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Ano Novo

Virgília Peixoto
Centro de Estudos Folclóricos/Fundaj
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Esperando o Ano Novo

"Ano Velho
Nunca mais veremos.
Ano novo,
Logo receberemos.
[...]
Vê, vê o que nos
fez o bondoso Deus."

Uma canção que começa assim marcou as festas de um fim de ano de minha casa. Havia um misto de dor, tristeza e alegria. À meia-noite, quando os anjos sobem aos céus para louvar a Deus, todos os familiares estavam juntos, para receber o Ano Novo, sempre representado por uma criança recém-nascida e o Ano Velho, por um velhinho com feições suaves. É impossível salientar, em tão pequeno espaço, a riqueza de manifestações culturais referentes à passagem do Ano Novo. Variam de uma cultura a outra, mas sabe-se que sua comemoração é universal. As diversas civilizações conheceram diferentes calendários. Com a adoção do calendário gregoriano, o 1º de janeiro passou a ser reconhecido universalmente, não sem dificuldades, como no caso do sistema decimal. É evidente que o tempo é o grande homenageado.

O velho deus CHRONOS.Mais que o simbolismo geral de Saturno, nos referimos aqui às imagens do tempo, derivadas dos Orientais, tão freqüentes, no Baixo Império Romano. Em algumas representações aparecem com quatro asas, duas estendidas como se estivessem a voar e duas presas como se permanecessem quietas, aludindo, assim, ao dualismo do tempo como transcurso e como êxtase.

Também se lhe atribuem quatro olhos, dois na frente e dois atrás, símbolo de simultaneidade e do presente entre o passado e o futuro, sentido que possuem também os rostos de Jano. Mais característico é o CHRONOS mitraico, deificação do tempo infinito, que deriva do Zervan Akarena dos persas. Sua figura é humana e rígida, às vezes bisómata (cabeça de leon). Quando tem cabeça humana, a testa de leão aparece situada sobre o peito.
O corpo da efígie aparece envolto nas cinco voltas de uma enorme serpente (de novo o sentimento dual do tempo: o transcurso enroscado à eternidade), que , segundo Macróbio, representa o curso do Deus na elíptica do tempo. O leão, em geral, é associado aos cultos solares e o emblema do tempo enquanto representa sua destruição e a devoração (CIRLOT, 1968).  E, neste simbolismo do Deus CHRONOS, os rituais do Ano Novo se revestem, na época atual, de uma magia e encantos comemorativos da sua chegada.

A magia e ritual envolvem aspectos culturais que vão desde a mesa, com suas comidas especiais, às vestimentas, à casa, ao espírito de paz e alegria, finalmente, à situação financeira. Comecemos pela mesa. Antes da meia-noite do dia 31 de dezembro, a dona da casa tem que pegar doze uvas tipo moscatel e dividi-las entre doze pessoas da família. Quando o relógio marcar meia-noite, as doze pessoas reunidas farão um pedido a Jesus Cristo e seus doze apóstolos: "Que assim como o ano tem doze meses, que durante o ano de 1990 não nos falte saúde, prosperidade, paz e dinheiro".
Logo que as doze pessoas fizerem o pedido, deverão mastigar a uva e guardar os caroços na carteira, no bolso ou na bolsa durante todo o próximo ano. Na antiga Grécia, "os comerciantes celebravam festas em honra ao deus Mercúrio no dia 15 de maio e lhe ofereciam, para o sacrifício, uma porca prenhe, rogando ao mesmo proteção aos seus negócios e perdão de suas velhacarias".(CÉSAR, GETÚLIO, 1975). 
Talvez exista alguma raiz deste ritual num costume muito conhecido do povo pernambucano, provavelmente, do brasileiro em geral, que é comer carne de porco no dia do Ano Novo. Segundo o povo, o porco é um animal que fuça a comida empurrando-a pra frente, significando que dá boa sorte, porque bota pra frente. Ao mesmo tempo o povo não come bode e galinha porque dão azar, não chamam dinheiro. Quanto ao bode, as superstições continuam até depois de morto, de vez que não é bom ter couro de bode em casa, pois dá bastante azar. 

 

 

COMIDINHAS QUE DÃO SORTE:


LENTILHASuma colher de sopa é suficiente para assegurar um ano inteiro de muita fatura à mesa. A origem desta superstição é italiana e foi trazida para o Brasil pelos imigrantes.

ROMÃS: 
para atrair dinheiro, coma sete partes, guardando as sementes na carteira.

BAGOS DE UVA:
 para os portugueses, comer 3, 7 ou a quantidade correspondente ao seu número de sorte garante prosperidade e fartura de alimentos. Para garantir também dinheiro, guarde as sementes na carteira ou na bolsa, até o próximo Ano-Novo.

CARNE DE PORCO
: deve ser o prato principal da ceia, servida à meia-noite. Como o porco fuça pra frente, garante armários cheios o ano todo. Evite o peru, que cisca para trás.

NOZES, AVELÃS, CASTANHAS E TÂMARAS
: estas, trazidas para cá pelos imigrantes de origem árabe, são recomendadas para garantir fartura (CRUZ, 89).

A MODA MUDA PRA DAR SORTE:

CALCINHA OU CUECA NOVAS: Dão sorte no amor, porque deixam os mal-entendidos para trás. São recomendadas principalmente para quem está começando namoro, para garantir o futuro.

ROUPA BRANCA
: é um hábito relativamente recente, trazido para o Brasil com a popularização das religiões africanas. O branco representa luz, pureza, bondade.

QUALQUER PEÇA AMARELA
: pode ser uma peça íntima, um lenço, uma faixa ou um pequeno lacinho amarelo (que deve ficar sempre na sua bolsa). O amarelo representa o poder do ouro e, dizem, atrai dinheiro.

UMA NOTA DE DINHEIRO DENTRO DO SAPATO
: os orientais dizem que a energia entra no nosso corpo pelos pés. Vai daí, o dinheiro no sapato atrai mais e mais riquezas.

LENÇÓIS NOVOS: a dica é especial para recém-casados. Dizem que os lençóis novos, na primeira noite de ano, deixam as possíveis ameaças do ano passado na máquina de lavar (CRUZ, 89).

OS CUIDADOS COM A CASA:

A dona de casa deverá limpar a casa, varrendo-a de trás para frente, deixar o lixo fora segundo alguns; outros, mandam jogar no mar (poluindo a santa natureza). As vassouras devem ser queimadas e as cinzas enterradas. Nada quebrado deve ser deixado na casa (jarros de planta, garrafas, copos, pratos e espelhos). Lavar os batentes da casa com sal grosso e água, ou água do mar. Borrifar a casa com água-benta nos quatro cantos. O bom mesmo é pintar toda a casa, colocar lâmpadas novas (não deixar lâmpadas queimadas). Verificar se os sapatos estão desemborcados e se as roupas não estão pelo avesso. E as flores da casa devem ser amarelas para chamar ouro. Tudo isso para atrair a boa sorte, os bons fluidos no Ano Novo que vai chegar.
 

À MEIA NOITE, DEPOIS DOS ABRAÇOS, HÁ MUITO O QUE FAZER:
 

PULAR SÓ COM O PÉ DIREITO: Você estará atraindo boas coisas para a sua vida, pois, segundo a Bíblia, tudo que está à direita é bom. 

JOGAR MOEDAS:
da rua para dentro de casa (se você mora no térreo, por favor). Dizem que atrai riqueza para todos que moram no lugar. 

DAR TRÊS PULINHOS:
 com uma taça de champanhe na mão, sem derramar uma gota. Depois, jogar todo o champanhe para trás, de uma vez só, sem olhar. Você deixa para trás tudo de ruim. E não se preocupe em molhar os outros: quem for atingido pelo champanhe terá sorte garantida o ano todo. 

SUBIR NUM DEGRAU: 
numa cadeira, enfim, em qualquer coisa num nível mais alto. Diz o folclore que isso dá impulso à sua vontade de subir na vida. Comece, é claro, com o pé direito. 

FAZER BARULHO: 
é uma forma de afugentar os maus espíritos que os povos antigos praticavam. Vale apito, batucada, bater panelas, desde que seja exatamente à meia-noite. Dizem que não há mal que resista. 

ACENDER VELAS NA PRAIA:  
 

ou jogar rosas nos espelhos de água, em intenção de Iemanjá. A deusa africana protege seus fiéis, com saúde, amor e dinheiro o ano todo (CRUZ,89).
  As portas e janelas das casas devem estar abertas, as luzes acesas. Ainda é de bom agouro ficar acordado. Há ainda o belo costume de receber o Ano Novo com fogos de artifícios, sinos tocando e muita música, tudo à meia-noite. Enfim os desejos, pedidos, simpatias e sonhos sonhados. 

PARA TER SAÚDE E DINHEIRO O ANO TODO:
 

Para começar o ano "com o pé direito", temos de estabelecer um elo entre nossa vontade e as altas forças cósmicas que governam o universo. Uma forma de ter paz o ano todo, conservar a saúde boa, aumentar o dinheiro e preservar a harmonia no lar é garantida pela simpatia das três rosas brancas.
 Tomamos três rosas brancas, de brancura indiscutível, e as colocamos em um vaso branco ou de vidro transparente - que nunca tenha sido usado antes. Juntamos dentro dele seis moedas e uma cebolinha. Colocamos água e deixamos ficar assim durante sete dias. Depois dos sete dias, trocamos a água, tiramos a cebolinha e também trocamos as rosas. Só deixamos ficar as moedas. Essa prática deve ser feita de sete em sete dias, de preferência nas sextas-feiras, o ano todo. Quem assim agir terá paz, dinheiro, saúde e harmonia em seu lar. 

PARA TER DINHEIRO POR UM ANO INTEIRO:

Com dinheiro não se encontra a felicidade, mas, por outro lado, sem o dinheiro não podemos sobreviver e terminamos por encontrar a infelicidade. Às vezes passamos por situações difíceis que nos podem levar a ficar sem o vil metal. A saída de um emprego, o final de um negócio, uma doença em família, são fatos que empobrecem aqueles que já não têm muito.
 Para ter dinheiro o ano inteiro você pode fazer a chamada Simpatia dos Pequenos Animais. Pegue 21 moedas de pequeno valor. Procure no mato um formigueiro ativo, ou seja, um formigueiro que tenha formigas indo e vindo. Descubra de onde as formigas estão tirando as coisas que levam para o formigueiro. A partir deste ponto coloque as 21 moedas até a entrada do formigueiro. 

PARA NUNCA FALTAR DINHEIRO:

Dona Conceição Tavares, mulher tida como meio santa, curandeira, benzedeira e rezadeira, que viveu lá pelos lados do Sudoeste de São Paulo, costumava ensinar esta simpatia para quem quisesse sempre ter fartura de comida, mas, principalmente, muito dinheiro na algibeira: a
 pessoa compra um lenço e, na noite de 31 de dezembro, exatamente na hora da passagem do Ano Novo, molha-o, colocando-o posteriormente para secar. Depois o recolhe antes de o sol nascer. Amarra dentro do lenço alguns níqueis e só vai abrir o embrulho na meia-noite do próximo 31 de dezembro. Daí para frente, nunca mais há de faltar dinheiro ao praticante. 

SIMPATIAS PARA FAZER NA PASSAGEM DO ANO:

Use, durante a passagem de ano, uma peça de roupa cor-de-rosa, uma outra azul e, ainda uma amarela.
 Coloque dentro da meia, no pé direito, uma nota do maior valor que você puder. Quando der meia-noite, sente-se numa cadeira e levante o pé direito. Permaneça com o pé levantado, e, com o esquerdo bata três vezes no chão. Desça, em seguida, o pé direito. Coma, depois, trinta e um grãos de uma mesma espiga de milho verde, oferecendo cada um deles para cada dia do mês. Assim, durante todo o ano, não lhe faltará o pão de cada dia. 

TENHA FARTURA DURANTE O ANO INTEIRO:

Para fazer essa simpatia é necessário que você planeje tudo anteriormente.
 Na hora da passagem do ano, deve estar fora de casa, comemorando em outro lugar, com amigos ou parentes. Antes de sair, por volta das vinte e duas horas, arrume a mesa da casa para uma ceia com tudo que vamos pedir-lhe, mas não esqueça de forrá-la com uma toalha branca bem limpa. Coloque sobre a mesa sete tijelinhas. Atenção no número, pois este deve ser sempre ímpar. Cada uma das tijelinhas deve conter, respectivamente, sal, açúcar, lentilha cozida, feijão branco cozido, pipoca, balas, doces variados e farinha de trigo. Coloque também sobre a mesa três copos de um suco qualquer, adoçado. Verifique se está tudo correto e saia de casa em seguida. Quando voltar, depois da meia-noite, apanhe um punhadinho de cada tigelinha, colocando todos num saquinho qualquer. Pegue, também, os três copos de suco, que podem ser copos de papel. No dia seguinte, bem cedo, leve tudo para um jardim muito bonito e deixe lá. O que sobrou nas tigelinhas, você usa normalmente para fazer comida. No último dia do ano, à meia-noite, quem tiver coragem de ir a uma encruzilhada e chamar um Exu, entregando-lhe treze moedinhas, simultaneamente, ao acender uma maço de velas vermelhas e outro de velas pretas, ganhará muito dinheiro em negócios o ano inteiro. Este ritual de Candomblé é realizado por muitas pessoas em Fernandenópoles (SP) (Rossato). O popular São Benedito é facilmente encontrado em muitos lares, sobretudo na zona rural; e em forma de quadro ou imagem é sempre posto nos dormitórios ou na cozinha, pois é hábito colocar moedas numa pequena cumbuca situada aos pés do santo. Às véspera do Ano Novo, esse dinheiro coletado é recolhido para ser dado a um asilo, ou a uma igreja ou ainda para se comprar algo para os pobres. Segundo a crença popular, este ato dá sorte a quem colaborar e traz saúde para a família dona do quadro ou da imagem do padroeiro das cozinheiras e dos escravos. 

SUPERSTIÇÕES:
 

Não é bom passar o Ano Novo com os bolsos vazios.
 Comer doze uvas verdes, à meia-noite do Ano Novo, para ter dinheiro em todos os meses do ano, também é bom. Guardar em lugar seguro, para ninguém achar, a tampa da garrafa de "champangne" usada na festa de Ano Novo, que tenha feito muito barulho, chama dinheiro. Defumar a casa, no fim do Ano e véspera do Ano Novo, com um defumador feito com carvão, xerém e açúcar, além de chamar a sorte e dinheiro, tira, também, o azar do ano velho. No dia de Reis (6 de janeiro), colocar três caroços de romã dentro da carteira, para ter dinheiro durante todo o ano. 

CONCLUSÃO:
 

Em Nova Iorque
, o relógio de Times Square anuncia a hora dos abraços e gritos. Em Londres, são as badaladas do Big-Ben. Em Paris, fogos de artifícios, na Torre Eiffel. No Rio, os adeptos de Iemanjá jogam flores no mar. Em São Paulo, os corredores da maratona saúdam o novo campeão. É meia-noite no mundo, noite de 31 de dezembro. E, respeitadas as diferenças de fuso horário, promessas são feitas, desejos pensados, mal-entendidos superados. Momento mágico em que queremos acreditar que a mudança da folhinha no calendário pode dar um novo sentido à nossa vida. Aos nossos sonhos. Se as superstições dão resultados ou não, não importa. A gente quer mais é começar o ano com o pé direito e, por pé direito, entenda-se muita festa e alegria. Mesa farta, música, amigos e parentes por perto, cada um de nós faz pequenas "mágicas" para garantir que o ano seja perfeito. Mas qual a explicação para tudo ISSO? Será que existe alguma origem para se acreditar na superstição? (TAVANO,89). Finalmente, o Reveillon - (Acordar) - Pobres e ricos confraternizando a chegada do Ano Novo. Oferendas a Iemanjá são feitas em grande parte do litoral brasileiro. Como este costume, há também a simpatia das águas. Se você mora perto das águas, leve rosas brancas, perfume e muita moeda, jogando tudo com muita fé nas águas do mar. Nem tudo foi dito, mas, um pouquinho foi. O certo é esperar pelo banho de champanhe, ou banho de mar e acordar para o Ano Novo. Em tempo de festa, não há crise, "pode me faltar tudo na vida, /arroz, feijão e pão,/ pode me faltar o amor/... só não quero que me falte a danada da cachaça". Eis o retrato da festa. Quando não há champanhe, vinho, uísque, tem sempre a boa e brasileiríssima cachaça. 

Recife, 1 de julho de 2003.
(Texto atualizado em 9 de novembro de 2007).
(Texto atualizado em 7 de outubro de 2016).


FOTO nesse texto. Disponível em: <http://www.magiazen.com.br/palavra-chave/ano-novo>. Acesso em: 7 out. 2016.


COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: PEIXOTO, Virgília. Ano Novo. Pesquisa Escolar On-line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: 
<http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 

 
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