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Queima de lapinha

Virgínia Barbosa
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
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Diferente do que muita gente pensa, a queima de lapinha não é um ritual instituído pela Igreja Católica. É uma manifestação folclórica nordestina que encerra as festividades do ciclo natalino – Natal, Ano Novo e Reis Magos – e está relacionada com presépio e pastoril.

Segundo Houaiss, lapinha é um nicho ou presépio que se arma para as festas de Natal e Reis; e é também uma antiga representação popular, encenada diante do presépio, de que se originou o pastoril. O Presépio é pequena construção e figuras de materiais diversos (barro, madeira, louça, papelão etc.), que representam o estábulo em Belém e as cenas que se seguiram ao nascimento de Jesus. Atualmente, presépio e lapinha têm o mesmo significado – representação estática do nascimento de Jesus.

A queima de lapinha acontece, tradicionalmente, no Dia de Reis, seis de janeiro, à meia-noite. A cerimônia envolve pastoras e suas jornadas (cantos diante do presépio), fogos, orquestras de sopro e percussão, além da participação do público. Geralmente, a queima segue um ritual que tem início com a apresentação do guerreiro, depois a exibição das pastoras saudando o presépio com cantos; em seguida, elas retiram da lapinha (presépio) todas as figuras e recolhem as palhas e flores que a adornaram. Estes últimos são embalados e transformados num andor (padiola ornamentada em que se transportam imagens sacras nas procissões) que é o que vai ser queimado. Posteriormente, a orquestra, que acompanhava as pastoras, toca frevo, geralmente Vassourinhas, como que marcando o final do ciclo natalino e o início oficial da temporada momesca. As pastorinhas acompanham a vibrante música que também envolve o público e, todos, animados, prenunciam o Carnaval.

Diz a crença popular que a lapinha é queimada para que o material que enfeitou o presépio, considerado sagrado, não seja jogado no lixo. Além disso, acredita-se que as palhas da lapinha devem ser queimadas sob pena dos componentes dos pastoris não terem um bom ano; traz sorte tanto para o dono da casa que abrigou a lapinha quanto para o público que assiste a cerimônia; as cinzas vão servir para ungir, pois  o fogo quando queima, consagra. Inclusive, as cinzas são utilizadas para ungir “o corpo dos meninos da gente, pra sair com o maracatu pelo Carnaval”, diz Ubiracy Ferreira, do Pastoril Sol Nascente (PESSOA, 2011, p. 89).

Câmara Cascudo em seu texto, Presépios e pastoris, de 1943, relata o pitoresco das representações e as figuras ligadas à época em que essas tradições folclóricas tiveram em Pernambuco o seu apogeu. Dedica parte desse seu trabalho à queima de lapinha, e assim a descreve:

“Essa cerimônia [...] tem como base um cortejo, a cuja frente um grupo de moças conduz as palhas de coqueiros que servirão para formar o nicho onde esteve armada, durante o período de Natal, a cena do nascimento de Jesus. Seguem-se duas filas prolongadas de meninas e meninos, conduzindo balões multicores, fechando o séquito uma orquestra de instrumentos de sopro, que toca a seguinte melodia, enquanto a multidão canta:

 

A nossa Lapinha
Já vai se queimar
...    Bis
E nós , Pastorinhas,
Devemos chorar

Queimemos, queimemos
A nossa Lapinha               
De cravos e rosas
,              Bis
De belas florinhas

Queimemos, queimemos
Gentis Pastorinhas
              Bis
As sêcas palhinhas
Da nossa Lapinha
”.

As palhas são amontoadas no local escolhido para a cerimônia do “queima” e  ateia-se fogo nelas. Ao redor desse fogo (transformado em fogueira devido a quantidade de palhas secas) é formado um grande círculo de moças e rapazes de mãos dadas que cantam:

A nossa Lapinha
Já está se queimando...     
Bis
E o nosso brinquedo
Está se acabando.

As nossas palhinhas
Já estão se acabando...  
   Bis
E nós, Pastorinhas,
Nós vamos chorando”.

Quando a fogueira se transforma em cinzas, o cortejo volta ao seu ponto de partida, cantando:

A nossa Lapinha
Já se queimou.... 
           Bis
E o nosso brinquedo
Já se acabou.

Adeus, Pastorinhas!
Adeus que eu me vou... 
     Bis
Até para o ano
Se eu viva fôr!”

No Recife, uma das mais tradicionais queima de lapinha é realizada no bairro da Torre, na praça da Igreja de Santa Luzia. A pesquisadora Dinara Helena Pessoa identificou e registrou 101 pastoris na Região Metropolitana do Recife e destacou alguns que ainda seguem o cerimonial da queima de lapinha: Pastoril Rosa Mística dos Torrões (em frente a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro); Sol Nascente, de Água Fria; Estrela de Belém, o de Amaro Branco, Olinda e o do Sítio Areinha, Camaragibe; Pastoril Rotary Clube, de Olinda, além de locais onde vários grupos de pastoris se reúnem para o encerramento do ciclo natalino com a queima de lapinha. É o caso do Sítio da Trindade e do Pátio de São Pedro.

Recife, 30 de janeiro de 2011.

 

FONTES CONSULTADAS:

 

 

FERREIRA, Ascenso. Presépios e pastoris. Arquivos, Recife, ano 2, n. 1-2, p. 135-162, dez. 1943.

KERSTMAN, Moysés.  Queima de lapinha: tradição é revivida na Torre. Jornal do Commercio, Recife, 8 jan. 1976.

KERSTMAN, Moysés.  Pastoril na Torre reúne a queima de lapinha. Jornal do Commercio, Recife, 8 jan. 1978.

PESSOA, Dinara Helena. A queima da lapinha. In: ______. Jornadas de Pastoril. Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 2011. p. 87-93.

QUEIMA de lapinha encerra a festa dos reis Magos. Jornal do Commercio, Recife, 7 jan. 1989.

QUEIMA de lapinha, a derradeira festa natalina. Diario de Pernambuco, Recife, 1º jan. 1977.

QUEIMA de lapinha encerra ciclo natalino. Jornal do Commercio, Recife, 5 jan. 1977.

SOUTO MAIOR, Mário; LÓSSIO, Rúbia. Dicionário de folclore para estudantes. Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 2004. 294 p.

 

 

 

COMO CITAR ESTE TEXTO:

 

 

Fonte: BARBOSA, Virgínia. Queima de lapinha. Pesquisa Escolar Online. Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br//>. Acesso em: dia  mês  ano. Ex.: 6 ago. 2009.

 

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