, descobriu por meio de seus colegas, que existia um projeto para aterrar por completo a Lagoa. Ela, então, mobilizou os moradores para impedir a aprovação desse projeto, colhendo assinaturas e marcando audiências com o Prefeito da época, Gustavo Krause. Houve a necessidade de o grupo se organizar para que pudesse “chamar a atenção da questão da preservação da Lagoa e do Parque Ecológico” para a imprensa, a população, os ambientalistas. Esse grupo ficou conhecido como Amigos da Lagoa do Araçá.

Em 1984, o então Prefeito Joaquim Francisco anunciou medidas protetivas em relação à área da Lagoa, afirmando que, caso a imobiliária responsável pelo projeto de loteamento não cumprisse o que estava estabelecido em acordo, perderia a licença de outros 110 lotes. Ele também comunicou que haveria terraplanagem para as margens da Lagoa.

Nos anos seguintes, surgiram projetos urbanísticos apresentados pela EMLURB-Recife para a Lagoa do Araçá que não saíram do papel, assim como também um projeto para transformá-la em um viveiro de camarões, mas que não houve a aprovação em Assembleia, uma vez que seria preciso assorear o lugar para que servisse de bacia de decantação de esgotos, gerando um nível alto de poluição.

Em 1989, os Amigos da Lagoa do Araçá se uniram para lutar contra a liberação dos 110 lotes lindeiros, cujos donos não precisavam mais cumprir as ressalvas estabelecidas pelo urbanista Edgar D’Amorim, em 1955. Esse movimento promoveu o nascer da consciência ecológica da comunidade e conduziu a Prefeitura a assumir a urbanização do projeto urbanístico, evitando o aterramento total da Lagoa.

Em 17 de dezembro de 1994, o Prefeito Jarbas Vasconcelos inaugura o Parque Ecológico Lagoa do Araçá, beneficiando a população com área verde preservada, parque infantil, área de recreação, de esportes, de lazer, de polo turístico para cidade, após anos de luta e resistência dos moradores para garantir esse bem imensurável, que perdura até então.

Ainda sobre a questão do aterramento, é notório que os impactos ambientais, em toda a extensão de área da Imbiribeira são refletidos, principalmente em dias de chuva. Como boa parte da localidade era parte de mangue, após o aterro não houve o planejamento para escoar as águas pluviais. Por essa razão, há alagamentos em vários pontos do bairro, dificultando o tráfego. Problema este já há muito conhecido e nunca resolvido.

Outro ícone do bairro da Imbiribeira é o Ginásio de Esporte Geraldo Magalhães, o “Geraldão”. Inaugurado no início dos anos 70, foi palco de importantes competições esportivas nacionais e internacionais, além de shows épicos de artistas consagrados. Durante anos, foi espaço de escolinhas de esportes, atingindo crianças de diversos segmentos sociais e econômicos do bairro e local das competições dos Jogos Escolares de Pernambuco.

O centro do Ginásio, desde 2005, vinha sofrendo com a decadência e problemas estruturais. E, sem a devida manutenção, o espaço sucumbiu ao tempo, até ser fechado em 2012 para reformas que atenderiam atletas em preparação para a Copa do mundo em 2014 e para às Olimpíadas de 2016. Hoje, o Geraldão mantém em atividade apenas o projeto de escolinhas e de aulas de natação e dança, na área mais externa, já que seu interior está interditado, por falta de condições de uso. O projeto de restauração pretende atender às novas demandas no que se refere às normas de segurança, sustentabilidade, conforto e lazer para a população, transformando-o numa arena multiuso e abarcando eventos de cunho turístico, esportivo e artístico de maior porte que outrora, num resgate de seu valor para a cidade.

O Geraldão está localizado na Avenida na Mascarenhas de Morais, principal via do Bairro. A Avenida recebeu esse nome em homenagem ao comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na 2ª Guerra Mundial. Foi inaugurada no início da década de 70, em substituição à antiga Estrada da Barreta, cujas condições eram péssimas, já que era sem asfalto, bem estreita, com apenas uma mão.

Com a nova Avenida, devido à melhora do acesso a outras localidades, iniciaram-se construções ao longo da via e houve expansão do comércio local.

O bairro possui outra importante via chamada de Arquiteto Luiz Nunes, em homenagem ao profissional que integrou a equipe de Oscar Niemeyer nos projetos de construção de Brasília. A abertura dessa via facilitou o tráfego intenso que hoje se instaura por ser mais um acesso aos bairros de Afogados e Ipsep e contribuiu também para o desenvolvimento do comércio.

Ao longo das duas vias principais da Imbiribeira, temos duas pontes que estão sob o Rio Tejipió: a Gilberto Freyre – a qual se conecta com à Arquiteto Luiz Nunes – e a Motocolombó – que se une à Mascarenhas de Morais. Já o viaduto Tancredo Neves facilita o caminho para Boa Viagem, para o Ipsep e para o Ibura.

Há uma boa oferta de acesso ao bairro, por meio de um sistema de transporte urbano bem abastecido com diversas linhas de ônibus, metrô, e um Terminal Integrado de Passageiros (Tancredo Neves), que faz conexão com diversos bairros da cidade. Toda essa malha viária teve de ser operacionalizada para atender o grande fluxo pelo qual transitam tanto os moradores e trabalhadores do bairro, bem como aqueles que apenas fazem a passagem pelas vias da Imbiribeira para chegar ao seu destino final.

O Aeroporto Internacional dos Guararapes/ Gilberto Freyre – um dos dez melhores do país – também fica situado na Imbiribeira e está em funcionamento desde o final da década de 50. É apto para voos domésticos e internacionais e tem capacidade de receber grandes aeronaves. Possui um sistema de segurança com tecnologia de ponta e apresenta um grande sortimento de comércio em suas lojas. Passou por reformas de expansão e de modernização em diversos âmbitos, entre eles: o arquitetônico, o tecnológico e o sustentável. Na última versão, agregou uma passarela de pedestres, atravessando a Avenida Mascarenhas de Morais até a Estação de Metrô Aeroporto.

Quanto à atual configuração, a Imbiribeira é considerada um bairro misto: comercial e residencial. No aspecto comercial, é possível destacar que tem uma boa estrutura de lojas de diversos segmentos, entre eles o de materiais de construção e produtos para casa, um bom sortimento de bancos, ao longo da Mascarenhas de Morais, supermercados de grande porte e igrejas de denominações religiosas distintas. É importante ressaltar, ainda, o comércio informal no bairro, porque é uma atividade econômica marcante, se fazendo presente em cada recanto, nas vias principais e nas proximidades de paradas de ônibus e das estações do metrô.

O panorama de espaços de educação do bairro é bem amplo: há creches, escolas particulares, escolas municipais, escolas estaduais e faculdades. E existem restaurantes de qualidade e padarias bem modernas e abastecidas, adequados à necessidade dos moradores do local principalmente nos arredores da Lagoa do Araçá. Uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) foi inaugurada na Mascarenhas de Morais, propiciando os primeiros cuidados a um doente ou a um vitimado em acidentes e impedindo a aglomeração nos grandes hospitais.

Há uma distribuição social equilibrada na Imbiribeira que integra moradores de diversos segmentos econômicos. Em relação ao aspecto residencial, podemos destacar que até bem pouco tempo, apesar de sua boa estrutura, faltava o saneamento básico no bairro. O contraste econômico da população da Imbiribeira se torna mais evidente quando se analisa o nível de moradias e condições de vida nas comunidades que lutaram muito pelo pedaço de chão, a fim de construir suas casas. Muitas famílias precisaram resistir à pressão da polícia e a mandatos de desocupação para “fincar” suas raízes no bairro.

Essa história se repetiu com a comunidade Ilha de Deus, Sítio Grande, Irmã Dorothy e Coronel Fabriciano. Esta última comunidade teve uma trajetória intensa de luta por parte de seus moradores que viveram momentos dramáticos quando da construção do viaduto Tancredo Neves, por terem recebido a ordem de desocupação imediata da área. Uma das moradoras do local, chamada Inês Soares de Lima, liderou a movimentação do grupo para resistir e não sair dos terrenos nos quais tinham sido levantados os barracos. A ação foi vitoriosa e não houve a evasão do local. Hoje há uma escola municipal na comunidade Coronel Fabriciano cujo nome homenageia a ex-moradora Inês pela conquista.

Atualmente, de acordo com o Censo de 2010, é visível o avanço da qualidade de vida dos moradores, independente do nível econômico, a partir da operacionalização do saneamento básico, com coleta de lixo e canalização do sistema de esgoto e  acesso à água potável, já instalados em quase toda a Imbiribeira. No entanto, há muito que se fazer pela segurança do bairro, pela manutenção de vias e espaços públicos e pela ampliação dos atendimentos médico e educacional.

 

Recife, 30 de novembro de 2017.

 

 

FONTES CONSULTADAS:

 


IBGE. Censo 2010. Disponível em: <https://censo2010.ibge.gov.br/>. Acesso em: 20 set. 2017.

LAGOA do Araçá [Foto neste texto]. Disponível em: <http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/suplementos/arrecifes/noticia/2012/09/17/no-meio-da-imbiribeira-tem-uma-lagoa-56538.php>. Acesso em: 30 nov. 2017.

RECIFE. Prefeitura Municipal. Disponível em: <www.recife.pe.gov.br>. Acesso em: 20 set. 2017.

TENÓRIO, Rinaldo. Lagoa do Araçá – Imbiribeira. [201?]. Disponível em: <http://rinaldotenorio.blogspot.com.br/p/historia-da-urbanizacao.html>. acesso em: 22 set. 2017.

VAINSENCHER, Semira Adler. Imbiribeira (Bairro, Recife). 2003. Disponível em:<http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=651&Itemid=1>. acesso em: 22 set. 2017.

 

 


COMO CITAR ESTE TEXTO:

 

 

Fonte: SILVA, Ana Patrícia de Souza e; VERARDI, Cláudia Albuquerque. Imbiribeira revisitada (Bairro, Recife). Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br//>. Acesso em: dia mês ano. Ex. 6.ago.2009.

 

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