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Teatro do Estudante de Pernambuco

Virgínia Barbosa
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
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O teatro que os estudantes do Recife querem realizar é uma tentativa arrojada no sentido de fazer com que a arte da representação se volte para as formas puras primitivas, em contacto direto com o povo, ao ar livre, sem preço de entrada, na praça pública que é de todos, sem levar em conta a noção de que o homem de pés descalços é indiferente à beleza e à sedução da palavra (BORBA FILHO, 1943, p. 74).

Houve três Teatro do Estudante em Pernambuco. O primeiro remonta ao ano de 1940, quando estudantes de Direito representaram a peça de Paulo Gonçalves, 1830, dirigidos por Raul Priston. Não teve continuidade. O segundo teve origem na Campanha do Ginasiano Pobre, fundada por Joel Pontes e Felipe Gomes. Como precisavam alugar uma sala para ministrar aulas de um curso gratuito, a solução foi organizar um Teatro do Estudante para angariar fundos. Foi uma fase de teatro mambembe, com peças para digerir (peças fáceis, para rir). No início, representaram O escorrego, entre outras, para um público menos exigente. Ao longo de suas atividades, houve excursões a Caruaru e João Pessoa, com as comédias Era uma vez um vagabundoSimplício Pacato. O terceiro dá seus primeiros passos em 1945, quando da realização da II Semana de Cultura Nacional, organizada pela Campanha do Ginasiano Pobre. Nesse evento, houve várias conferências e, uma delas, foi proferida por Hermilo Borba Filho: Teatro, arte do povo.
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A sua insatisfação com o repertório eclético do Teatro de Amadores de Pernambuco trouxe reflexões sobre os caminhos que o teatro deveria percorrer para estar junto da população. Dizia: o teatro brasileiro deve atuar sobre o público como a exaltação do carnaval e do futebol. Para esse fim, a trajetória a ser percorrida era o aproveitamento dramático dos assuntos brasileiros e também regionais, como a história de Maria Bonita, Lampião, Antonio Conselheiro, Zumbi, os heróis dos folhetos populares:

Que se faça teatro com esse material e a multidão sairá das feiras para as casas de espetáculo e daí partirá a compreensão para as obras de elite. Que se acostume primeiro o povo com os dramas que vivem dentro do seu sangue. [...] o teatro brasileiro tem vivido fechado nas casas de espetáculos, caro, inaccessível ao bolso da maioria. O nosso teatro precisa de umas férias. Precisa tomar ar, respirara a plenos pulmões (BORBA FILHO citado por PONTES, 1952-1965, p. 103-104).

As palavras de Hermilo surtiram efeito quase imediato e ganharam muitos adeptos. Em 13 de abril de 1946, o Teatro do Estudante de Pernambuco foi fundado por Hermilo Borba Filho com Gastão de Holanda, Joel Pontes, Aloísio Magalhães, Lula Cardoso Ayres, Aristóteles Soares e Ariano Suassuna que se propõe a combater tanto a mercantilização quanto o aburguesamento da arte. O grupo era quase todo formado por alunos da Faculdade de Direito. Hermilo escolheu duas peças: O Urso, de Tchékhov, e O Segredo, de Ramon J. Sender. Foram traduzidas por ele e representadas, ainda sem censura, em cima das mesas da Biblioteca da Faculdade de Direito. Lula Cardoso Ayres desenhou os cenários e fez os figurinos. A crítica elogiou.

A apresentação dessas montagens em outros espaços foi crescente: Escola Técnica, Centros Operários, parques, praças, sanatórios, fábricas, presídios, onde o povo estivesse. Inclusive, para ajudá-los na aventura de levar teatro ao povo, a Base Naval do Recife mandou construir um palco ambulante batizado pelo grupo do TEP de Barraca. Foi armado no Parque 13 de Maio e inaugurado em 18 de setembro de 1948 com as peças Haja Pau, de José Moraes Pinho, e Cantam as Harpas de Sião, de Ariano Suassuna. O palco, que deveria ser ambulante, tornou-se um problema: era difícil desmontá-lo acarretando um trabalho para vários dias. Terminou abandonado.

Após a estreia, o TEP apresentou dois espetáculos na Escola Técnica: A Sapateira Prodigiosa, de Garcia Lorca, e A Casa de Rosmer, de Ibsen, considerado um dos mais perfeitos da história do TEP. O grupo, desde o início, procurava manter inalterado o zelo pela boa interpretação, o propósito de levar o teatro gratuito ao povo, e a linha antifascista. Tudo isso consolidado pela amizade que o reunia ora na Faculdade de Direito, ora na residência de Hermilo para ensaios e acaloradas discussões. A crítica foi quase unânime ao aprovar o trabalho do TEP. Diz o artigo de Telga de Araújo, na Folha da Manhã, de 13 de dezembro de 1947:

[...] O povo precisa de se educar artisticamente, sem pagar frisas ou camarotes, cadeiras ou torrinhas, a preços astronômicos. O que os moços do Teatro do Estudante estão fazendo é qualquer coisa de formidável [...] e, no fim de tudo, fazem teatro inteiramente de graça, sem beneficiar A e B, mas, apenas, ao povo que aprende a assistir teatro de verdade, sem gastar um tostão.

Entretanto, a gratuidade para acesso aos espetáculos foi uma das causas para o encerramento das atividades do TEP. Desde o início, o Teatro do Estudante de Pernambuco se mantinha com doações mensais registradas em livro e com valores que os espectadores depositavam em bandejas que circulavam quando das apresentações em locais outros que não fossem os bairros e instituições pobres. Outras colaborações vinham de colégios que cediam seus palcos para ensaios e nada cobravam; de comerciantes, de tipografias, de famílias (roupas antigas, chapéus...) e da Base Naval, com a doação do palco ambulante. Embora a mobilização para ajudar o grupo de estudantes fosse grande, os donativos ainda eram insuficientes para manter os espetáculos dos subúrbios pobres.

A partir de 1948, a situação econômica do TEP estava muito difícil, o que obrigou o grupo a cobrar ingresso e, a contragosto, se apresentar no Teatro Santa Isabel que, para Hermilo Borba Filho citado por Cadengue (2011), era o reduto da burguesia do Recife. E que era afinal de contas, o reduto do Teatro de Amadores de Pernambuco, que representava, aos nossos olhos, na época, o teatro mais burguês que se possa imaginar.

Em 12 de maio de 1949, estreiam com a peça de Sófocles, Édipo Rei. Seguem-se, no mesmo Teatro, as representações de: O Vento do Mundo, de Hermilo Borba Filho (5 nov. 1951); Otelo, de Shakespeare; A Cabra Cabriola, de Hermilo, Mãe da Lua, de José de Moraes Pinho,  A Caipora, de Genivaldo Wanderley (três peças em um ato, em 5 abr. 1952); e o último espetáculo do TEP, Três Cavalheiros a Rigor, também de Hermilo (18 set. 1952).

No final do ano de 1952, Hermilo Borba Filho transfere-se para São Paulo e o TEP, já muito fragilizado por motivos financeiros e sem novas adesões, se extingue. Publicamente, por intermédio dos jornais, o Teatro do Estudante de Pernambuco anunciou o encerramento de suas atividades. Diz Hermilo (CADENGUE, 2011):

Não aguentava mais Pernambuco por causa de uma série de problemas que nada tinham com teatro. Com a minha ida para São Paulo, o Teatro do Estudante liquidou-se. Não houve ninguém que tocasse o barco para frente. Mesmo porque naquela altura, todo mundo já tinha saído da Faculdade, cada um já estava preocupado com seu romance, com sua pintura, sua poesia, sua música, e o Teatro do Estudante tinha cometido o erro de não formar sucessores. É o erro de qualquer grupo fechado. Mas o nosso grupo era fechado por sua própria natureza. Defendia ideias tão avançadas para a época, que ninguém queria se aproximar daqueles loucos.


Algumas peças representadas pelo TEP, sob a direção de Hermilo Borba Filho:

O Segredo, de Ramón J. Sender (1946)
O Urso, de Anton Tchékhov (1946)
A Sapateira Prodigiosa, de Garcia Lorca (1947)
A Casa de Rosmer, de Ibsen (1948)
Haja Pau, de José de Moraes Pinho (1948)
Cantam as Harpas de Sião, de Ariano Suassuna (1948)
Édipo Rei, de Sófocles (1949)
Quando Despertamos de Entre os Mortos, de Ibsen (1949)
O Vento do Mundo, de Hermilo Borba Filho (1950)
Otelo, de Shaekespeare (1951)
A Cabra Cabriola, de Hermilo Borba Filho (1952)
Mãe da Lua, de José de Moraes Pinho (1952)
A Caipora, de Genivaldo Wanderley (1952)
Três Cavalheiro a Rigor, de Hermilo Borba Filho (1952)

Recife, 24 de novembro de 2011.

 

FONTES CONSULTADAS:

BORBA FILHO, Hermilo. Uma tentativa de teatro popular. Boletim da Cidade e do Porto do Recife, Recife, n. 9-10, [p. 74-75], jul./dez. 1943.
 
CADENGUE, Antonio Edson. TAP – sua cena & sua sombra: o Teatro de Amadores de Pernambuco (1941-1991). Recife: Cepe, 2011. v. 1, p. 171-177

NEWTON JÚNIOR, Carlos. Montando a barraca. Continente, Recife, ano 8, n. 94, p. 60-63, out. 2008.

PONTES, Joel. Teatro do Estudante de Pernambuco. Arquivos, Recife, n. 21/47, p. 100-117, 1952-1965.

SUPLEMENTO CULTURAL [Diário Oficial. Estado de Pernambuco], Recife, ano 9, jul. 1996. Presença viva de Hermilo Borba Filho: meio século do Teatro do Estudante de Pernambuco.

TEIXEIRA, Flávio Weinstein. Caminhos da renovação cultural no Recife (1940-50): o teatro. Clio: Revista de Pesquisa Histórica, Recife, n. 20, p. 249-273, 2002. Série História do Nordeste.

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: BARBOSA, Virgínia. O Teatro do Estudante de Pernambuco. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex.: 9 ago. 2009.

 

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