Home
Açude do Prata, Recife

Lúcia Gaspar
Bibliotecária da Fundação,Joaquim Nabuco
Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.

O Prata, longe, entre bosques
À luz do sol se encobria
E suas sombras suspirando
Selvagem, dúbio corria.
Cívico esforço o destorce
E ei-lo loução se desliza,
Saúda o Prata a cidade
Grato à mão que o civiliza.

(Inscrição em um chafariz instalado, no século XIX, onde fica atualmente a Praça Maciel Pinheiro, no bairro da Boa Vista). 

         Os açudes do Meio e do Prata compõem a bacia do Prata e ficam localizados na Reserva Ecológica de Dois Irmãos, um dos remanescentes da Mata Atlântica, na região metropolitana do Recife. Foram construídos na primeira metade do século XIX, tendo conservado até hoje algumas características originais, principalmente a qualidade da água, considerada adequada para o abastecimento público. Por causa disso, o açude do Prata foi o primeiro manancial escolhido para o abastecimento d’água da cidade.

         A bacia hidráulica do açude do Meio possui aproximadamente 24.000 m2, com um volume aproximado de 53.515m3 e uma profundidade média de 2,10 m, e a do Prata, em torno de 18.550m2, com um volume de cerca de 43.267m3 durante o inverno e 28.658m3 no verão, e com uma profundidade que varia entre 0,15 e 4,40 metros. A água é proveniente de poços artesianos, águas subterrâneas, chuva e percolação a partir das encostas.

         Em 1838, a recém criada Companhia do Beberibe foi contratada para implantar um sistema de abastecimento d’água potável, por meio de chafarizes, cuja captação poderia ser feita no Prata, no açude de Apipucos, no açude do Monteiro ou no rio Beberibe. Em 1941, o projeto dos engenheiros Conrado Jacob Niemeyer e Pedro de Alcântara Bellegarde definiu o açude do Prata como o manancial a ser utilizado para captação, por causa da qualidade da sua água,  garantida pela localização da sua fonte, que fica protegida pela vegetação da Mata de Dois Irmãos. 

         A Companhia adquiriu as terras do Engenho Dois Irmãos, por causa da preocupação com a preservação das matas que protegiam as nascentes do Prata. Atualmente a área é de propriedade da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), que na tentativa de retardar a extinção dos mananciais, já fez uma limpeza nos açudes, retirando o excesso de vegetação subaquática e das suas margens. 

         A denominação do açude, segundo o historiador pernambucano Pereira da Costa, tem origem em uma lenda sobre Branca Dias, uma rica senhora de engenho, que no final do século XVI foi denunciada ao Tribunal do Santo Ofício, na época da Inquisição, por ter praticado crime de judaísmo. Ao receber ordem de prisão, jogou toda a sua baixela de prata na água, daí o nome como ficou conhecido o açude. Branca Dias foi depois queimada na fogueira em Portugal. 

         Nas proximidades do açude há outro patrimônio histórico da área, o Chalé do Prata, um sobrado com uma arquitetura de influência inglesa, com dois pavimentos, dois pequenos terraços laterais, sustentado por pilastras e um piso de madeira que precisa, urgentemente, de restauração, assim como toda a casa. Teria sido a residência de Branca Dias. À direita da casa fica o açude do Prata e na frente o açude do Meio. 

Integrado à paisagem natural, o chalé fica num dos locais mais bucólicos da cidade, hoje visitado por grupos de ciclistas e aficionados de caminhadas e trilhas. Por ser área de preservação ambiental, o acesso ao Vale do Prata sempre foi e continua restrito. 

         Outra lenda histórica do local é conhecida como buraco do holandês, referente a existência de uma passagem secreta, utilizada pelos batavos no século XVII. 

Há ainda lendas sobre desaparecimentos ocorridos no açude, sendo a mais conhecida a de uma moça que foi com sua mucama, no período das festas juninas, pedir às águas do Prata que lhe enviassem um marido. Ao debruçar-se sobre o açude desapareceu. Quando a mucama correu não mais encontrou sua sinhazinha que teria sido levada pelo fantasma de Branca Dias. Muitos falam que nas noites de lua cheia, até hoje, podem ser vistas duas mulheres nuas no meio do açude. Uma seria Branca Dias e a outra a sinhazinha que sumiu na noite de São João. 

         As águas dos açudes da bacia do Prata não apresentam poluição, possuem boa oxigenação e elevada acidez, tendo uma composição microbiota diversificada tanto do ponto de vista da flora como da fauna.   É um dos poucos ecossistemas da região metropolitana do Recife onde as condições ambientais permanecem em seu estado natural.        

         Até a primeira década do século XX, o abastecimento d’água do Recife era feito apenas com a utilização dos mananciais da bacia do Prata e, até hoje, uma grande parte da população residente nos morros da zona norte da cidade ainda é abastecida por eles. 

Recife, 22 de junho de 2010. 

FONTES CONSULTADAS:
 
AÇUDE do Prata. Disponível em: . Acesso em: 22 jun. 2010.

MEUNIER, Isabelle. Conservação da reserva Ecológica de Dois irmãos: potencial e carências para a condução de um plano de manejo de área silvestre. In: MACHADO, Isabel Cristina; LOPES, Ariadna Valentina; PÔRTO, Kátia Cavalcanti (Org.). Reserva ecológica de Dois Irmãos: estudos em um remanescente de Mata Atlântica em área urbana (Recife – Pernambuco – Brasil). Recife: UFPE, Ed. Universitária, 1998. p.

SETTE, Mário. Bicas e torneiras. In: ______. Arruar. 3. ed. Recife: Governo de Pernambuco, Secretaria de Educação e Cultura, 1978. p. 211-220.

SILVESTRE, Anapaula Nunes; CARVALHO, Paulo Vladmir Van den Berg da Costa. Bacia do Prata: aspectos qualitativos da água. In: MACHADO, Isabel Cristina; LOPES, Ariadna Valentina; PÔRTO, Kátia Cavalcanti (Org.). Reserva ecológica de Dois Irmãos: estudos em um remanescente de Mata Atlântica em área urbana (Recife – Pernambuco – Brasil). Recife: UFPE, Ed. Universitária, 1998. p. 51-64.

WEBER, Ângela; REZENDE, Sérgio M. Reserva ecológica e Parque Dois Irmãos: histórico e situação atual. In: MACHADO, Isabel Cristina; LOPES, Ariadna Valentina; PÔRTO, Kátia Cavalcanti (Org.). Reserva ecológica de Dois Irmãos: estudos em um remanescente de Mata Atlântica em área urbana (Recife – Pernambuco – Brasil). Recife: UFPE, Ed. Universitária, 1998. p. 9-19.
 
COMO CITAR ESTE TEXTO: 

Fonte: GASPAR, Lúcia. Açude do Prata, Recife. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 

Busca "Palavra-chave"

Busca "A a Z"


Copyright © 2019 Fundação Joaquim Nabuco. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido pela Fundação Joaquim Nabuco