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Mestre Vitalino: cem anos de louça lúdica
Rúbia Lóssio
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
Cesar Pereira
Analista em C&T da Fundação Joaquim Nabuco
 
Foto 1 - Vitalino em Caruaru/1960 - Acervo Fundaj
 
No dia 10 de julho de 1909, nascia em Caruaru, agreste pernambucano, o humilde gênio artesão Vitalino Pereira dos Santos. Filho de ceramistas e agricultores, Vitalino herdou da mãe, artesã e fabricante de louça utilitária de barro, o talento e a criatividade de fazer “loiça de brincadeira”, como ele mesmo afirmou ao pesquisador René Ribeiro. Aos seis anos de idade, sua “brincadeira” era moldar as sobras das peças feitas por sua mãe (panelas, potes, jarros, alguidares, pratos, mealheiros, etc), transformando-as em bichos – cavalos, vacas, bodes – ou outras figuras que surgiram da sua mente de criança. Como não tinha brinquedo, brincava de criar.... Mas sua produção lúdica também era vendida na feira, junto com as louças de sua mãe.
 
Assim cresceu Vitalino, sempre gostando de brincar. Seu imaginário cultivava o solo fértil do cotidiano nordestino, as festas de rua e as feiras livres. Em outras palavras, ele esculpiu poeticamente os acontecimentos do povo. De sensibilidade aguçada, utilizava em abundância as cores enquanto moldava suas peças, aliando sensibilidade, destreza, desenvoltura e agudeza para compor cada boneco de barro. Sua criação era genuinamente popular e sertaneja, retratando as lembranças da infância. Suas peças envolviam o cotidiano do povo nordestino: procissões, retirantes, bois, músicos, vaqueiros, bandas de pífano, enterro na rede, carros de boi, desafios de violeiros, o agricultor voltando da roça com a família, a casa de farinha.
 
Graças principalmente ao empenho do artista plástico Augusto Rodrigues, e dos irmãos cararuenses José, Elísio e João Condé e do colecionador Abelardo Rodrigues, que a louça lúdica do Mestre Vitalino alcançou difusão mundial, e transformou-se em um marco para a história do Nordeste, ou seja, a arte de Vitalino conseguiu comunicar para o mundo a vida do sertanejo através das expressões moldadas pelo massapé.
 
Foi no Alto do Moura, um lugar próximo a Caruaru, que Vitalino aperfeiçoou suas peças. Ainda hoje, o Alto do Moura abriga a “Casa-Museu de Mestre Vitalino”, construída em 1959, local onde o mestre residiu, desenvolveu sua arte e morreu. Após sua morte foi conduzida por seu filho Severino Vitalino e posteriormente por seus netos. A “Família Vitalino” – continua a produzir e vender artesanato no local. (Rua Mestre Vitalino, 644 – Alto do Moura – Caruaru – PE).
 
Mestre Vitalino, teve e tem vários seguidores, e ficava lisonjeado quando eles copiavam seus bonecos. Por exemplo, a peça “Noiva na garupa do cavalo do Noivo” foi criada por Vitalino, e, no entanto, Manuel Eudócio, Luiz Antonio e outros a copiaram sem haver ressentimentos. Também envolvidos com a temática regionalista e rural, seus discípulos deram continuidade ao trabalho de Vitalino.
 

Foto 2 - Noivos a cavalo
 
Mestre Vitalino, além de ceramista, desenvolvia outra arte: era um exímio tocador de pífano. O som de sua banda pífano mantinha sua característica principal: o lúdico em suas atividades. 
Vitalino foi casado com Joana Maria da Conceição e teve dezoito filhos, dos quais somente cinco viveram até a idade adulta. Ele mesmo faleceu muito jovem, na plenitude dos seus 54 anos, no dia de janeiro de 1963, acometido por uma espécie de varíola conhecida como catapora.
 
Como observou Herbert Read, importante crítico inglês da arte da década de 1930, para compreendermos a cerâmica popular do Mestre Vitalino devemos levar em consideração a união de alegria e cor. Segundo Souza Barros – economista, sociólogo e jornalista – “as peças do Mestre Vitalino - como ‘O caçador atirando na serpente que hipnotizava um pássaro’ e também na famosa peça ‘ O caçador perseguido pelas onças’ - têm profunda identificação com grupos de figuras tchecas e polonesas, em que o caçador espera o urso, atrás da árvore” (SOUZA,1988).
 
Para a antropóloga Leila Coelho Frota “A fase pintada de Vitalino mostra como a cor, para ele, não foi decoração e sim elemento integrante de modelagem, acentuando a dramaticidade das figuras pela dosagem e seleção dos tons baixos, intercalados de manchas de branco e vermelho”. Não há um só elemento dissonante nessas atualíssimas composições do mestre, verdadeiros exemplos de um ‘pop sertanejo’.” ( Companhia Editora de Pernambuco/CEPE. Calendário de 2009, comemorativo dos 100 anos do Mestre Vitalino Mês Maio).
 
De grande versatilidade, certa vez Vitalino referindo-se ao seu processo de criação afirmou: “Eu aprendi pela cadência, tirando do juízo, fazia o que via e o que nunca havia visto, fazia pela cadência (...) diziam que zebra era curta e com pescoço alto; fazia rombudo, das pernas grossas... O povo dizia – É um elefante! Pois bem, ficava elefante.” 
  

Recife, 6 de abril de 2009.
Atualizado em 4 de setembro de 2019.
 
 

FONTES CONSULTADAS: 
 
 

AMORIM, Maria Alice. Vitalino veio do barro. Recife/PE: CEPE, 2009.
 
FROTA, Leila Coelho. Mestre Vitalino. Recife: Fundaj, Editora Massangana, 1986.
 
MESTRE Vitalino. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1993.
 
NOIVOS A CAVALO – Peça de artesanato de Vitalino [Foto 2 neste texto]. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa9523/mestre-vitalino> Acesso em: 04 set. 2019. 
 
SOUZA, Barros. Mestre Vitalino. In: MAIOR, Mário Souto. Valente; Waldemar (Org.). Antologia Pernambucana de Folclore. Recife: Fundaj, Editora Massangana, 1988, p.293 a 298.

 


COMO CITAR ESTE TEXTO:
 
 

Fonte: LÓSSIO, Rubia; PEREIRA, César. Mestre Vitalino: cem anos de louça lúdica. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php>. Acesso em: dia mês ano. Ex.: 6 ago. 2009.
 

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