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Vida de Folclorista: Mário Souto Maior, um cabra da peste
Rúbia Lóssio 
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
 

"Dou nó em pingo d’água,
Beliscão em nuvem e gosto de subir de 
tamancos em pé de bananeira".


Nascido de parteira, como todos os cabras da peste, em um ritual específico e próprio do imaginário popular nordestino, rico em superstições, surgia, no dia 14 de julho de 1920, no Agreste pernambucano, município de Bom Jardim, na Rua Coronel Gonçalves, n. 54, um menino, de nome Mário Souto Maior, filho do Coronel da Guarda Nacional, comerciante e fazendeiro Manuel Gonçalves Souto Maior e de Maria da Mota Souto Maior. Eles não imaginavam que o filho viria a ser um grande folclorista.
 
Mário Souto Maior diz em seu livro As Dobras do Tempo - quase memórias, que só se tornou um folclorista quando veio trabalhar na Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, em 1967, no setor administrativo. Certa ocasião, o Diretor Executivo, Mauro Mota, recebeu uma carta de Claribalte Passos, Diretor da revista Brasil Açucareiro, solicitando dez trabalhos sobre o folclore. Insistindo muito, Mauro Mota pediu a Dr. Souto, para elaborar uma texto destinado à revista. Como nada acontece por acaso, a partir daí, Dr. Souto começa a realizar o sonho literário. Lembrou a última vez que havia escrito, com seu irmão Moacyr Souto Maior, em 1954, uma monografia com o título Roteiro de Bom Jardim. Bem antes disso, em 1938, ele havia escrito Meus Poemas Diferentes. Diz ele que estava muito enferrujado, mas espremeu os miolos e conseguiu botar no papel, o trabalho, Brincando de Folclore. A revista Brasil Açucareiro publicou seu texto, depois batizado como Três Histórias de Deus Quando Fez o Mundo.
 
Muito animado com a aceitação, Dr. Souto recolheu tudo o que sabia sobre as crendices do Nordeste em torno da maternidade, nascendo o livro Como Nasce um Cabra da Peste, em 1969, resultado de sua primeira pesquisa folclórica de mais fôlego. Na noite em que Dr. Souto recebeu da editora Arquimedes as provas tipográficas do livro, nem conseguiu dormir. Apesar de não ser relatado por uma mulher, o ritualismo da gravidez ao parto, como é visto no Nordeste, foi descrito por um observador atento e dedicado ao nosso folclore. Hoje o livro já se tornou até peça de teatro, e foi traduzido para o alemão.
 
Com o passar dos anos, atendendo a um pedido do sociólogo Gilberto Freyre, em 1980, Dr. Souto elabora um Dicionário do Palavrão e Termos Afins, que se transforma num pesadelo. Mas um pesadelo que deu certo. Depois de esperar cinco anos para editar o dicionário, a revista Veja publicou uma matéria: É cultura, pô - Liberado o dicionário de palavrões:

Foi preciso esperar cinco anos para que as autoridades de Brasília, no mês passado, liberassem o livro pioneiro do etnólogo, apresentado agora como um trabalho de relevante importância para a cultura nacional. Além do nihil obstat e dos louvores governamentais, o dicionário vai para o prelo com prefácio do sociólogo Gilberto Freyre, orelhas do juiz de Direito Carioca Eliezer Rosa, Comentários de Aurélio Buarque de Hollanda, capa de Francisco Brennand e contracapa de Jorge Amado, indiscutível autoridade no assunto. Com 5.000 exemplares, deverá marcar a estréia da Editora Guararapes, do Recife, no próximo mês de agosto.
 
Foi assim que, por intermédio de Gilberto Freyre, Fernando de Mello Freyre, Mauro Mota, Gladstone Vieira Belo, Sylvio Rabello, entre outros, nasceu um folclorista.
 
Mas, essa virtude toda adormecida, vinda da infância no interior de Pernambuco, recheada de crendices, superstições, lendas, brincadeiras de roda, comidas típicas, cadeiras na calçada, banhos de açude, suspiros, negos bons, mangas, cajus... Tudo isso, parte de um imaginário rico e fascinante, também ajudou nas pesquisas de Mário Souto Maior.
 
Dr. Souto sempre dizia: “desconfie das pessoas que não amam as crianças, os animais e as plantas”. Essa sensibilidade iria refletir-se mais tarde, em seus livros, dedicados ao público infantil, mas que encantam qualquer adulto. Ainda quando criança, quase morreu afogado quando foi tomar banho, escondido dos pais, no açude, pois não sabia nadar. Depois desse trauma, nunca mais quis saber de banho em açude, rio ou mar.
 
Os livros Comes e bebes do Nordeste e Alimentação e Folclore tiveram sua origem remota, provavelmente, na sua primeira visita ao Recife quando tinha cinco anos de idade. Mário Souto Maior estudou a Carta do ABC com a professora Santinha, cuja casa ficava no beco da Matriz de Bom Jardim. Quando ele aprendeu a ler, passou a estudar na escola do professor Valpassos. Gostava de ouvir as histórias de João do Bonde na escada da matriz. João do Bonde era um homem muito engraçado, sem instrução, mas com uma imaginação muito fértil. Diz Dr. Souto que quando João do Bonde foi ao Recife e viu pela primeira vez o mar, não ficou encantado. Conheceu o bonde, que ele achou fabuloso, de modo que depois da visita ao Recife, toda estória dele falava em bonde. Por isso ficou conhecido como João do Bonde. É por isso que em todos os contos infantis que Dr. Souto publicou, João do Bonde está presente.
 
O folclorista Souto Maior também tinha intimidade com tudo que era moderno. Ele misturava folclore com tecnologia. Lúcia Gaspar, bibliotecária e amiga do Dr. Souto, salientou:

Tem paixão por documentar tudo que diz respeito à cultura popular. É o folclorista mais ‘tecnológico’ que conheço. Tradição e tecnologia são aparentemente elementos antagônicos, mas em Mário Souto Maior convivem em perfeita harmonia. Ele pesquisa a tradição e a coloca rapidamente à disposição dos interessados, utilizando-se dos mais modernos equipamentos eletrônicos existentes.
 
Assim, entre os seus oito e dez anos de idade, ele juntava todos os tostões que recebia, para poder, nos dias da feira, que ficava no pátio da matriz, ver o cosmorama, um aparelho ótico que ampliava vistas de cidades de outros países. Era a novidade da época, no ano de 1928.
 
Podemos acessar sua home page http://www.soutomaior.eti.br/mario/ para encontrar virtualmente o folclore na linguagem simples e didática do autor. Sua paixão pela tecnologia era tanta que, segundo Renato Phaelante, em homenagem que lhe prestou na comemoração dos seus oitenta anos, declarou que:
 
Lá, Mário Souto Maior era considerado pioneiro, tantas inovações que introduziu na cidade. E essa é outra característica de seu temperamento calmo guardando um espírito curioso, inquieto, ousado e vanguardista. Foi dele o primeiro refrigerador a querosene da cidade, foram de Dr. Souto também o primeiro ventilador, o primeiro televisor, a primeira radiola, por aqueles tempos denominada de “pick-up”. Introduziu ainda um gravador de áudio que gravava em ferro de cobre, e foi também o primeiro rádio amador da cidade sobre prefixo PYYEC.

A riqueza da infância vivida por Souto Maior ficou guardada em sua memória. O pequeno Mário cresceu, e em 1930, foi morar no Recife, numa casa da rua do Hospício, pois estava matriculado no sistema de internato no colégio Marista. Não ficou na casa por muito tempo por conta da revolução de 1930. Tempo vai, tempo vem, nesse ínterim, aos treze anos de idade, diz ele que inventou de ser poeta, elaborando assim um livro que ele batizou de Minhas Poesia.
 
Desde então, Mário não parou mais de sonhar em ser escritor. Fundou um jornalzinho, com seu amigo Américo Sedycias, no dia 19 de janeiro de 1936, chamado O Literário, que, embora de vida efêmera, significou muito para ele. Cursou o pré-jurídico no Colégio Carneiro Leão. E na pensão de Dona Sinhá, onde residia, na Rua Barão de São Borja, fez-se amigo de Guerra de Holanda, Pelópidas Soares e Isac Schachnic. E Fundaram a Academia dos Novos, grupo formado por devoradores de livros e amantes das letras. E depois de devorar tantos livros, surgiu sua primeira publicação em 1938. Meus Poemas Diferentes teve sua primeira edição com 250 exemplares financiados pelo seu pai.
 
Em 1943, no dia 23 de dezembro, Dr. Souto casa-se com Carmen, e dessa união tiveram sete filhos: Fred, Gise, Jane, Lis, Jan, Glen e Ed.
 
Com o passar dos anos, foi promotor público da Comarca de João Alfredo, em Pernambuco, no período de 1948 a 1954. Logo após, veio a ser diretor do Ginásio de Bom Jardim, que ele mesmo fundou. Em 1945, é nomeado prefeito de Orobó, também em Pernambuco. Já em 1967, torna-se assessor da Diretoria Executiva do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais e inspetor de ensino do Ministério da Educação e Cultura.
 
Mesmo com o sonho literário adormecido, sua vontade e sensibilidade ressurgiam aos cinquenta anos de idade, instando-o a continuar a pesquisar sobre o folclore, apesar do que ele chama de seu olho de Camões, que não conseguiu atrapalhá-lo em nada. Dr. Souto perdeu seu olho esquerdo, mas isso não o impedia de continuar sonhando. Em sua home page, o filho Jan diz:
 
Dizem que “em terra de cego, quem tem um olho é rei”. Pois bem, cego de um olho desde adolescente, com cinco graus de miopia e uma catarata estacionada na outra que lhe serve de janela pra vida, meu pai consegue captar, com a ajuda de sua máquina digital, uma Mavica da Sony, pequenos flagrantes do seu dia-a-dia, que certamente passariam despercebidos para a grande maioria das pessoas. Sua visão deficiente é complementada pela sensibilidade e pela capacidade de aprisionar imagens, de maneira tão eficiente quanto o faz com as palavras.
 
O seu hobby predileto era tirar fotografias com sua câmara de última geração. Mas foi graças aos seus escritos sobre o folclore, Souto Maior recebeu muitos prêmios, que provaram como Souto Maior foi reconhecido por várias instituições.
 
No dia a dia, Dr. Souto tinha em sua simplicidade uma forma carinhosa de falar com as pessoas. Foi um homem de muitos amigos, e dizia que, hoje em dia, só se faz amizade de “oi”, isto é, não há conversas, apenas “oi”.
 
Inspiração e idéias de Mário Souto Maior tiveram começo naquelas horas em que ficava bestando. Diz ele que ficar bestando é pensar em nada, olhar a natureza, ver os carros e as pessoas passarem, é tirar um tempo para nada. Nada mais natural quanto o folclore. Para o trabalho, Dr. Souto trazia água de coco, chocolate, jabuticaba e acerolas, “brincava” durante intervalos do seu labor de pesquisa, tirando fotografias dos visitantes que chegavam, da natureza, das revistas.
 
Esse olhar revela uma pessoa iluminada e simples na sua história. Durante o dia, Dr. Souto se preocupava com a família. Amante da boa música, tinha como passatempo, na hora do almoço, ouvir peças clássicas, boleros, valsas, reggae, temas musicais de novelas e até mesmo música americana. Conhecia o mundo através da tela, com seus vídeos de vários lugares do planeta.
 
Ele me disse: “Minha filha, quase faltou coração!” Uma vez, ele me falou: “O segredo da longevidade está com a gente sempre ter um objetivo na vida, em conviver com várias gerações e em estar sempre produzindo alguma coisa”.
 
Dr. Fernando de Mello Freyre, então presidente da Fundação Joaquim Nabuco, escreveu o prefácio do livro organizado pro Jan Souto Maior em homenagem aos oitenta anos do pai: “...que tenho a honra de prefaciar: não só como homenagem, mas como um ato, que se quer pleno, de celebração da vida”.
 
Por tudo isso, Dr. Souto era uma pessoa transparente, tinha como alegria sua família, e era chamado de tatu, pois não gostava de sair de casa para nada, exceto para trabalhar.
 
Foi convidado para dar uma entrevista em São Paulo, no Programa do Jô, exibido pela Rede Globo, no dia 9 de julho de 2001. Também foi homenageado em uma festa de carnaval no Recife, o chamado Baile dos Artistas, em fevereiro de 2001.
Viver como folclorista não é fácil. Seu filho Jan Souto Maior escreveu sobre o pai quando ele se foi no dia 25 de novembro de 2001:
 
Viver de cultura no Brasil não é sonho, é pura utopia. Este é Mário Souto Maior, meu pai, que sabe honrar seu nome, enchendo de orgulho aqueles que em vão, tentam acompanhar sua trajetória. Vai, pai, vai que a gente corre atrás...

E sua esposa, dona Carmen, presta sua última homenagem dizendo:
 
"Perdi Mário, que era a minha vida. Fiquei com meus filhos, que são a razão do meu viver. Por isso, tenho que ser forte para levar minha missão até o fim. Agradeço a todos os amigos que me confortaram nesta hora tão difícil e dolorosa da minha vida. Obrigado pelo carinho de todos vocês. Minha amizade..."
 
Ser um cabra da peste é ser um sonhador, é trazer consigo a paisagem do interior, como diz o poeta Jessier Quirino, é ter na alma o sorriso de uma criança, é ser amante da natureza, é ter na veia força de vontade, pois, como diz Euclides da Cunha, “o sertanejo - leio nordestino - é antes de tudo um forte”. Forte e simples. É ter no sangue a vontade de comer as coisas da terra; é entender o que o povo diz, pensa e ouve; é observar o povo, seus hábitos e costumes; é evidenciar as festas folclóricas, participando com gosto, gosto de cachaça, de farinha com rapadura, de caldo-de-cana e milho ao cheiro da fumaça da fogueira; é ver uma quermesse, rezar para o padroeiro, pedir chuva e ficar “bestando”. A vida de folclorista é como ser matuto na capital; ter essa vontade de querer mostrar como o povo vive e trazer na alma a essência das nossas raízes, que não pode ser perdida no tempo.
 
 O que importa é evidenciar o folclore de todas as suas maneiras, trazendo no imaginário o que temos de melhor, que são as nossas raízes. Fica aqui um pequeno retrato deste homem singular, professor, inspetor, advogado, promotor e folclorista (um dos maiores do nosso tempo) foi um verdadeiro cabra da peste!
 
 
Recife, agosto de 2002.
Atualizado e inserido em 01 de outubro de 2019. 
 
 


FONTES CONSULTADAS:
 
 
 
GASPAR, Lúcia. Mário Souto Maior: cronologia e Bibliografia. Recife: 20-20 Comunicação e Editora, 1995.
 
MÁRIO Souto Maior. Disponível em: <http://www.soutomaior.eti.br/>. Acesso em: 27 maio 2002.
 
MÁRIO SOUTO MAIOR [Foto neste texto]. Disponível em: <http://www.soutomaior.eti.br/index.php?option=com_phocagallery&view=category&id=3%3Amario-80-anos&Itemid=7&limitstart=23> Acesso em: 30 set. 2019.
 
SOUTO MAIOR, Jan (Org.). Mário Souto Maior - Oitenta anos. Recife: Ed. Massangana, 2001.
 
SOUTO MAIOR, MÁRIO. As Dobras do Tempo - Quase Memórias. Recife: 20-20. Comunicação e Editora, 1995.
 
______. Meus Poemas Diferentes. Recife: Geração Editora, 1938.
 
______; MAIOR, Moacyr Souto. Roteiro de Bom Jardim. Recife, 1954.
 
 
 

COMO CITAR ESTE TEXTO:
 
 

Fonte: LÓSSIO, Rubia. Vida de Folclorista: Mário Souto Maior, um cabra da peste. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php>.  Acesso em: dia mês ano. Ex.: 6 ago. 2009.
 

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