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Octávio de Freitas

Semira Adler Vainsencher

Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

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José Octávio de Freitas (mais conhecido como Octávio de Freitas) nasceu em Teresina, no Estado do Piauí, no dia 24 de fevereiro de 1871, mas veio ainda criança morar no Recife. Seus pais eram José Manoel de Freitas, um desembargador que exercia o cargo de Presidente da Província do Maranhão, e Thereza Carolina da Silva. Oriundo de uma família numerosa, Otávio foi o oitavo filho de uma prole de onze.

 

Sempre muito estudioso, além do latim ele aprendeu bem as línguas inglesa e francesa. E, na puberdade, já havia tido contato com letras de forma e tintas de jornal, bem como iniciado um trabalho em artes gráficas, como menor aprendiz, na tipografia que editava o jornal O País. A partir daí, Octávio não se afastou mais do contato com as letras. Estudou em Teresina, São Luís, Recife, Bahia e Rio de Janeiro. Na maioria das vezes, essa peregrinação ocorreu por conta das freqüentes transferências do seu pai, visando cumprir as funções delegadas pela Corte Imperial.

 

Depois de concluir o curso preparatório, aos 16 anos de idade, Octávio foi estudar na Faculdade de Medicina da Bahia. Lá, desenvolveu atividades literárias extra-classe e tornou-se redator da Gazeta Acadêmica da Bahia. Ao voltar de férias para a capital pernambucana, fundou o periódico Java, dos estudantes da Faculdade de Direito do Recife.

 

Vale ressaltar que, na Bahia, Octávio passaria somente um ano. O motivo? Sua reprovação na disciplina de Física. Entristecido com o fato, ele decidiu se transferir para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Neste sentido, contou com o aval da família e com o apoio do Dr. Fábio Baymam, um amigo que o acolheu naquela cidade.

 

Após a mudança, porém, Octávio teve que retornar ao Recife porque seu pai estava se ultimando. Quando ele faleceu, o jovem acadêmico sofreu bastante, uma vez que crescera admirando sua dignidade e caráter, bem como honradez na condução da coisa pública. Dona Thereza Carolina, felizmente, conseguiu administrar sozinha a vida familiar: educou todos os filhos, bem como os cinco netos que estavam sob a sua guarda.

 

Quando Octávio se formou em Medicina, em janeiro de 1893, decidiu vir morar no Recife. E, a partir daí, sua vida profissional não parou de brilhar. Em 1902, por exemplo, quando a gripe espanhola atingiu o Recife, por via marítima, ele conseguiu isolar o bacilo causador dessa epidemia. Além disso, combateu a comercialização de produtos deteriorados, a falta de fiscalização nos matadouros, a precária rede de esgotos, enfim, tudo o que significasse atraso, moléstia, e pudesse ocasionar a morte.

 

Como sua preocupação maior era a de prevenir, Dr. Octávio sempre ensinava a população a lidar com problemas médico-sanitários, alimentares e ambientais, alertando, inclusive, para o desequilíbrio ecológico que o derrame indiscriminado das caldas das usinas vinha causando aos rios.

 

Cabe registrar que, por iniciativa própria, o incansável pesquisador fez um importante levantamento dos dados populacionais de 1856 a 1904, relativos aos nascimentos e óbitos da cidade. Na época, é bom lembrar, a expectativa média de vida no Recife era de, apenas, 31 anos.

 

Atuando sempre contra o mal, fosse este uma epidemia, privilégios de classe ou discriminação racial, Dr. Octávio nomeou um médico negro de grande popularidade - o Dr. Vicente Gomes -, para atuar junto às camadas mais carentes da população, levando-as à vacinação em massa. E, no início doséculo XX, quando uma epidemia de peste bubônica assolou Recife, o combativo médico conseguiu, pela primeira vez, efetuar o diagnóstico daquela doença, obedecendo à técnica mais rigorosa que havia. Quando essa epidemia atingiu o Estado da Paraíba, o Governador de lá mandou buscá-lo para ajudar a população a combatê-la.

 

Em se tratando de vida pessoal, vale salientar que ele casou com Maria Cristina Antunes de Almeida Castro e tiveram dois filhos: Miguel e Octávio, nascidos em 1902 e 1903, respectivamente. Uma fatalidade, contudo, veio abalar seriamente a felicidade do casal: em 1909, ambos morreram no mesmo dia, vítimas de febre amarela.

 

Apesar do ocorrido, o Dr. Octávio de Freitas continuou trabalhando e produzindo mais do que nunca, chegando a convencer os professores da Faculdade de Farmácia (local onde lecionava) a formar médicos em Pernambuco. Em 1914, reunida a Congregação dessa Faculdade - além dele, os médicos Martins Costa, Ascânio Peixoto e Soares Avelar - ficou decidida, por unanimidade, a criação de uma escola de Medicina.

 

Este grande sonho se concretizou, finalmente, no dia 16 de julho de 1920, quando a Faculdade de Medicina do Recife foi fundada. Na ocasião, o Dr. Octávio ministrou a aula inaugural para a 1a. Turma do Curso Médico, analisando as responsabilidades e os deveres dos médicos perante a sociedade. Cabe registrar que, de 1920 a 1927, a Faculdade de Medicina funcionou na antiga rua do Sebo, no bairro da Boa Vista, chamada, hoje, de rua Barão de São Borja.

 

Também em 1920, viria uma imensa alegria: o nascimento do seu terceiro filho, José Octávio de Freitas Júnior, que, como ele, seguiu a carreira de médico.

 

O Dr. Octávio de Freitas foi médico sanitarista, administrador de saúde pública, escritor, jornalista e pesquisador. E, nas aulas que deu, ele sempre privilegiou os temas relacionados à higiene social, à profilaxia e à assistência pública. Pioneiro em Pernambuco no combate à tuberculose, também liderou campanhas de vacinação em massa, lutou em prol da higienização das cidades, e estudou várias doenças, tais como: varíola, tuberculose, coqueluche, escarlatina, malária, desinteria bacilar ou amebiana, febre íctero-hemorrágica, granuloma venéreo, leishmaniose, beribéri, sarampo, peste bubônica, febre tifóide, hanseníase e sífilis.

 

Apaixonado pelo sentimento de justiça, ele foi, ainda, um grande entusiasta do abolicionismo, tendo participado de comícios liderados por Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e José Mariano. Por sua vez, participou de passeatas e desenvolveu campanhas em prol da abolição da escravatura e da implantação de um regime republicano. Naquela época, fundou o Centro Republicano da Faculdade de Medicina, para servir de cenário aos debates políticos. Sobre alguns aspectos de sua vida pessoal e profissional, em 1933, um grupo de médicos tomou a iniciativa de escrever e publicar o livro Octávio de Freitas, um homem à frente do seu tempo.

 

É importante registrar que o Dr. Octávio de Freitas escreveu e publicou várias obras relevantes, a exemplo de Lições de microbiologiaHoras de trabalhoMeus doentes meus clientesProblemas médicosDoenças africanas no BrasilMedicina e costumes do Recife antigoDe calouro a médico; Os animais na história e na higieneMedicina e costumes do Recife AntigoClima e mortalidadeHistórico da luta anti-tuberculose em PernambucoLepra, leprosos e leprosáriosPoeiras; Dietas e remédiosServindo ao Rotary;Médicos, outras figuras e fatos do meu tempoMinhas memórias de médico;História da Faculdade de Medicina do RecifeAnuário estatístico demógrafo-sanitário de tuberculose no Derby;e O dispensário de tuberculose no Derby. 

 

O Dr. José Octávio de Freitas veio a falecer no Recife, sua terra de adoção, no dia 26 de janeiro de 1949, aos 78 anos de idade.

 

Em sua homenagem, presentemente, existem, entre outros, uma rua, com o seu nome, próxima ao Hospital Osvaldo Cruz; um busto, nos jardins que circundam o Centro de Ciências da Saúde, no Campus da Universidade Federal de Pernambuco; e um grande hospital (o antigo Sanatório do Sancho), destinado ao tratamento de tuberculosos, hoje chamado Hospital Geral Octávio de Freitas.  Por sua vez, o nome da Liga Pernambucana Contra a Tuberculose também mudou para Centro Médico Octávio de Freitas. O ilustre médico foi escolhido, ainda, como patrono do auditório da Sociedade de Medicina de Pernambuco.

 

Como se pode observar, as gerações que o sucederam têm arranjado, sempre, um meio de enaltecer o humanismo e pioneirismo daquele médico brilhante do Nordeste do Brasil. Sem sombra de dúvida, o Dr. José Octávio de Freitas foi, além de um memorável médico sanitarista pernambucano e um grande revolucionário do bem comum.

 

 

 

Recife, 28 de julho de 2005.

(Texto atualizado em 19 de março de 2008).

 

 

 

 

FONTES CONSULTADAS:

 

 

 

MIRANDA, Waldemir. Vida médica em Pernambuco; scientia et caritas. Recife: Sociedade de Medicina de Pernambuco, 1974.

 

MEDICINA. Disponível em: <http://www.ufpe.br/ccs/medicina.htm>. Acesso em :6 jul. 2005.

 

TÁVORA, José Geraldo. A história de Octávio de Freitas. Disponível em: <http://www.cemof.com.br/paginas/historia.htm>.  Acesso em: 11 jul. 2005.

 

TÁVORA, José Geraldo (Org.). Octávio de Freitas: um homem à frente do seu tempo. Recife: Editora Octávio de Freitas, 1993.

 

 

 

 

COMO CITAR ESTE TEXTO:

 

 

 

Fonte: VAINSENCHER, Semira Adler. Octávio de Freitas. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009

 

 

 

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