Home
Discografia da MPB: Traços de humor
Renato Phaelante da Câmara
Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco
Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
 
 
 
A crítica, a sátira, o humor, com remanescentes no teatro grego, em suas expressões artísticas e culturais, na censura, na troça, na zombaria à política e à moralidade pública de uma forma geral, parecem haver surgido no Brasil anonimamente em forma musical e poética, importados de Portugal e Espanha, principalmente até a segunda metade do século XVII. Aos poucos foi perdendo a influência europeia e ganhando cores brasileiras, conforme afirmam os estudiosos, através do poeta Gregório de Mattos, um baiano educado em Coimbra, cujos versos, muitos deles ao alcance do povo, utilizando-se de uma crítica ácida, áspera, que lhe valeu o apelido de “Boca do inferno”. Na política e nas artes da época do Império, “a sátira seria a resposta clandestina e anônima que o poeta tinha ensarilhada (embaraçada) para aqueles que o contrariavam, mesmo os mais poderosos”.
 
"Saiu a sátira má
e empurraram-na os perversos
Que nisto de fazer versos
Eu só tenho jeito cá
Noutras obras de talento
Eu sou só o asneirão
Em sentido sátira então
eu só tenho entendimento."

Exatamente a partir de 1780, segundo algumas fontes, surgiram as primeiras formas populares como o lundu e a modinha, e começaram a aparecer nomes de compositores, cantores e músicos, dando origem ao que viria a ser a Música popular Brasileira; uma música que nos primeiros anos de transformação sofreu, ainda, bastante influência dos cantares portugueses ou de outras regiões europeias. Algumas traziam versos impregnados de romantismo e outras, versos que se solidificaram, apenas como paródias, mas que já apresentavam vestígios de costumes nativistas que foram, pouco a pouco, levando essa música a correr em leito próprio.
 
Seguindo esse raciocínio, pode-se observar que Wanderley Pinho registrou a modinha “Astuciosos os homens são”, cantada na Bahia entre 1843 e 1857, como a mais autêntica da época no Brasil. E, apesar de constar como sendo de autor desconhecido, o mesmo Wanderley lhe atribuiu um compositor feminino ao afirmar: “Pela crítica e sabor amargos e de característica anti-masculina, deve ter sido escrita por mulher”. Observando-se seus versos, numa análise bem simples dessa criação, percebe-se a elaboração de uma forma crítica, direcionada para a música intencionalmente satírica:

"Astuciosos
Os homens são
Enganadores
Por condição.
Os homens querem
Sempre enganar
Nós nos devemos acautelar
Juram Constancia
Até morrer
Mas enganar é seu prazer (...)"

Letrista, cantor, violinista e compositor, Xisto Bahia (1841-1894), foi um dos que mais se utilizaram do humor e da crítica nas suas criações e se evidenciou como artista dos mais populares na segunda metade do século XIX. Um dos seus lundus que marcou época tem a seguinte letra:

"Iaiá você quer morrer?
Quando morrer, morramos juntos
Qu’eu quero ver como cabem
Numa cova dois defuntos (...)
(...) A saia de Carolina
Me custou cinco mil réis
Arrasta mulata a saia
Qu’eu dou mais cinco e são dez (...)"

Em um outro lundu, intitulado “O Pescador”, destacam-se o humor e a malícia:

"Nesta terra d’interesse
Neste mundo enganador
Não há homem que não seja
Mais ou menos pescador.
Pesca o pobre, pesca o rico
Pesca aqui, pesca acolá
Pescam uns porque precisam
Outros pescam por pescar..."

Xisto Bahia fez sucesso, principalmente, no teatro, o mais oportuno meio de comunicação, de acesso ao público à época. Ali, ele tem uma atuação brilhante como humorista, ator e cantor. No período do segundo Império, destacou-se sua rivalidade artística com outro autor de lundus, Laurindo Rabelo, muito bem conceituado naquela fase. São de Xisto Bahia esses versos irônicos, decorrentes de seus “duelos” com Rabelo:

"Eu conheço muita gente
Igual ao camaleão
Com a cabeça diz que sim
Com o rabinho diz que não
Segura, meu bem, agarra,
Amarra o camaleão."

Também de Xisto Bahia, a primeira música registrada na discografia brasileira, o lundu “Isto é bom”, lançado na Casa Edson em 1902, através da gravadora Zon-o-Phone, em disco de nº 10.001, interpretada por outro pioneiro em toda essa história, o cantor conhecido por Baiano:

"O inverno é rigoroso – Isto é bom!
Já dizia a minha avó – Isto é bom!
Quem dorme junto tem frio – Isto é bom!
Quanto mais quem dorme só
Isto é bom! Isto é bom que dói!"

Para o estudo dessa influência crítica e jocosa que desaguou ma discografia da MPB, não se pode descuidar de um dos nomes mais importantes nesse desenvolvimento, o de Arthur de Azevedo, que no mesmo período em que despontava para a dramaturgia, se iniciava na música, utilizando-se, algumas vezes do disco. Tão importante sua atuação como dramaturgo, mereceu de um estudioso sobre o assunto, o seguinte comentário: “Não houve costume ou episódio sobre o qual não escrevesse, quer se tratasse de política, teatro, letras ou vida social”.

Além de Arthur de Azevedo, outros nomes de letristas e compositores apareceram nesse período primitivo de nossa discografia, mormente o que vai de 1902 a 1913. Entre eles estão os de Chiquinha Gonzaga, Ernesto de Souza, Eustórgio Wanderley, Altemar Tavares, Eduardo das Neves, Sinhô e Donga.

Foram inúmeros os intérpretes que, no início do século se destacaram na discografia brasileira, tanto pelo próprio talento, quanto pela graça e popularidade alcançadas no trato interpretativo dessas letras espirituosas e jocosas, bastante exploradas nesse período. Eram nomes como Mário Pinheiro, Geraldo Magalhães – tanto solo, quanto compondo a dupla “Os Geraldos”, juntamente com Nina Teixeira, outras vezes com Eduardo das neves e, principalmente com Baiano, o mais constante deles.

Os temas, retirados daquilo que se fazia assunto nas rodas de conversas, eram, em geral, o negro, a mulata, a creoula, o português, os dotes femininos, a condição social, a boemia, o carnaval, a sogra, a comida, o fazendeiro, os animais, a capital federal, o divórcio, entre tantos outros. Eduardo das Neves registrou modinhas que eram o assunto do momento e que atingiram ou vieram diretamente do povo.

Num exemplo disso, pode-se ver “A Guerra de Canudos”, “O Aumento das Passagens”, “A Carne Fresca”, “O Marechal”, “O Cólera”, “O Bombardeio” e o lundu “O Soldado que perdeu a Parada”.

Outro nome de destaque na discografia brasileira é o de Freire Junior, que além de se distinguir na composição de músicas cujos temas eram sátiras políticas, como se verá adiante, sobressaiu-se, também, com o mesmo espírito e tempero gracioso, na produção de músicas para a propaganda de remédios, que se tornaram populares na década de 30.

O compositor, conhecido como “Caninha”, cujo verdadeiro nome era José Barbosa da Silva, carioca de Jacarepaguá, também se fez presente com muita ênfase nessa extensa discografia. Tendo se iniciado em 1918 com o maxixe “Gripe Espanhola”, já em 1919 lançou o tango “O Kaiser em Fuga” e em 1920, surgiu com o samba “Quem vem atrás Fecha a Porta”. E, como se isso não bastasse para demonstrar o seu talento musical voltado para o jocoso, o cômico e o satírico, as suas “contendas”, através da música, com o compositor Sinhô, evidenciaram bastante essa tendência humorística na discografia nacional.

Por outro lado, Sinhô, nascido José Luiz de Morais, foi outro carioca oriundo do centro do Rio de Janeiro, do bairro boêmio da lapa, que durante muitos anos reclamou para si a autoria do primeiro samba gravado no Brasil em 1917, intitulado “Pelo Telefone”, cujos autores conhecidos são Donga e Mauro de Almeida.

Sinhô tornou-se, sem dúvida, uma figura inesquecível no contexto da MPB. Suas polêmicas com outros músicos de importância na época, através de sambas marcantes, atingiram grande popularidade. E, não só músicos, mas também literatos, poetas, compositores, foram motivo de sátira para Sinhô. Tanto que, em 1918, fez críticas jocosas às lutas entre os baianos J. J. Seabra e Rui Barbosa. Em 1919, o seu samba “Três macacos no beco”, satirizava as figuras de Donga e dos irmãos Pixinguinha e China. Depois, em “Fala meu Loro”, fez troça de Rui Barbosa e, em “Pé de Anjo”, voltou a criticar China, devido aos pés enormes que possuía.

Em 1921, chegou a ser perseguido pela polícia carioca, depois de criticar o governo de Artur Bernardes com o samba “Fala Baixo”, que ganhou bastante popularidade à época. É, no entanto, em 1929, que registrou na discografia dois clássicos da Música Popular Brasileira: “Jura” e “Gosto que me enrosco”, ambos marcados pelo humor do compositor e a leveza da interpretação do recém-lançado Mário Reis. 

Essa veia tão forte em ironia, presente na obra de Caninha e Sinhô, mereceu do jornalista Carlos Bittencourt uma quadrinha que, além de identificá-los pelos seus verdadeiros nomes, diz bem o que eles inspiravam com suas composições tão repletas de chalaça.
 
“São dois cabras perigosos
Dois diabos infernais
José Barbosa da Silva,
José Luiz de Morais”.

De Cassimiro Rocha, no campo humorístico ou satírico, ele como músico tão conceituado nos meios musicais do início do século, tem-se conhecimento de um grande e único sucesso, o choro intitulado “Rato-Rato”, inspirado nos pregoes dos compradores de ratos durante a campanha de saneamento feita no Rio de janeiro, nos tempos do sanitarista Oswaldo Cruz.

De Costa Júnior, compositor carioca, também conceituado no início do século, tendo vivido de 1870 a 1917, foi a música de maior sucesso do carnaval de 1909, a polca “No Bico da Chaleira”, composta em 1908, uma sátira aos aduladores do político Pinheiro Machado.

A discografia brasileira registra, a partir de 1907, a presença de um cantor cômico, que ganhou bastante popularidade. Trata-se de Nozinho, cujo verdadeiro nome é Carlos Vasques. Nascido em Macau, no Rio Grande do Norte, em 1887, Nozinho era também locutor, anunciador das gravações da Casa Edson do Rio de Janeiro, a mesma cidade aonde veio a falecer em 1962.

A partir de 1913 e, aproximadamente, até meados dos anos 40, o humor nordestino dominou o sul do país através do teatro e, depois, do rádio e do disco, com a chamada época das emboladas. Foi, talvez, a mais característica das criações musicais do povo nordestino, tendo como berço os estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Ceará.

A discografia brasileira, também registra um sem número de compositores e intérpretes, na sua maioria nortistas, que usufruíram dessa fonte rica do folclore e do cantar popular. Entre eles destacam-se João Pernambucano, José Luiz Calazans – o famoso Jararaca – Luperce Miranda, Minona Carneiro, Manoel de Lino, Manuel Queiroz, Manezinho Araújo, Augusto Calheiros e os conjuntos musicais Bloco dos caxangás, Turunas Pernambucanos, depois Turunas da Mauricéia, Alma do Norte e até nomes de destaque na MPB e na vida radiofônica brasileira, como Noel Rosa, Almirante, Renato Murce, Zé do Bambo, Raul Torres, pachequinho, Artur Costa. Homens que, apesar da origem sulista, eram motivados pelo clima quase sempre jocoso, satírico e humorístico daquela manifestação musical.

Entre as mais famosas emboladas, encontram-se “Cabloca de Caxangá”, o maior sucesso do carnaval brasileiro de 1914; “Espingardas”, de 1922; “”Pinião”, Pinião”, de 1927; “Ai, Maria” e “Xô Juriti, de 1928; “Vamos apanhá Limão”, “Sapo Dentro do Saco” e “Galo Garnizé”, de 1929; “O Perigo de Muié”, “Comigo não João”, “Batalhão Navá”, “Macaco Saruê” e “Mandei Sentá o Vapô”, todos de 1930; “Se eu Fosse Interventô” e “Minha Plataforma de Gunverno”, ambas de 1933; “Vaca Maiada”, “Caminhão do Coroné” e “Cuma é o Nome Dele”, de 1939. E tantos outros como “Meu Sapé”, “Pau lá na Mata”, “O Trem vai Chegá”, “Xô Bicho”, “Taco no taco” e “Balança o Cacho Sinhá”, só para citar alguns.

Foram tantos os sucessos cômico-musicais que, apesar de não serem produzidos para o carnaval, obtiveram enorme popularidade nesse período. E, sem dúvida, durante o reinado de Momo e para aproveitar a disposição da população envolvida com a libertinagem do evento, que esse espírito crítico, jocoso, satírico, encontrou receptividade mais efetiva.

Em 1930, quando as façanhas de Lampião se espalhavam por todo o Brasil, o maestro, regente e compositor J. Thomás compôs um samba intitulado “Vou Pegá Lampião”, com uma letra audaciosa e bem humorada.

“Adeus Amélia
Vou decidir minha sorte
Eu vou pro Norte
Vou pegar Lampião.
Cinquenta contos
Não fazem mal a ninguém
Vamos ver se esse malandro
Desta vez vem ou não vem.
Não quero nada
Nem revólver, nem canhão
Vou pegá-lo a cabeçada,
Pontapé e bofetão.
Não sou criança
Ele virar estopa
Vou acabar com essa lambança
Lampião pra mim é sopa!”

Ao final da década de 30, surgiu um compositor que soube, como ninguém, explorar esses temas durante o carnaval, com talento e competência reconhecidos nacionalmente. Era Lamartine Babo, o famoso Lalá, cuja estreia se deu com a música “Os Calças-Largas”, sucesso oriundo do teatro, que formulava um comentário inteligente, cheio de graça, sobre a moda masculina que acabava de ser lançada pelos “almofadinhas” da época. E, em 1932, ele lançou o clássico “O Teu Cabelo não Nega”, juntamente com os Irmãos Valença, de Pernambuco, sucesso retumbante em todo o país.

Se Noel Rosa e Wilson batista eram, sem dúvida, destaques da MPB, particularmente no que diz respeito ao humor e à crítica, outros nomes, também famosos, de criatividade indiscutível, destacaram-se assinando sucessos cujos temas vão desde o amor mais servil à mais completa vadiagem, resultando em composições esplêndidas, feitas principalmente para o período momesco, bastante executadas até a década de 60. Entre esses sucessos distinguem-se “Mamãe eu Quero”, de Jararaca e Vicente Paiva; “Touradas em Madri”, de João de Barros e Alberto Ribeiro; “Camisa Listrada”, de Assis Valente; “Amélia”, de Mário Lago – cujo tema enfoca uma mulher tão real e, ao mesmo tempo, tão etérea, que “achava bonito não ter o que comer”.

Muitas outras, compostas para esse período carnavalesco, evidenciaram-se e, entre elas estão “Nós, os Carecas”, de Arlindo Marques e Roberto Roberti; “Nós, os Cabeleiras”, de Benedito Lacerda e Roberto Martins; “Nêga do Cabelo Duro”, de Rubens Soares e David Nasser; “A Mulher do Padeiro”, de J. Piedade e Germano Augusto; “A Mulher do Leiteiro”, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira – que tempos depois, já nos anos 60, compuseram a marcha “Índio Quer Apito”; “O Cordão dos Puxa-Sacos”, de Roberto Martins e Erastóstenes Frazão; “Trabalhar eu não”, De Anibal A. de Almeida; “Falta um Zero no meu Ordenado”, de Ari Barroso e Benedito Lacerda; “Se eu Fosse o Getúlio”, de Arlindo Marques e Roberto Roberti.

Um dos temas mais fortes dessa música tão repleta de protesto-jocoso, é aquele que focaliza o aspecto social, que tem exatamente na música “O Pedreiro Waldemar”, de Wilson Batista em parceria com Roberto Martins, a precursora de uma série de obras-primas, onde se sobressaem também “Barracão”, de Luiz Antônio, que ainda em parceria com Jota Júnior compôs “Lata D’Água” e “Sapato de Pobre”; “Mundo de Zinco”, também de Wilson Batista em parceria com Nássara; “Zé Marmita”, novamente de Luiz Antônio tendo Braguinha como parceiro; “Tem Nêgo bebo aí” e “Cachaça”, de Mirabeau, que assinou, também, em parceria com Milton de Oliveira, “A Turma do Funil”.

Com a perspectiva da inauguração de Brasília e já dando entrada aos anos 60, Billy Blanco compôs aquela que se tornou o protesto dos funcionários públicos ameaçados de serem transferidos para a nova capital federal, intitulada “Não vou para Brasília’. Enquanto, no Recife, Sebastião Lopes compunha “Palácio da Alvorada”, saudando, com leve humor, a chegada da Nova CAP. Seguiram-se “Engole de Paletó”, de J. Audi; “O Velho Gagá”, de Almira Castilho e Paulo Gracindo; “Chegou o Belo Antônio”, de Luiz Januzzi – uma marcha bem humorada, de duplo sentido, satirizando o mundo gay da época, representado então, pelo personagem do filme “O Belo Antônio”, interpretado pelo ator italiano Marcelo Mastroianni, que àquela época desfrutava de grande popularidade no Brasil; “Bigurrilho”, de Sebastião Gomes, Paquito e Romeu Gentil; “A Cabeleira do Zezé”, de autoria de Roberto Faisal e João Roberto Kelly – uma crítica humorística ao cabeludo dos anos 60, insinuando dúvidas sobre sua masculinidade.

Além dessas motivações tão diversificadas, ligadas ao cotidiano das classes média e pobre, a política, também era fonte marcante de inspiração dos nossos mais conceituados compositores.  Assim ocorreu com a Revolução de 30 e a II Guerra Mundial que teve início em 1939, estendendo-se até 1945. Um grande número de músicas repletas de humor, sobre este tema, estão registradas em disco e, só para citar algumas que mais se popularizaram no Brasil, pode-se lembrar aquelas que foram compostas para a campanha que antecedeu à Revolução de 30, como o samba “É sim Senhor” e as marchas “Seu Doutor” e É Sopa”, todos de autoria de Eduardo Souto. Nessa última, com muito chiste e criatividade, ele relatava uma partida de futebol que, supostamente, ocorria entre dezessete Estados da federação contra Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. As duas primeiras, são verdadeiras sátiras à política café-com-leite que se praticava no país por aqueles tempos, salientando as lutas pela sucessão entre paulistas e mineiros. Dentro desse contexto, exaltando o então candidato à presidência pela situação, Júlio Prestes, o compositor Freire Júnior compôs a marcha “Seu Julinho vem”, e J. B. da Silva, o popular Sinhô, compôs o samba “Eu Ouço Falar”.

Vitoriosa a Revolução de 30, surgiram composições homenageando os vencedores e criticando os vencidos. Uma delas foi o hino “24 de Outubro”, de Henrique Vogeller e Catulo da Paixão Cearense. Escondido sob os pseudônimos de G. Ladeira e Dr. Boato, o compositor Lamartine babo compôs “O Barbado Foi-se”, marcha na qual se referia à deportação de Júlio Prestes. Em Pernambuco, o músico, maestro e compositor Nelson Ferreira, compôs a marchinha-canção “A Canoa Virou”, lançada no carnaval de 1931, sobre a fuga do Governador de Pernambuco, Estácio Coimbra. Ainda sobre o mesmo tema forma compostas “Bico de Lacre não vem Mais”, de Osvaldo Santiago e Gegê, também de Lamartine Babo, enaltecendo, dentro de um espírito repleto de humor, o líder brasileiro Getúlio Vargas.

Estão, igualmente registradas como parte desse tema, modas de viola tais como “Isidro já Vortô” e “Rebentô a Revolução”, ambas de Manuel Rodrigues; a embolada “Itararé” e a conferência humorística “O Momento Atuá”, ambas de Jararaca.

No carnaval de 1943 estourou a marcha “China-Pau”, inspirada na resistência chinesa aos japoneses durante a II Guerra Mundial, numa composição de João de Barro – o Braguinha e de Alberto Ribeiro. Essa mesma dupla compôs, ainda nesse ano, uma sátira dirigida a Adolf Hitler e ao símbolo inglês John Bull (touro), intitulada “Adolfito Mata-Mouros”. Destaque ainda para as composições “Tem Galinha no Bonde” e “Que Passo é esse Adolfo?”, sátiras à Alemanha compostas em 1943 por Haroldo Lobo e Roberto Roberti. Também sucesso do carnaval de 1943, a marcha “Quem é o tal?”, composta em 1942 por Ubirajara Nesdan e Affonso Teixeira, interpretada por João Petra de barros, que qualificava Hitler como um palhaço no sentido pejorativo do termo e enaltecia o Presidente Vargas, antevendo também a vitória dos aliados sobre os nazistas.
 
“Quem é que usa cabelinho na testa
E um bigodinho que parece mosca
Só cumprimenta levantando o braço
Ê, ê, ê, palhaço...”

Os ares da II Guerra Mundial sopraram também no Brasil em forma de uma recessão que, de certa forma, desmotivava um pouco as pessoas. Nássara e Frazão, sentindo esse clima, compuseram a marcha-frevo intitulada “Falte Tudo”, que juntamente com o samba “Racionamento”, de caio Lemos e Humberto Teixeira, tentava motivar o carnavalesco atenuando, através do chiste, os efeitos daqueles tempos recessivos.

Esse clima de humor na MPB deixou sua marca também em Pernambuco. Os compositores da “terra dos altos coqueiros”, responsáveis pelas mais belas páginas carnavalescas, pegaram carona nessa onda humorística, buscaram a fonte de onde ela se originava e nela se saciaram, enriquecendo a músico-discografia, através de marchas e frevos de incontestável sucesso, mormente no Nordeste. Entre esses sucessos pode-se destacar “Bye, bye my Baby”, de Nelson Ferreira, que situava a influência americana no comportamento e no linguajar do recifense durante a II Guerra. Ainda de Nelson Ferreira em parceria com Sebastião Lopes, está a música “Quebrou-se a Mola do Eixo”, ironizando a derrota sofrida por alemães e japoneses nos anos finais daquela Guerra e, igualmente, da mesma dupla, “Quer Matar Papai Oião?”, também lançada, como a anterior em 1944, que saudava a invasão de Berlim, descrevendo a caminhada vitoriosa dos aliados dentro do ritmo do “passo” – coreografia do frevo pernambucano.

Dentro dessa linha, Marambá, lançou em dezembro de 1943, na interpetação de Carlos Galhardo, o frevo-canção “Cai...Cai”, sucesso do carnaval do ano seguinte, onde ele descrevia as derrotas de Hitler (o seu Fritz), condenando-o a descansar na “geladeira” (necrotério). Ainda na interpretação de Carlos Galhardo, Capiba lançou, por essa época, sob a mesma influência da II Guerra, o “Primeira Bateria”.

Este é um levantamento de parte da memória de autores que fizeram do humor e da crítica o ponto determinante dos seus temas.
 
 


FONTES CONSULTADAS:
 
 

ALMEIDA, Renato. Compendio de História da Música Brasileira. 2 ed. Rio de Janeiro, F. Briguiet & Cia. Editores, 1958.
 
________. História da Música Brasileira, 2 ed. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia. Editores, 1942.
 
ALMIRANTE (Henrique Foréis Domingues). No Tempo de Noel Rosa. São Paulo, Livraria Francisco Alves, 1963.
 
ARAÚJO, Mozart de. A Modinha e o Lundu no Século XVIII: uma pesquisa histórica e bibliográfica. São Paulo, Record Brasileira, 1963.
 
BETTENCORT, Gastão de. Os Gloriosos Caminhos da Música no Brasil. Lisboa: s.n., 1948.
 
BRANT, Celso. Poetas da Música. Rio de Janeiro, Departamento de Imprensa Nacional, 1958.
 
BRASIL Musical. Rio de janeiro: Ed. Arte Bureau, 1988.
 
CÂMARA, Renato Phaelante da; BARRETO, Aldo Paes. Capiba: é frevo meu bem. Funarte, Instituto Nacional de Música, Divisão de Música Popular, 1986.
 
CAPIBA E NELSON FERREIRA [Foto neste texto]. Disponível em: <https://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/noticia/2017/02/05/frevo-nos-tempos-do-politicamente-incorreto-269487.php>. Acesso em: 27 ago. 2019.
 
CARDOSO, Silvio Túlio. Dicionário Biográfico de Música Popular. Rio de Janeiro, empresa Gráfica Ouvidor S/A, 1965.
 
ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. São Paulo: Arte Ed., 1977.
 
PASSOS, Claribaldi. Música Popular Brasileira. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, Imprensa Universitária, 1968.
 
SANTOS, Alcino et al. Discografia Brasileira 78 rpm, 1902/1964. Rio de Janeiro: Funarte, 1982. 5 v.
 
TINHORÃO, José Ramos. Música Popular: os sons que vêm da rua. Ed. Tinhorão.
 
 
 
 
 
Fonte: CÂMARA, Renato Phaelante da. Discografia da MPB: Traços de humor. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

Busca "Palavra-chave"

Busca "A a Z"


Copyright © 2019 Fundação Joaquim Nabuco. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido pela Fundação Joaquim Nabuco