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Bois-Bumbás de Parintins, Amazonas: Caprichoso e Garantido

Virginia Barbosa
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
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No final do século XVI, o português José Pedro Cordovil chegou a uma ilha localizada na Amazônia brasileira, que era habitada pelos índios Tupinambás e pelas tribos Sapupê, Peruviana, Mundurucu, Maués e Parintins. Até se tornar conhecido como Parintins, aquele local teve várias denominações: Tupinambarana (1796), Vila Nova da Rainha (1803), Freguesia de Nossa Senhora do Carmo de Tupinambarana (1833), Vila Bela da Imperatriz (1848), Parintins (1853). O município está localizado no Baixo Amazonas, margem direita do rio Amazonas e fica a 420km de Manaus. Atualmente, tem cerca de cem mil habitantes.

Parintins é considerada a segunda maior cidade do estado do Amazonas e um dos pontos turísticos mais importantes daquela região, devido, principalmente, a uma das maiores celebrações populares do Brasil: o Festival Folclórico de Parintins.

O Festival foi oficializado em 1966 e é palco da disputa dos bois-bumbás, Caprichoso e Garantido, que existem desde 1913.

Segundo estudiosos, os bois-bumbás de Parintins têm sua origem no Nordeste do Brasil. A região amazônica recebeu muitos imigrantes nordestinos. Com eles vieram suas manifestações culturais que foram incorporadas e adaptadas pela população nortista, inclusive com lendas, rituais, música e dança indígenas, além de figuras mitológicas como pajés e feiticeiros.

Existem algumas histórias sobre a procedência dos bois Garantido – considerado o “boi do povão” – e Caprichoso – o “boi da elite”. Entre tantas, o Garantido conta que o seu fundador, Lindolfo Monteverde, quando criança, escutava de sua avó maranhense lendas de um boi de pano que dançava nas noites de São João. Aos 11 anos, confeccionou um boi e o batizou de Garantido. Juntou amigos para brincar com o boi no seu quintal por vários anos. Quando completou  dezoito anos, Lindolfo teve sérios problemas de saúde e fez uma promessa a São João Batista: se restabelecida sua saúde, ele faria o boi brincar por toda sua vida. Assim surgiu, em 13 de junho de 1913, o boi-bumbá Garantido.

O Caprichoso também foi fruto de uma promessa que os irmãos Cid – João Roque, Félix e Raimundo Cid –, oriundos do Ceará, fizeram a São João Batista quando chegaram à região amazônica: se conseguissem trabalho e casamento reverenciariam o santo com um boi de pano. Graças alcançadas, surge em Parintins, em 20 de outubro de 1913, o boi-bumbá Caprichoso. Nome batizado pelos Cid que acataram a sugestão do advogado parintinense José Furtado Belém. Ele já conhecia outro boi-bumbá chamado de Caprichoso, que brincava no bairro Praça 14, em Manaus.

O enredo da apresentação dos Bois Caprichoso e Garantido não difere muito dos inúmeros bois-bumbá existentes por todo Brasil. Conta a história do Negro Francisco, funcionário de uma fazenda que, para atender ao desejo de sua mulher grávida – comer a língua do boi mais bonito do lugar –, rouba o animal preferido  da fazenda e o mata. O patrão descobre e ordena que índios cacem o Negro Francisco que já buscava, aflito, um pajé para ressuscitar o boi. Ele consegue esse prodígio, é perdoado pelo patrão e tudo vira uma festa.

Inicialmente, na década de 1960, os bois-bumbás foram para as quadras criando o Festival de Parintins. Depois, o local da festa e do desfile foi um bumbódromo construído em madeira (1985), com arquibancada, camarotes e uma arena acimentada onde os grupos encenavam lendas e rituais amazônicos. A versão em alvenaria, definitiva, foi inaugurada em 1988 e tem capacidade de receber até 35 mil espectadores.

Em Parintins, a festa dura três dias e três noites e as torcidas dos bois-bumbás dividem a cidade nas cores azul e vermelho. Azul representa o Caprichoso e vermelho o Garantido. É uma mistura de teatro, dança e música e a apresentação de cada boi deve conter 22 itens obrigatórios relacionados à lenda, com a presença da marujada (espécie de bateria) e de personagens como a Sinhazinha, a Cunha Poranga (que representa a moça mais bela da tribo) e o Pajé, entre outros (CATTANI, 2011, p. 36). Nos três dias de espetáculo, as arquibancadas são divididas em duas partes rigorosamente iguais e cada um dos lados é pintado com a cor de um dos bois.

A música que acompanha toda a apresentação do Garantido e do Caprichoso é a toada, acompanhado por um grupo de mais de quatrocentos ritmistas.

As torcidas são um capítulo  parte nessa grande festa. Cada uma possui cerca de quatro mil integrantes, conhecidos como brincantes, que seguem regras para que a festa aconteça com o maior brilho possível: não podem, em hipótese alguma, usar a cor do grupo rival nem mencionar o nome do outro boi-bumbá, que deve ser tratado como ‘contrário’; não podem, jamais, vaiar a apresentação do boi adversário; e, durante a apresentação o grupo rival, deve permanecer em completo silêncio.

Toda a festa tem uma cuidadosa produção que traz alegorias compostas de esculturas gigantescas associadas com coreografias ensaiadas o ano todo e que fazem da disputa dos bois-bumbás um espetáculo apoteótico.

Para vencer a competição um júri avalia cada boi por meio de diversos critérios, tais como a apresentação, rituais, canções, alegorias, coreografias, torcidas. Os principais itens apresentados pelos bois-bumbás são: levantador de toadas, sinhazinha da fazenda, apresentador, amo do boi, rainha do folclore, porta-estandarte, cunha-poranga, pajé, tripa. No quarto dia o vencedor é anunciado.

No período de 1966 a 2011, foram realizados 46 Festivais, 27 vencidos pelo Boi Garantido, com 18 vitórias do Caprichoso e apenas um empate.

Recife, 10 de dezembro de 2011.

FONTES CONSULTADAS:

BOI Garantido e Caprichoso. Disponível em: <http://www.boigarantidoecaprichoso.blogspot.com/>. Disponível em: 30 ago. 2011.

CATTANI, Luciana; BOIERAS, Gabriel. Espetáculo na floresta. Revista Voe, São Paulo, ano 3, n. 36, p. 34-38, jun. 2011. Fotos neste texto.

FESTIVAL de Parintins, AM. Disponível em: <http://www.terra.com.br/diversao/parintins/historia.htm>. Acesso em: 30 ago. 2011.

PARINTINS. História. Disponível em <http://pt.wikipidia.org/wiki/Parintins>. Acesso em: 30 ago. 2011.

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: BARBOSA, Virgínia. Bois-Bumbás de Parintins, Amazonas: Caprichoso e Garantido. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 

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