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O Conto popular: situação narrativa
Braulio do Nascimento
Presidente de Honra da Comissão Nacional do Folclore
 
 
 
Semelhante à maioria das coisas óbvias, o conto popular ainda não dispõe de uma definição consensual. Stith Thompson em seu tratado The folktale (1946) apontou as dificuldades dessa tarefa: a elaboração de uma definição com possibilidade de abrangência dos contos em sua pluralidade de formas. Dezessei anos antes, André Jolles (1930) tentara defini-lo, desalentado após analisar várias sugestões: "Conto é uma narrativa da mesma espécie das que os Irmãos Grimm reuniram em sua coletânea kinder-und-Hausmärcheri". 
 
Todos nós sabemos o que é um conto e conhecemos suas diversas denominações: contos de fadas, contos da carochinha, contos folclóricos, contos populares, contos tradicionais, contos de Trancoso, bem como as alternâncias conto/estória. A primeira coletânea brasileira, de Sílvio Romero (1885), intitulou-se Contos populares do Brasil, Luís da Câmera Cascudo: Contos tradicionais do Brasil (1946) e também Trinta “estórias” brasileiras (1955), denominação adotada por Altimar Pimentel em Estórias de Luiza Teresa, para as mais de duzentas narrativas recolhidas na Paraíba da mesma narradora. A série editada pela Fundação Joaquim Nabuco, abrangendo diversos Estados, denomina-se: Contos populares brasileiros/Pernambuco, Paraíba, Bahia, Ceará (*1).
 
Não obstante essa variedade de denominação, alguns contos fixaram nomes que vieram no bojo da cultura portuguesa: João e Maria, Gata Borralheira, Branca de Neve, Moura torta, Brancaflor, A madrasta, Gato de Botas, Malasartes, etc. E esses contos permanecem em nosso imaginário, ouvidos na infância, e que vão sendo transmitidos de geração a geração.
 
Durante muito tempo, considerado apenas como objeto de divertimento infantil, através da narração das avós e babás, o conto popular, desde o século XIX vem despertando grande interesse dos estudiosos. Ultrapassando a área do folclore, o conto tem sido tema de estudo de várias disciplinas: psicologia, história, linguística, semiótica, etnologia, antropologia, psicanálise, crítica literária, estética. Objeto semiótico, ele gera um leque de interesse tanto com texto – um produto literário em si mesmo, em sua organização estrutural e semântica – quando um campo de estudo dos sistemas culturais, tornando-se um espaço privilegiado para abordagens interdisciplinares.
 
A situação narrativa constitui-se do narrador, do texto, – segundo a performance individual –, do contexto e da audiência. Entre ambos – narrador e audiência – estabelece-se um fluxo de comunicação mediante e emissão e descodificação na mensagem. A comunidade possui o mesmo código lingüístico, muitas vezes desconhecido de participantes estranhos ou fora do contexto. Por isso, algumas coletâneas incluem notas explicativas ou mesmo pequenos glossários.
 
O narrador, despido do anonimato e da suposta passividade na transmissão das estórias, tornou-se personagem importante nos estudos do conto popular. A sua memória e imaginação e a sua gestualidade tão significativa nas sociedades ágrafas – a ponto de imitar animais – compõem a dinâmica do texto oral e inauguraram novas perspectivas de análise para a compreensão ampla da mensagem.
 
O narrador trabalha a matéria tradicional – transformada em obra de arte verbal –, possui um repertório, às vezes amplo, com suas preferências, expressa-se em estilo próprio, elabora metáforas, cria eufemismos e paráfrases, a partir de um mesmo tema – a fábula – que circula desde milênios nas diversas culturas.
 
Conto encontrado num papiro no Egito – Os dois irmãos (AT 303) (*2) do século XIII a.C.; Polifemo (AT 1137) narrado por Homero, na Odisséia (século IX a.C.); Rampsinitus (AT 959), incluíndo por Heródoto em sua História (século V a.C.) , ocorrem no Brasil e nossas característica culturais estão expressas sob vários aspectos.
 
A figura do narrador tem sido destacada nos estudos sobre o conto popular, não apenas pela sua capacidade de memorização e de reelaboração das narrativas, mas também pela sua presença no texto oral. Desse modo, a sua história de vida tornou-se elemento indispensável nas análises textuais.
 
Aurora Milillo (1983:79), após a recolha de várias narrativas e da história de vida de uma narradora italiana, concluiu que “se pode afirmar, em sentido lato, que toda narrativa folclórica é, de algum modo, autobiográfica, no sentido de que ela, por definição, nasce e se transmite em relação a um dado receptor” Daí o destaque de narradores como Bibi (Luiza Freire) das Trinta “estórias” brasileiras (1955) de Luís da Câmara Cascudo (Rio Grande do Norte); de Luiza Tereza nas Estórias de Luzia Teresa, de Altimar Pimentel (1995-2001, 2 vol. já publicados) e no estudo de Roberto Benjamim e Zaída Costa Cavalcante (1951:257-73) “A história do contador de estórias e a estória dos três conselhos”, do narrador José Amaro (Pernambuco) (NASCIMENTO, 1951).
 
Do mesmo modo, a gestualidade tem merecido atenção especial, pois, através dela, numa situação narrativa, os gestos, a voz e os elementos extralingüísticos compõem um todo dinâmico de impossível reprodução no texto escrito.
 
O contexto cultural imprime seus traços no texto narrativo, através, da linguagem, dos modismos, hábitos alimentares e visão própria do mundo.
 
O narrador, de acordo com o tipo de audiência, durante sua performance, através das repetições, desdobramento de situações, manifesta com plena liberdade sua imaginação criadora. Porém, mantém-se fiel à fábula e tem consciência da importância da preservação do modelo aprendido. Ele é coautor de um modelo que é transmitido de geração em geração. Como diz Max Lüthi (1987:75), o homo narrans, na realidade, não é apenas o homo conservans, mas também o homo ludens.
 
A audiência completa a situação narrativa pela sua participação nos diversos contextos. O interesse da audiência manifestado por várias maneiras – aprovação ou risos, intervenções, correções, enfado – estimula e influi na performance do narrador, que pode ampliar o texto com repetição das seqüências ou redução do tempo narrativo. Nessas intervenções e correções da audiência, subjaz a preocupação de preservação do modelo conhecido.
 
* * *
A leitura do conto a seguir, na versão portuguesa de Adolfo Coelho (1882) e na brasileira de Câmara Cascudo (1955), revela o trabalho criativo dos narradores, apresentando a mesma estória através de dois textos estruturados em campos semânticos diferentes, com a preservação da fábula, apesar de suas variantes culturais. A invariante fabular está no próprio título da versão portuguesa:
 
 
Adolfo Coelho:
 
FILHO ÉS, PAI SERÁS; ASSIM COMO FIZERES, ASSIM ACHARÁS

Em tempos que já lá vão, era costume nalgumas terras levarem os filhos os pais velhos, que já não podiam trabalhar para um monte e deixarem-nos lá morrer à míngua. Ora uma vez um rapaz, seguindo aquele costume, levou o pai às costas, pô-lo no monte e deu-lhe uma manta para ele se resguardar do frio até morrer. O velho disse para o filho: 

Trazes uma faca?
–Trago, sim senhor; para que a quere?
Olha, corta ao meio a manta que me dás e leva metade para te embrulhares quando o teu filho te trouxer para aqui. 
O rapaz considerou; tomou outra vez o pai às costas e voltou com ele para casa. 
Assim acabou aquele maldito costume. 

    

Câmara Cascudo:
 
O EXEMPLO DO PAI...

Um homem muito trabalhador enviuvou e ficou com um filho. Viveu daí em diante para educar o menino e criá-lo bem. O menino cresceu e como era vividor e activo prosperou e fez-se homem enriquecendo. O pai estava muito velho e doente, abandonado, numa casinha. O filho comprou um palacete e casou com uma moça rica, passando a ter estadão de fidalgo. 
Lembrou-se que seu pai tudo fizera por ele e mandou buscá-lo para sua casa. Colocou-o num quarto e comia com ele. O velho, tremendo pela muita idade e doença, derramava vinho na mesa, sujava a toalha com a comida e isto aborrecia muito a mulher e o marido, que mandaram o velho comer numa mesa separada e bem longe deles. Como o velhinho quebrasse, pela mão tremendo e falta de vista, um prato, deram louça de barro, mal feita e feia porque era barata. 
O casal tinha um filho muito inteligente e que gostava muito do avô. Notou o que faziam com o pobre velho, mas não podia dar remédio. 
Numa tarde o casal estava passeando no jardim quando encontrou o filho todo enlambuzado de barro, sentado no chão, ocupado e entretido num serviço.
 
Que você está fazendo, meu filho?
– Estou fazendo um prato de barro, bem grande...
Para que esse prato de barro?
– Para papai e mamãe comerem, quando forem velhinhos como vovô...

O marido e a mulher olharam um para o outro, acanhados e arrependidos do procedimento com o velho. Foram logo buscá-lo, agradando-o muito, mudando-o para um bom quarto e daí em diante trataram-no com toda paciência e cuidado. 


Notas: 

*1 Resultante do Projeto luso-brasileiro “Conto Popular e Tradição Oral noMundo de Língua Portuguesa”. Publicados 4 volumes, com Prefácio de Fernando de Mello Freyre e  Introdução e  classificação de Braulio  do Nascimento: Pernambuco: coord. Roberto Benjamim (1984); Paraíba: coord. Osvaldo Meira Trigueiro e Altimar de Alencar Pimentel (1996); Bahia: coord. Doralice F. Xavier Alcoforado e Maria del Rosário Suárez Albán (2001) e; Ceará: coord. Francisco Assis de Sousa Lima (2003).

*2 AT: Abreviatura de Aarne-Tompson: Antti Aarne e Stith Thompson – 
The types of the folktale, Helsinki, Academia Scientiarum Fennica, 1961.Classificação tipológica usada internacionalmente. 
 
 
Recife, 2006.
Adaptado e incluído em 18 de outubro de 2019. 



FONTES CONSULTADAS:
 
 

CATÁLOGO do conto popular brasileiro. Rio de Janeiro: IBECC/UNESCO, 2005.
 
CASCUDO, Luís da Câmara. Trinta “estórias” brasileiras. Porto: Portucalense, 1955.
 
COELHO, Adolfo. Contos nacionais. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz, 1882.
 
CONTOS e lendas dos Irmãos Grimm. São Paulo, 1962, 8v. Tradução de Iside M. Bonini.
 
JOLLES, André. Formas simples (1930). São Paulo: Cultrix, 1976. Tradução de Álvaro Cabral.
 
LÜTHI, Max. The fairy tale as art form and portrait of man. Boomington: Indiana University Press, 1987.
 
NASCIMENTO, Braulio do. O conto popular: o narrador e sua classificação. In: Anais do IX Congresso Brasileiro de Folclore. Goiânia, 31 agos.-3 de setembro, 2004.
 
________ (Coord.) Estudos de folclore em homenagem a Manuel Diégues Júnior. Rio de Janeiro: Comissão Nacional de Folclore; Maceió: Instituto Arnon de Mello, 1951.
 
PROVÉRBIO [Foto neste texto]. Disponível em: <http://proverbiosprovados.blogspot.com/2019/03/>. Acesso em: 18 out. 2019.
 
THOMPSON, Stith. The folktale. New York: The Dryden Press, 1946.
 
LA VITA e il suo racconto. Roma: Casa del Libro, 1983.
 
 
 

COMO CITAR ESTE TEXTO:
 
 

Fonte: NASCIMENTO, Braulio do. O conto popular: situação narrativa. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php>. Acesso em: dia mês ano. Ex.: 6 ago. 2009.
 

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