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Festa dos Lambe-Sujos versus Caboclinhos
Virgínia Barbosa
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco

Manifestação popular conhecida nas capitais e no interior dos estados de Sergipe e Alagoas, a Festa do Lambe-Sujo versus Caboclinhos faz alusão à destruição dos quilombos em terras indígenas.

Em Aracaju, a Festa era realizada na data de 24 de outubro. Na cidade de Laranjeiras – fundada em 1605, na região do Vale do Cotinguiba, cerca de vinte quilômetros da capital sergipana –, há mais de cem anos, ela é preservada e encenada uma vez por ano, no segundo domingo de outubro.
Considerada como um dos lugares, em Sergipe, onde a cultura negra floresceu, Laranjeiras mostra traços dessa cultura tanto na representação étnica como nos diversos festejos e rituais do calendário local, tais como o cortejo das Taieiras e a Festa do Lambe-Sujo, ambos oriundos da tradição nagô.
Dos primeiros registros dessa manifestação popular até os nossos dias, a Festa vem passando por diversas mudanças ou adaptações dos locais, ritos e embates.
 
Atualmente, as etapas da Festa dos Lambe-Sujo versus Caboclinhos são assim desenvolvidas:
 
A primeira etapa da Festa é denominada Esmolado. Um ritual que tem início às cinco horas da véspera do cortejo principal. Simboliza o embate entre negros e índios: um negro amarrado pela cintura é conduzido por um índio. Eles percorrem as ruas de Laranjeiras pedindo aos comerciantes alimentos os quais servirão para o preparo de uma feijoada que é servida no dia da festa. Junto com os alimentos arrecadados sempre há alguma quantia em dinheiro que é dividida entre os dois personagens do Esmolado.
 
Após o almoço, ainda na véspera da Festa, os lambe-sujos vão à mata tirar taquara (planta semelhante ao bambu) e, no meio da tarde, com esse material, constroem uma cabana que abrigará a batalha final. Atualmente, o local onde a cabana é construída, por exigência das reformas urbanas, difere das primeiras manifestações dos lambe-sujos. Algumas etapas do festejo desapareceram, como por exemplo: o costume que a população tinha de deixar alimentos na calçada de sua casa para que, quando no amanhecer do domingo, os negros os roubassem  para depois negociar a sua devolução com seus donos.
 
A movimentação para a Festa do domingo é intensa. O início é marcado pela Alvorada, que simboliza a tomada das terras de Laranjeiras pelos negros. A concentração dos lambe-sujos tem início às três horas, em frente da casa do coordenador do grupo. Para evitar que os integrantes, que estão em fila, saiam do lugar e que a população invada aquele espaço, a figura dos taqueiros faz-se necessária. Armados de chicote e ponteira eles  se assemelham ao feitor ou capitão-do-mato que a história registra como chefes dos guerreiros mamelucos, destruidores de quilombos. Chicoteando o chão e o ar mantém a ordem dos lambe-sujos e também abrem caminho para o cortejo passar.
Quando da chegada do cortejo à cidade, uma das atrações é a atuação dos taqueiros:  a população os instiga, com ironia, sorrisos e sensualidade, a distribuírem chicotadas. O percurso  parte do centro urbano de Laranjeiras e dura cerca de uma hora e meia. A população se faz presente acompanhando ou observando da calçada de suas residências. Cantos são entoados e as músicas têm o ritmo de maxixe e maracatu. Um dos cantos mais ouvidos é: Samba nêgo / branco não vem cá / se vier /pau há de levar. 
 
O grupo toca instrumentos de percussão – atabaque, pandeiro, cuíca, ganzá – que, no início, eram feitos artesanalmente e hoje são de fabricação  industrial.
 
No meio da manhã do domingo, ocorre o segundo cortejo da Festa. Os corpos dos lambe-sujos são pintados para o combate. Utilizam uma mistura de pó preto com sabão em pó e água, para fazer a base negra sobre a pele e adicionam mel de cabaú (calda grossa de cana-de-açúcar que é parte residual daquela acondicionada nas fôrmas de açúcar e que escorre destas por orifícios, sendo guardada em tanques e aproveitada) para garantir o brilho forte que caracteriza o grupo. No início, a pintura era feita com carvão pilado e peneirado; depois passaram a utilizar xadrez preto (pó que os pedreiros empregam para colorir pisos). Adereços (cachimbos, chupetas de cores fortes, colares grossos de prata e óculos escuros) completam a vestimenta que é composta de bermudão de flanela (outrora, eram feitos de sacos de açúcar, tingidos com tinta mangue de sapateiro) e uma gurita (gorro)  vermelhos. Trazem à mão uma foice feita de madeira pintada de preto.
 
O cortejo (‘invasão’) começa com o grupo liderado pelo príncipe dos lambe-sujo e os taqueiros que abrem caminho. Recebem bênçãos da mãe-de-santo no Terreiro de Santa Bárbara Virgem e do pároco na igreja da praça central. Seguem pela cidade, imprimindo marcas de suas mãos por onde passam, legitimando dessa forma a ‘invasão’.
 
O ritual do embate entre negros e índios em terras sergipanas aqui toma força quando os indígenas (caboclinhos) sabem da ‘invasão’ dos negros.  O grupo dos caboclinhos reúne uma grande quantidade de crianças e adolescentes que usam o mel de cabaú e a cor vermelha para pintar a pele. Para compor suas roupas utilizam cinturões, braceletes e cocares, arcos e flechas. O desfile é organizado em fila e seus integrantes entoam cantos e tocam marchas de guerra, utilizando tambor e caixa como elementos percussivos.
 
Os dois grupos seguem pela cidade. Fazem uma pausa para o almoço e param no local onde é servida a feijoada. Depois, retomam o cortejo (agora, na última etapa), que agrega outros personagens, como o rei que aparece em trajes de combate e lidera o grupo dos caboclinhos; e o curandeiro Pai Joá, do grupo dos lambe-sujos. Durante o cortejo há provocações entre eles - caboclinhos e lambe-sujos – e a tensão aumenta para o embate final. Quando chegam às margens do rio Cotinguiba, a rainha dos indígenas é presa na cabana construída pelos lambe-sujos na véspera da Festa. Os indígenas enviam aos negros algumas comissões com ultimato de rendição. É formado um cerco pelos caboclinhos que culmina com a simulação de combate onde há luta e os lambe-sujos são aprisionados e amarrados. Depois, saem pedindo dinheiro à população para comprarem sua alforria. O festejo é encerrado com a queima da cabana.
 
O folclorista Luís da Câmara Cascudo aponta variante dessa Festa em Alagoas onde é conhecida por Quilombos. Lá, os ‘lambe-sujos’ (os negros) usam para a cobertura da cabeça chapéus de palha, em vez de gorro, e têm um rei e uma rainha. Contrário ao ritual atual da Festa de Laranjeiras, a rainha dos negros é que é raptada pelos caboclinhos.  Não há comissão para negociar a rendição. Há dança dos negros ao som do canto Samba nêgo / branco não vem cá / se vier /pau há de levar, e duelos de espada (com o rei) e de foice (com os demais elementos do grupo). No final, os caboclinhos penetram no ‘quilombo’.
Recife, 27 de agosto de 2012.
 
FONTES CONSULTADAS:
CÂMARA CASCUDO, Luís da. Lambe-Sujo. In: ______. Dicionário do folclore brasileiro. 4. ed. rev. e aum. São Paulo: Melhoramentos; Brasília: INL, 1979. P. 426-427.
LAMBE-SUJO e Caboclinho. Disponível em: <http://www.conhecasergipe.com.br/folclore_sergipano.asp#parafusos>. Acesso em: 23 ago. 2012.
LAMBE-SUJOs e Caboclinhos. Disponível em:  <http://revistaraiz.uol.com.br/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=718&Itemid=181>. Acesso em: 22 ago. 2012.
LIRA, Ana. Sergipe: o embate entre negros e índios. Continente, Recife, ano 10, n. 120, p. 50-57, dez. 2010.

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: BARBOSA, Virgínia. Festa do Lambe-Sujo versus Caboclinhos. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: . Acesso em: dia  mês  ano. Ex.: 6 ago. 2009.
 

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