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Museu do Homem do Nordeste: entre o tradicional e o contemporâneo
Jefferson Lindberght de Sousa
Assistente em C&T da Fundação Joaquim Nabuco
Cláudia Verardi
Analista em C&T da Fundação Joaquim Nabuco 
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Foto: Acervo Fundaj
 
O Museu do Homem do Nordeste, criado pelo sociólogo Gilberto Freyre em 21 de julho de 1979, nasceu da fusão de três outros museus: Museu de Antropologia (1961-1979) que pertencia ao então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, Museu de Arte Popular (1955-1966) ligado ao Governo do Estado de Pernambuco e Museu do Açúcar (1963-1977) do extinto Instituto do Açúcar e do Álcool.

O pensamento de Freyre era criar um museu que reunisse material relacionado com a vida e com o trabalho do povo do Nordeste do Brasil.
 
O Museu reúne coleções diversificadas desde objetos muito simples usados no cotidiano de pessoas de classes menos favorecidas a peças muito requintadas, oriundas de famílias ricas de senhores de engenho.
 
De acordo com Brayner (2009, p.128), o Museu do Homem do Nordeste, de caráter histórico-antropológico, tem por objetivo pesquisar, documentar, preservar, difundir e atualizar esse rico patrimônio cultural da região, constituindo um vasto campo de pesquisa histórica.
 
Formado inicialmente por peças doadas pelo próprio Gilberto Freyre e de coleções particulares,
 
...partiu do tijolo e do prego que guardam registros da memória arquitetônica e da construção civil nos meios rural e urbano, indo até a primeira coleção de ex-votos reunida no Brasil, formada não apenas por réplicas em diversos materiais, como cera e madeira, de membros do corpo humano, mas também de casas e moendas, espigas de milho e objetos de uso pessoal. Essas coleções foram unidas às de luminárias populares, de garrafas de cachaça, de preciosidades da arte popular regional; às de tecnologias da indústria açucareira, dos instrumentos de trabalho no eito da cana e de objetos relacionados à vida na senzala e às riquezas da casa-grande (BRAYNER, 2009, p.129).
 
Até o mês de outubro de 2003, o Museu do Homem do Nordeste recebeu pouco investimento financeiro quando foram iniciadas reformas estruturais e de pessoal, de acordo com o novo cenário da museologia brasileira, com recursos da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). O projeto de revitalização do Museu além de recursos da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco) contou com o patrocínio da Petrobras e com o incentivo da Lei Rouanet.
 
Essas reformas incluíram experiências interativas tecnológicas obrigando a se pensar na atualização do conceito socioantropológico do Homem do Nordeste e suas representações através de um formato museográfico contemporâneo que através da ampliação do discurso a respeito do objeto privilegiasse a contextualização dos acervos.
 
De 2008, ano da reinauguração do Museu do Homem do Nordeste e da abertura de sua nova exposição permanente (Disponível em: http://www.fundaj.gov.br/index.php?option=com_content&id=186&Itemid=57) até  2014, ano da inauguração do Museu Cais do Sertão, o Museu do Homem do Nordeste, após um período de reformas que durou quatro anos, representava a última palavra tangente à exposição museográfica contemporânea de um museu público no Estado de Pernambuco devido aos recursos tecnológicos ali instalados.
 
A pergunta é: o Museu do Homem do Nordeste deixou de ser um museu contemporâneo depois da inauguração do Museu Cais do Sertão e de todo seu aparato de interatividade tecnológica de última geração?
 
Ocorre que, todos os meios, velhos ou novos, bem como as várias tecnologias eletrônicas e digitais coexistem num sistema de comunicação. Segundo Gómez (2002), a entrada de uma nova tecnologia não significa que haverá a substituição imediata de modelos anteriores, uma vez que cada tecnologia demanda um tempo de aprendizado e apropriação por parte dos usuários ou ainda, cada tecnologia cobre mais a satisfação de uma ou mais necessidades que as anteriores, porém não todas.
 
Embora seja possível registrar as principais características de um museu tradicional e as de um museu contemporâneo, se supõe a existência de modelos híbridos, ou seja, instituições museológicas que possuem características de museus tradicionais coexistindo com as de museu contemporâneo.
 
O que há de novo em um museu? Esse questionamento pode ser respondido analisando-se a própria evolução do conceito de museu, uma vez que, ao longo do tempo, múltiplas concepções de museu se desenvolveram desde os conhecidos gabinetes de curiosidade aos museus públicos criados em prol da identidade nacional e de um modelo disciplinar para o povo. Dessa forma, Soto (2014) vem argumentando que o aparecimento de uma nova concepção museal contempla a participação comunitária, visa à transformação social e tem registro a partir da segunda metade do século XX.
 
O Museu tradicional tende a passar uma ideia de passividade pela valorização que dá ao acervo e em relação ao museu de hoje, existe a inversão como ordem, uma vez que se orienta para o público e não há separações entre aprendizagem e entretenimento. As consequências destacam as questões socioculturais, bem como as de conscientização e experiência cidadã. Nesse sentido, torna-se notório a distinção paradigmática na museologia.
 
Conforme Mendes (2012), a posição ativa e participativa do público de um museu contemporâneo encontra significativo suporte em seu novo modelo conceitual, cuja compreensão não mais abarca o museu como sendo uma ilha, mas uma plataforma.

O conceito de plataforma referendado ao museu contemporâneo remete à temática da mediação cultural. Nessa perspectiva, concordamos com o conceito de mediação de Padiglione (2012), que vem definindo a investigação museográfica contemporânea no bojo de seu interesse, uma vez que já não se discute acerca do objeto exposto, mas o instável e dinâmico sistema de representações; além disso, um cenário de mediações vem dando o norte nas tomadas de decisões dos museus com suas constituições, suas práticas de aquisição, de conservação, de exposição e de didática.
 
A partir da questão – o que há de novo em um museu? – resta corrigi-la sob a afirmação de que o que há na verdade é uma nova visão de museu que vem acompanhando as mudanças que já ocorrem em outros espaços culturais, tais como as bibliotecas. Entre essas mudanças, a principal é a releitura feita em seus modelos administrativos e o Museu do Homem do Nordeste vem acompanhando essas tendências.
 
 
 
Recife, 12 de novembro de 2018.
Atualizado em 30 de novembro de 2018.
 
 
 

FONTES CONSULTADAS:
 
 
 

BRAYNER, Vânia. Museu do Homem do Nordeste. In.: Comunicação & Educação, São Paulo, a. 14, n. 2, p. 127-134, maio/ago. 2009.
 
GÓMEZ, G. O. Mediaciones tecnológicas y des-ordenamientos comunicacionales. In.: Signo y Pensamiento 41, v. 21, p. 21-33, 2002.
 
MENDES, L. M. De ilhas a plataformas. In: MENDES, L.M. (org.). Reprograme: comunicação, branding e cultura numa nova era de museus. Edição 1.6, p.12-25, 2012.
 
MENESCAL, Vanessa.  Museu do Homem do Nordeste. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br/index.php?option=com_content&id=186&Itemid=57>. Acesso em: 12 nov. 2018.
 
MUSEU Cais do Sertão, no Recife, vai ser inaugurado nesta quinta-feira. 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2014/04/museu-cais-do-sertao-no-recife-vai-ser-inaugurado-nesta-quinta-feira.html>. Acesso: 12 nov. 2018.

PADIGLIONE, V. Efeito marco – as mediações do patrimônio e a competência antropológica. In.: Ilha, v.14, n.1, p.57-81, 2012. Tradução: Dagoberto Bordin, Jeana Santos e Rafael O. Rodrigues.
 
SOTO, M.C. Dos gabinetes de curiosidade aos museus comunitários: a construção de uma conceção museal à serviço da transformação social. In.: Cadernos de Sociomuseologia, v.48, n.4, p.57-81, 2014.
 
 
 

COMO CITAR ESTE TEXTO:
 
 
 

Fonte: SOUSA, Jefferson Lindberght de;  VERARDI, Cláudia Albuquerque Museu do Homem do Nordeste: entre o tradicional e o contemporâneo. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/>. Acesso em: dia mês ano. Ex. 6.ago.2009.
 

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