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Culinária do Norte do Brasil

Semira Adler Vainsencher

Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

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No Norte do Brasil, muito antes do Descobrimento, os índios já se alimentavam de caça, peixe, raízes, sementes, folhas e frutos oriundos dos rios e matas locais. A gastronomia da Região, no entanto, apesar de ter sofrido uma forte influência portuguesa e africana, ao longo dos séculos, ainda se baseia na cultura indígena. Essa miscigenação não gerou somente danças, lendas,superstições, folguedos e demais manifestações culturais. A mistura racial deu margem ao uso de novos ingredientes, temperos, cheiros, sabores, segredos e modos de cozinhar bem distintos dos habituais, originando uma culinária bastante exótica.

Tanto os índios quanto os negros africanos que vieram como escravos consumiam pimentas em abundância. Os africanos comiam, também, frutos do mar, “galinha de Angola”, e sobras de carnes cozinhadas no feijão (que resultou na famosa feijoada). Tudo isso, com muito azeite de dendê.

Os portugueses, por sua vez, dominavam técnicas de agricultura e de criação de animais. Eles trouxeram galináceos, bovinos, suínos e caprinos, e ensinaram os nativos a cozinhar e conservar os alimentos em sal e açúcar, e a elaborar conservas (carnes e lingüiças salgadas e defumadas), queijos, doces, pudins, bolos, tortas, compotas e licores. Introduziram, inclusive, nos hábitos alimentares, o uso do azeite de oliva.

A despeito de todas as influências externas das demais culturas, os índios deixaram no país uma herança sui generis. Nas casas do Norte não faltam peças de origem indígena: urupema, pilão e vasos ou potes de água (de barro, casca de fruta, madeira ou casco de animal). Um dos pilares da alimentação dos índios continua sendo a mandioca - a maior contribuição indígena à culinária brasileira - com a qual preparam vários pratos, em particular o beiju, uma espécie de tapioca fina, ligada pelo glúten através da ação do calor.

De acordo com Lima (1999), há o “beiju-ticanga, feito com massa de mandioca mole e seca ao sol; o beijuaçu, redondo, feito da mesma massa que obeiju-ticanga, e cozido no forno; o beijucica, feito de massa de macaxeira, em grumos finos... O caribe é o beijuaçu posto de molho e reduzido a uma massa, a que se acrescenta mais água, morna ou fria, formando uma espécie de mingau, mais ou menos ralo, que se toma com água morna de manhã e com água fria, no jantar; o curadá, que é o beiju grande, espesso, feito de tapioca umedecida, de grumos maiores que o enrolado e levando castanha crua em pequenos fragmentos.” Segundo a pesquisadora, “faz-se ainda, de mandioca, uma comida indígena chamada macapatá: um bolo feito de massa de mandioca mole que, depois de espremida no tipiti, é amassada com banha de tartaruga e com pedaços de castanha crua, é espalmada em pequenas porções alongadas, envolvidas em folhas de bananeira, para serem assadas em rescaldo”.

Além do uso da mandioca, os indígenas cultivam e usam, também, em sua alimentação o milho e o aipim, extraem o palmito das palmeiras, pescam em rios e igarapés, e caçam nas matas.Eles também produzem quya (pimentas secas ou piladas com farinha de mandioca), cauim (bebida fermentada feita com o caju, que é alucinógena), e consomem vários alimentos como o turu, um verme que vive dentro das raízes, nos mangues, e que podem ser considerados repugnantes para alguns e exóticos para outros. A ausência de tabus alimentares faz parte de sua estratégia de sobrevivência. Neste sentido, eles são compelidos a comer o que pescam, caçam, coletam ou cultivam.

Vale registrar que, muitas frutas existentes na época do Brasil-Colônia ou foram extintas, ou são, hoje, pouco conhecidas da população. Apenas as pessoas que habitam áreas de matas as conhecem. Por exemplo: guti, caiuia, pajurá, mundururu, bacupari, curuiri, mucujé, umari, amaitim, azamboa, penão, araticum, guapuronga, grumixama, entre outras.  

Com a migração de nordestinos para o Norte, por ocasião do Ciclo da Borracha, surgiram pratos que antes nunca tinham sido consumidos na Região, tais como bode assado, sarapatel de porco, buchada de bode, sarrabulho, pirão de frutos do mar e caldeirada de tucunaré.

No cardápio do Norte é possível se escolher os seguintes pratos: paçoca (peixe ou carne pilada, misturada com farinha de mandioca); piracuí (ou “areia de peixe”), peixe torrado no forno e peneirado; moquém (carne ou peixe assado sobre brasas, embrulhado em folha de bananeira); tanajura frita; arabu (gema de ovo de tartaruga com farinha); abunã (ovo de tartaruga moquecado, antes de completar a gestação); mujanguê (mingau de gema de ovo de tartaruga e farinha de mandioca mole); moqueca de tucunaré; rabada ao tucupi; paxicá (picadinho de fígado de tartaruga, com sal, limão e pimenta malagueta); tambaqui na brasa; pirarucu no leite de castanha-do-pará; surubim na telha; tartarugada e farofa de ovo de tartaruga; juquitaia (condimento preparado à base de pimenta malagueta e sal); mutum e broto de palmeira guisados, com molho de tocari e pimenta do reino; macaco cozido com banana, ou assado no espeto ou no forno; cobra, lagarto e jacaré fritos, assados ou refogados, com bastante pimenta; colibri assado no espeto; rabo de jacaré grelhado; gambá refogado e jacu assado.

No que diz respeito às sobremesas, foi marcante a influência portuguesa que associou o açúcar às frutas da Região - açaí, cupuaçu, guaraná, maná cubiu, piqui, pupunha, murici -, e transformou-as em exóticos sucos, sorvetes, pudins, doces, bolos, mousses e compotas.

Eis algumas receitas do cardápio nortista. Antes, porém, registram-se os molhos tucupi e tacacá, de influência indígena, que são indispensáveis à cozinha regional.

 

Molho de Tucupi

Ingredientes:

3 quilos de mandioca brava,
4 dentes de alho (amassados),
2 maços de chicória,
sal e pimenta de cheiro à gosto


Modo de fazer: Descascar a mandioca, ralar e espremer o seu caldo até extrair um líquido amarelo. Este líquido é o tucupi. Deixar descansar por 12 horas para a goma se separar do tucupi (líquido). Reservar a goma para ser usada, depois, na preparação do tacacá. Em uma panela grande, ferver o tucupi com alho, sal e chicória por 1 ½ hora. Após o cozimento, deixar esfriar e guardar engarrafado.


 

 

Molho de Tacacá

 

Ingredientes:

4 xícaras de água,
½ xícara de goma de mandioca (aquela que saiu do tucupi),
sal, 
500 gramas de camarão (seco e salgado),
5 folhas de chicória,
4 dentes de alho (espremidos),
4 pimentas-de-cheiro,
2 maços de jambu, 
2 litros de tucupi.



Modo de fazer: Colocar o tucupi em uma panela com o alho espremido, o sal, a chicória, as pimentas, e levar ao fogo. Quando ferver, abaixar o fogo, tampar a panela e cozinhar por 30 minutos. À parte, cozinhar o jambu até ficar tenro. Retirar do fogo, escorrer e reservar. Lavar os camarões e levá-los ao fogo em uma panela com 4 xícaras de água. Deixar ferver por 5 minutos. Retirar as cabeças e as cascas. Em outra panela, misturar a goma com a água dos camarões, levar ao fogo e mexer até obter um mingau. Servir em uma cuia, com uma concha de tucupi, um pouco do mingau, algumas folhas de jambu e os camarões. Esse prato é uma espécie de sopa e pode ser acompanhado (ou não) com molho de pimenta de cheiro.

 

 


Pato ao Tucupi

 

Ingredientes: 

1 pato grande,
6 dentes grandes de alho (amassados),
folhas de louro,
1/3 xícara de vinagre,
sal e pimenta a gosto,
1 xícara de óleo,
1 maço de jambu (ou agrião), 
1 litro de molho de tucupi.


Modo de fazer
: Limpe muito bem o pato, fure-o com um garfo e tempere com sal, pimenta, alho, louro e vinagre. Deixe-o na vinha d’alho por algumas horas. Em seguida, derrame o óleo sobre ele e coloque em forno quente. Quando estiver bem assado, trinche o pato e reserve. Ferva o litro de tucupi com os 2 dentes de alho e o maço de jambu (ou agrião) e adicione os pedaços do pato. Deixe cozinhar por 20 minutos em fogo brando. Coloque, em cada prato, 2 colheres de sopa de farinha de mandioca e arroz cozido, arrume por cima alguns pedaços de pato e despeje bastante molho quente. Este molho misturado com a farinha formará uma espécie de pirão.



Caldeirada de Tucunaré

Ingredientes

1 tucunaré de 3 a 4 quilos,
1/2 quilo de batata, 6 ovos cozidos,
½ quilo de tomate,
½ quilo de cebola,
1 maço de cebolinha, 
250 gramas de pimentão verde,
pimenta de cheiro,
1 dúzia de limões,
100 ml de azeite de oliva,
1 maço de chicória (picado),
1 maço de alfavaca (picado),
1 maço de coentro (picado),
1 dente de alho (amassado),
sal a gosto,
1/2 quilo de farinha de uarini,
pimenta murupi,
e ½ quilo de arroz cozido.

 

 

Modo de fazer: Limpe o peixe e corte-o em postas. Em seguida, tempere com alho, sal e limão. Corte a cebola e coloque para dourar no azeite, adicione o tomate, o pimentão (cortado), a pimenta e o sal e refogue tudo.  Junte os temperos verdes cortadinhos (menos o coentro) e o tomate, refogue bem, acrescente água quente e deixe ferver por 5 minutos. Coloque as postas de peixe e cozinhe por mais 5 minutos. Junte as batatas cozidas em rodelas e os ovos cozidos. Retire do fogo e salpique com coentro picado. É servido com arroz branco, farinha de uarini e pimenta murupi.



Tambaqui ao forno


Ingredientes:
1 tambaqui de 2 quilos,
1 quilo de batata,
2 cebolas grandes,
1 pimentão verde,
cheiro verde (coentro e cebolinha picados),
4 dentes de alho (amassados),
sal e pimenta a gosto,
suco de 4 limões,
1 xícara de azeite de oliva,
1/2 quilo de arroz branco cozido.

 

Modo de fazer: Corte o peixe em duas bandas, faça pequenos cortes transversais para que os temperos possam penetrar, tempere com sal, alho e limão, coloque em uma assadeira, polvilhe os temperos verdes e cubra tudo com folha de alumínio. Deixe tomar gosto durante 2 horas. Em seguida, leve ao forno quente por 30 minutos. Cozinhe as batatas (em pedaços grandes) na água e sal, e coloque-as em volta do peixe. Corte as cebolas e o pimentão (em rodelas) e coloque sobre o peixe. Despeje o azeite de oliva e leve novamente ao forno, por mais 30 minutos, até dourar. Sirva com arroz branco.



Pirarucu de Casaca

Ingredientes
:

500 gramas de lombo salgado de pirarucu,
500 ml de leite de coco,
5 bananas maduras (descascadas), 
500 gramas de batatas (descascadas), 
200 gramas de ervilhas (frescas e aferventadas),
4 ovos (cozidos e picados em rodelas finas),
200 ml de azeite de oliva,
300 gramas de tomates (picados em cubos), 
50 gramas de azeitonas verdes (sem caroço),
50 gramas de azeitonas pretas (sem caroço),
200 gramas de cebola (picadinhas),
4 dentes de alho (amassados),
1 maço de cheiro verde (picadinho),
500 gramas de batata palha (já pronta)

e 200 gramas de farinha de mandioca


Modo de fazer: Corte o pirarucu em pedaços, lave bem e deixe de molho por algumas horas, trocando a água várias vezes para retirar o sal. Frite no azeite e retire a pele. Reserve. Corte as batatas em cubos de 2 centímetros, cozinhe e escorra. Em uma frigideira, esquente 4 colheres de azeite e faça um refogado com a cebola e o alho. Depois de dourados, despeje as batatas e mexa sem deixar corar. Adicione as ervilhas, os tomates e, por último, parte do cheiro verde. Faça uma farofa usando o leite de coco, os ovos cozidos, sal, o restante do cheiro verde e o azeite que sobrou. Monte o prato dividindo-o em quatro partes: banana frita, farofa, pirarucu e refogado de batatas. Regue tudo com azeite e sirva.



No cardápio nortista, entre os doces finos, pode-se escolher o delicioso tiramissú. Só que a clássica sobremesa italiana é elaborada com alguns ingredientes regionais, tais como maná cubiu, mascarpone, café, cachaça, e calda de tucupi com jambu. Segundo afirmam as pessoas que comeram tal sobremesa, a combinação desses ingredientes é muito agradável ao paladar.

No tocante às carnes regionais, é importante ressaltar que, aos poucos, a conscientização ecológica vem diminuindo o consumo de alguns pratos antes tradicionais, particularmente aqueles que são preparados à base de ovos de tartarugas, tartarugas, macacos, e certas aves (colibris, jacus, nambus, jacutingas), entre outros.


Recife, 22 de maio de 2009.

(Atualizado em 14 de dezembro de 2016).



FONTES CONSULTADAS:

 

 

 

ARAÚJO, Alceu Maynard. Brasil folclore: histórias, costumes e lendas. São Paulo: Editora Três, 1982.

 

CALDEIRADA de tucunaré. Disponível em: <http://portalamazonia.globo.com/culinaria.php?idReceita=255>. Acesso em: 13 jan. 2009.

 

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 9. ed. Rio de Janeiro: Ediouro Publicações, 1954.

 

CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. 3. ed. São Paulo: Global, 2004.

 

COZINHA amazônica. Disponível em: <goo.gl/Dtnke1>. Acesso em: 15 jan. 2009.

 

CULINÁRIA brasileira. Disponível em: <goo.gl/e14za7>. Acesso em: 13 jan. 2009.

 

HORTA, Carlos Felipe de Melo Marques (Org.). O grande livro do folclore. Belo Horizonte: Leitura, 2000.

 

LIMA, Claudia. Tachos e panelas: historiografia da alimentação brasileira. Recife: Editora da Autora, 1999.

 

MOCAMBOS – culinária africana-indígena e sabores regionais. Disponível em: <goo.gl/jCefsD>. Acesso em: 14 jan. 2009.

 

PATO no tucupi. Disponível em: <http://tudogostoso.uol.com.br/receita/3410-pato-no-tucupi.html>. . Acesso em: 13 jan. 2009.

PUPUNHA [Foto neste texto]. Disponível em: <goo.gl/c2hbSe>. Acesso em: 14 dez. 2016. 

 

RIBEIRO, José. Brasil no folclore. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

 

SOUZA, Osvaldo Martins Furtado de. “Coisas e fatos” de nosso mundo rural. Recife: UFRPE/CODAI/ Associação dos Amigos da Rural, 2000.

 

SOUTO MAIOR, Mário. Alimentação e folclore. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2004.

 

VAINSENCHER, Semira Adler. Pimenta. Disponível em: <goo.gl/rdtAYc>. Acesso em: 15 jan. 2009.

 

______. Culinária brasileira. Disponível em: <goo.gl/rkQoBl>. Acesso em: 15 jan. 2009.

 

______. Mandioca. Disponível em: <goo.gl/EjSzus>. Acesso em: 15 jan. 2009.

 

______. Milho. Disponível em: <goo.gl/JHvZbp> . Acesso em: 21 jan. 2009.

 

 

 

 

 

COMO CITAR ESTE TEXTO:

 

 

Fonte: VAINSENCHER, Semira Adler. Culinária do Norte do Brasil. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em:dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009

 

 

 

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