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Guerra de Canudos
Claudia Verardi
Bibliotecária – Analista em C&T da Fundação Joaquim Nabuco
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Foto 1 - Mapa de Canudos (Acervo Fundaj)
 

O confronto entre o Exército Brasileiro e os integrantes do movimento religioso liderado por Antônio conselheiro na comunidade de Canudos, no interior do estado da Bahia, ficou conhecido como “Guerra de Canudos”.
 
A Guerra de canudos pode ser compreendida no quadro de movimentos sociais que eclodiram em alguns pontos do território Nacional e sacudiram a república nascente, a partir da primeira Revolta da armada (1893) até a Guerra do Contestado (1912-1914). De todos esses movimentos, Canudos foi o mais célebre. Isso se explica, em parte, pelo contorno específico de seu desfecho fatal, mas, sobretudo, pelo fato de que foi objeto da narrativa Os Sertões, de Euclides da Cunha, obra lançada em 1902 que fez grande sucesso nos meios literários brasileiros (JUNQUEIRA, 2016, p. 1).

 
Quem foi Antônio Conselheiro????
 
Foto 2 - Antônio Conselheiro (Acervo Fundaj)
 
Nascido em Quixeramobim (CE) no dia 13 de março de 1830, Antônio Vicente Mendes Maciel era filho de uma tradicional família que vivia nos sertões entre Quixeramobim e Boa Viagem.
 
Conselheiro teve várias ocupações: foi comerciante, professor e advogado nos sertões de Ipu e Sobral, no Ceará.
 
Passou a vagar pelos sertões em uma andança de vinte e cinco anos após ter sido abandonado pela esposa que o deixou por um sargento da força pública. Em 1893, Conselheiro chegou a Canudos e acabou se tornando o líder do arraial e atraindo milhares de pessoas. 
 
Conselheiro pregava que o fim do mundo estava próximo e que haviam vários fatos comprovando essa hipótese. Para ele, a recém implantada República no Brasil era a própria materialização do reino do Anticristo aqui na terra, bem como a violenta cobrança de impostos, a celebração do casamento civil e a separação entre a Igreja do Estado.

A pequena aldeia que surgiu no Século VXII às margens do Rio Vaza-Barris, nos arredores da fazenda Canudos, ficou conhecida como Canudos. Após a chegada de Antônio Conselheiro, que rebatizou o local com o nome de Belo Monte, a aldeia passou a crescer e chegou a cerca de 30 mil habitantes.
 
Incomodados com o crescimento da nova cidade, a imprensa, o clero e os latifundiários começaram a enxergar Antônio Conselheiro como um “perigoso monarquista”, ou seja, um inimigo da República. Acreditavam que Conselheiro estava a serviço de potências estrangeiras e começaram a incitar a ideia para a população através da imprensa.  Queriam que ele fosse visto como um risco na tentativa de justificar a guerra que foi movida contra ele e seus seguidores.
 
 
Cenário histórico da época da Guerra de Canudos:
 
- A Questão Militar desde 1883 - debate em torno da doutrina do soldado-cidadão, que defendia a participação dos oficiais nas questões políticas e sociais do país- teve um desfecho inesperado: o golpe militar republicano de 15 de novembro de 1889;

- Nova constituição aprovada em 24 de fevereiro de 1891:  o Brasil se tornou uma república federativa e presidencialista no modelo norte-americano. O estado foi separado da Igreja (o que causou a indignação de Antônio Conselheiro) e houve a ampliação do direito de voto (foi  substituído o voto censitário existente no Império - onde apenas pessoas com boa e comprovada situação financeira podiam votar) - pelo voto cidadão onde todo cidadão alfabetizado podia votar);

- a República havia sido instaurada e havia uma agitação política somada ao fato do governo não estar atento aos problemas do Sertão, lembrando da existência do mesmo apenas para a cobrança de impostos;

- Encilhamento- o Ministro da Fazenda, Rui Barbosa havia autorizado um aumento de 75% na emissão de papel-moeda nacional gerando um clima de especulação e a multiplicação de empresas sem lastro (garantia implícita de valor);

 - ex-escravos andavam em busca de oportunidades de trabalho e se encontravam, em geral, em estado de extrema pobreza desde a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888;

-  os sertanejos, gente pobre e simples se viam excluídos. Essas pessoas viram em Antônio Conselheiro um alento e uma esperança de mudança de vida ou de salvação na vida espiritual.


Havia um clima de total histeria no país e, em Pernambuco, a situação se tornou alarmante.

O historiador Frederico Pernambucano resgatou através do livro “A Guerra Total de Canudos” a participação de Pernambuco nesse sangrento episódio da história do Brasil. Frederico buscou em fontes primárias de precioso valor histórico traçar todo o panorama de histeria vivida na época com alguns episódios como a notícia de que o Padre Cícero teria ido de Juazeiro a Salgueiro a caminho de Canudos e o aparecimento de Antônio Conselheiro na zona canavieira, que teria sido internado contra sua vontade em um hospital de alienados. De acordo com Mello (2002, p. 9) “Pernambuco aqui que tem início a crônica dos sucessos que envolveriam nosso estado no conflito entre litorâneos e sertanejos”.

Houveram quatro expedições para combater em Canudos e em nenhum deles Antonio Conselheiro entrou na batalha pois cuidava apenas da parte civil e religiosa e não se envolvia nos combates.

O episódio que desencadeou a Guerra de Canudos foi uma encomenda de madeira feita por Antônio Conselheiro que viria de Juazeiro, para construir a igreja nova, que já estava paga e não foi entregue. Em outubro de 1896, houve boatos de que os seguidores de Antonio Conselheiro iriam à Juazeiro buscar a qualquer custo a madeira fazendo com que as autoridades de Juazeiro pedissem auxílio ao Governo estadual da Bahia que, por sua vez, enviou uma expedição para conter os revoltosos.

 
A primeira Expedição (Novembro de 1896) contou com um destacamento policial de cem praças sob o comando do Tenente Manuel da Silva Pires Ferreira. A tropa esperou vários dias em Juazeiro e verificando se tratar de falsos rumores decidiu marchar para Canudos. Foi quando, seguidores de Conselheiro, comandados por Pajeú e João Abade atacaram a tropa em Uauá de madrugada. Estavam armados com inúmeros instrumentos como facões de folha-larga, chuços de vaqueiro, ferrões, foices, varapaus e forquilhas. Os militares, que estavam de sentinela e quase adormecidos, se assustaram e começaram a atirar contra eles produzindo um cenário sangrento que durou mais de quatro horas. Os militares levaram a melhor por estarem com aparatos mais modernos e letais enquanto os Conselheiristas dispunham apenas de armas brancas. De acordo com a carta do Governador Luís Viana ao presidente da República, que contém o depoimento sobre o início do conflito, foram mortos mais de 200 Conselheiristas e, da parte da tropa legal, registrou-se a morte de um oficial e dez praças, além de vinte e tantos feridos.
 

A segunda expedição (Janeiro de 1897):
 
O major Febrônio de Brito comandou uma segunda expedição com cerca de 250 homens para Canudos. Baseados na primeira expedição, os soldados estavam muito confiantes, certos da vitória, porém, voltaram derrotados e com mais de cem baixas. Os sertanejos haviam se abastecido com armas abandonadas pelos soldados e tinham desenvolvido habilidades militares levando vantagem nesse segundo confronto.
 
No dia 18 de janeiro, já em 1897, portanto, choca-se o inimigo na Serra do Cambaio. Luta de cinco horas, com intervenção da artilharia. No dia seguinte, no Tabuleirinho, cerca de uma légua para Canudos, não resistindo ao ataque feroz de 4 mil conselheiristas, levado a efeito nem bem a manhã raiara, a tropa desmorona, regressando a Monte Santo aos trancos e barrancos, ressentida das baixas pesadas que sofrera e, o que é sintomático e se mostrará invariável ao longo de quase toda a guerra, à míngua de munição, víveres e água, como se permanecesse por meses no território inimigo. Após a retirada indescritível de mais de cem quilômetros, Febrônio escreverá em desabafo: ‘A tropa está morta, extenuada, maltrapilha, quase nua e é impossível refazer-se em Monte Santo’. (MELLO, 2007, p. 123).
 

A terceira expedição (Março de 1897):

O então Presidente Prudente de Morais, indignado com a derrota, programou uma nova expedição, convidando o coronel Moreira César, considerado um herói do Exército Brasileiro, para liderar a tropa. Antônio Moreira César era famoso pela violência utilizada contra os revoltosos da Revolução Federalista (1839-1895) em Santa Catarina.
 
Essa teria sido a primeira expedição regular já que o Governo Federal temendo o poderoso “foco monarquista” decidiu reprimir os revoltosos em Canudos.
 
Quando chegaram as tropas militares pela terceira vez na região, várias pessoas vieram de diversas partes do Nordeste brasileiro para defender Antônio Conselheiro, o “homem santo”.
 
O coronel Moreira César foi morto em combate, após diversas baixas dos militares e o comando foi passado para o coronel Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo, que também acabou sendo morto no mesmo dia. Após o ocorrido, a expedição retrocedeu.

Nessa Expedição tiveram destaque alguns chefes militares sertanejos: Pajeú, Pedrão, que depois comandou os seguidores de Conselheiro na travessia de Cocorobó, Joaquim Macambira e João Abade, braço direito de Antônio Conselheiro, que comandou os jagunços em Uauá.
 
 

A quarta expedição (Abril de 1897):
 
 

Foto 3 - Marechal Carlos Machado de Bittencourt (Acervo Fundaj)
 

O Ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt organizou a quarta expedição equipada com os mais modernos armamentos daquela época, sob o comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães. A Expedição era composta por duas colunas com mais de quatro mil soldados cada: uma comandada pelo general João da Silva Barbosa e a outra por Cláudio do Amaral Savaget. 

O primeiro combate ocorreu no dia 25 de junho de 1897, em Cocorobó, com a coluna de Savaget. Depois de sofrerem significativas perdas, dois dias depois, no dia 27, os militares chegaram a Canudos.

Em agosto de 1897, para resolver o problema de abastecimento das tropas, após meses de combate, o próprio ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt se instalou em Monte Santo. O Exército se encontrava sem infra-estrutura para alimentar as tropas e Monte Santo se tornou a base operacional.
 
A tropa conseguiu fechar o cerco sobre o arraial em setembro de 1897 após várias investidas. No dia 22 de setembro, Antônio Conselheiro morreu provavelmente em decorrência de uma disenteria.
 
O cadáver de Antônio Conselheiro foi exumado e decapitado. 
 
Depois da morte de seu líder, a população sobrevivente se dividiu e, parte dela, se rendeu sob a promessa de liberdade, enquanto outra parte resistia na praça central do povoado. Todos os que se renderam, apesar das falsas promessas, foram degolados, inclusive mulheres e crianças. Esse triste episódio ficou conhecido como “gravata vermelha”.
 
 
Os seguidores de Conselheiro resistiram até o dia 5 de outubro de 1897, quando foram mortos os últimos quatro defensores do movimento. O Exército incendiou toda a vila com suas 6.500 casas erguidas, de acordo com Mello (2007, p. 14), num período de não mais que quatro anos.
 
A despeito da problemática envolvendo os combatentes de Canudos, esse grande confronto trouxe outras reflexões, como a visível diferença entre os militares e os sertanejos como se tratasse de povos distintos.
 
Falar da grande tragédia nacional de Canudos é falar da falha na colonização brasileira que destinou a litoral e sertão trilhas paralelas de desdobramento, dessa incomunicabilidade resultando o fato grotesco de se sentirem estrangeiros o litorâneo e o sertanejo, quando postos em face um do outro. (MELLO, 2007. p. 72).
 
Essa sensação de estranheza se revelava quando os homens do litoral do Norte ou dos estados do Sul cruzavam com os sertanejos, não apenas pelos seus hábitos, mas também pela ausência de vaidade, constituição franzina, aspecto descuidado e despretensioso.

O confronto mobilizou ao todo cerca de doze mil soldados oriundos de dezessete estados brasileiros e distribuídos nas quatro expedições militares citadas anteriormente. Estima-se que morreram ao todo por volta de 25 mil pessoas, culminando com a destruição total da povoação. Esse desfecho fez com que a Guerra de Canudos tenha sido considerada um dos fatos históricos mais tristes e sangrentos da História do Brasil e acabou se constituindo num dos maiores crimes já praticados no país.
 
 

 
Recife, 20 de fevereiro de 2019.
 
 
 

FONTES CONSULTADAS:
 
 
 
ABREU, Alzira Alves (Coord.). Dicionário Histórico-biográfico da Primeira República (1889-1930). 2015. Disponível em: <http://encurtador.com.br/ghxBI>. Acesso em: 18 fev. 2019.

JUNQUEIRA, Eduardo. Guerra de canudos. 2016. Disponível em: <https://atlas.fgv.br/verbetes/guerra-de-canudos>. Acesso em: 05 fev. 2019. 

MELLO, Frederico Pernambucano de. Pernambuco e a Guerra de Canudos. Continente Documento, n. 3, nov. 2002.

MELLO, Frederico Pernambucano de. A Guerra total de Canudos. São Paulo: A Girafa Ed., 2007.

VELASCO, Valquíria.  Guerra de Canudos. 2014. Disponível em: <https://www.infoescola.com/historia/guerra-de-canudos/>. Acesso em: 05 fev. 2019.
 
 


COMO CITAR ESTE TEXTO:
 
 
 
Fonte: VERARDI, Cláudia Albuquerque. Guerra de Canudos. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/>. Acesso em: dia mês ano. Ex. 6 ago. 2009.
 

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