Home
Jurema

Lúcia Gaspar
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.   

A ciência da jurema,
Todos  querem saber
Mas é feito casa de abelha,
Trabalho que ninguém vê

A palavra jurema vem da língua tupi Yu-r-ema (planta com espinhos).   Segundo Câmara Cascudo é uma árvore espinhenta do sertão, da qual o gentio extraía um suco capaz de dar sono e êxtase a quem o ingeria. São plantas da família das leguminosas mimosáceas, que florescem no agreste e na caatinga do Nordeste brasileiro e cujas cascas, raízes e sementes são utilizadas em bebidas, banhos, remédios e defumadores para a cura de todos os males, tanto físicos como espirituais, sendo considerada, portanto, uma árvore sagrada.

Existem várias espécies de jurema, sendo prática comum a utilização da jurema-preta (Mimosa hostilis benth) e da jurema-branca (Vitex agmus castus). A planta é chamada por uma série de outros “sobrenomes” como jurema-mirim, jurema de caboclo, jurema roxa. É uma planta amuleto repleta de poder e tradições de encantamento para os caboclos indígenas, assim como para mestres catimbozeiros e afro-descendentes.

Além do contexto botânico, o termo jurema tem pelo menos mais três significados: bebidas de uso medicinal ou místico, o “vinho da jurema”; uma cerimônia mágico-religiosa e uma entidade espiritual, a “cabocla”, divindade evocada em rituais indígenas e cultos afro-brasileiros, como o Catimbó e a Umbanda.

A bebida ou o vinho da jurema, feita com a casca do tronco da árvore, é bastante utilizada nos rituais religiosos do toré entre índios do Nordeste. Mesmos os grupos indígenas que não usam a bebida, referem-se à jurema como uma planta dotada de forças mágicas ou cósmicas.

Desde o século XVI, há registros feitos por viajantes e missionários, de manifestações mágico-religiosas entre os povos indígenas do sertão nordestino chamadas de adjunto da jurema. Eram reuniões secretas, onde se praticava uma dança coletiva tupi, com fins religiosos e terapêuticos, utilizando-se a bebida preparada com a jurema, o fumo e o cachimbo. No século XVII, há também relatos de holandeses em viagens pelo sertão nordestino sobre a cerimônia.

Ainda do século XVII e XVIII, registros disponíveis mostram que o vinho alucinógeno da jurema também era usado na região amazônica.
Apesar dos registros existentes no início da colonização, não foi possível o conhecimento dos usos e significados da jurema, enquanto árvore sagrada, devido à resistência indígena no Nordeste.

De origem indígena, o ritual da jurema tem um caráter essencialmente mágico-curativo. É um culto de possessão, cuja ingestão da bebida permite um contato com os Mestres – entidades do “outro-mundo” que se manifestam como espíritos de antigos e importantes chefes do culto – que após a morte se encantam e podem incorporar nos juremeiros. A função dos Mestres, quando incorporados, é curar doenças, receitar remédios, resolver problemas, consolar os sofredores e exorcizar os maus espíritos dos corpos das pessoas.

Há também outro tipo de espírito importante na jurema, os caboclos. São  entidades de origem indígena que trabalham fundamentalmente com o processo da cura, por meio do conhecimento das ervas.

Além da ingestão da bebida – cujo objetivo é propiciar visões e sonhos e é o clímax do ritual –, o culto da jurema se caracteriza também pela utilização do fumo, usado para o processo de defumação, que é obtida com a fumaça dos cachimbos. Sopra-se o cachimbo encostando-se a boca na abertura do forno, em um movimento contrário ao ato de fumar.

Atualmente, o culto da jurema é encontrado tanto no litoral como no interior do Nordeste, como prática mágica e religiosa. Sofreu diversas influências do universo afro-brasileiro, tornando-se um ritual praticado nos terreiros de candomblé, xangô e, principalmente, de umbanda.

Para os remanescentes indígenas, no entanto, apesar de sua difusão ritual ou simbólica em contextos não-indígenas, a jurema continua sendo segredo, bandeira ou símbolo.

Assim como o toré, é um elemento sagrado que indica, afirma e delimita a presença do índio na sociedade nordestina e brasileira.

Os dois rituais são fundamentos da indianidade nordestina, uma vez que estão presentes em todos os grupos da região. São redutos de resistência, como segredo e símbolo de etnicidade.

FONTES CONSULTADAS:

ANDRADE, José Maria Tavares de. Jurema: da festa à guerra, de ontem e de hoje. Disponível em: <http://www.ufrn.br/sites/evi/metapesquisa/velhos/jurema.html>. Acesso em: 26 set. 2011.
 
ASSUNÇÃO, Luiz. O reino dos mestres: a tradição da jurema na umbanda nordestina. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

CÂMARA CASCUDO, Luís da.  Meleagro: depoimento e pesquisa sobre a magia branca no Brasil. Rio de Janeiro: Agir, 1951. 

BRANDÃO, Maria do Carmo Tinoco; NASCIMENTO, Luis Felipe Rios do. O catimbó-jurema. Clio, Serie Arqueológica, Recife, v.1, n.13, p.71-94, 1998.

MOTA, Roberto. Jurema. Recife: IJNPS, Departamento de Antropologia, Centro de Estudos Folclórico, 1976. (Folclore, 22).

PRANDI, Reginaldo (Org.). Encantaria brasileira: o livro dos mestras, caboclos e encantados. Rio de Janeiro: Pallas, 2004.

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: GASPAR, Lúcia. Jurema. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 

Busca "Palavra-chave"

Busca "A a Z"


Copyright © 2019 Fundação Joaquim Nabuco. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido pela Fundação Joaquim Nabuco