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Rodolfo Cavalcanti
Maria do Carmo Andrade
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
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Rodolfo Coelho Cavalcanti, poeta popular nordestino e escritor de cordel, é considerado um intelectual da poesia popular e um dos nomes mais conhecidos nesse ramo. Nasceu em Rio Largo, Alagoas, em 12 de março de 1919, filho de  Arthur de Holanda Cavalcanti, operário da indústria têxtil, e de Maria Coelho Cavalcanti, mais tarde também operaria de fábrica.
Foi criado pelos avós maternos, Florisbela e Antonio Coelho Cavalcanti, e aprendeu a ler com sua avó “Belinha”, que tinha uma escola de alfabetização. Com seu avô “Coelho”, aprendeu a recitar poemas, alguns até considerados obscenos para a época. Os parentes, vizinhos e amigos se deleitavam ao ver o pequeno Rodolfo declamar com desenvoltura. 
Aos oito anos, voltou a morar com seus pais, quando estes se mudaram para Maceió, onde seu genitor foi trabalhar em uma fabrica de sabão. Foi nessa ocasião que Rodolfo começou a frequentar a escola e também a trabalhar juntamente com seu irmão Aristófeles, carregando latas d’água para abastecer a casa.
Desempregado, Arthur  Cavalcanti voltou com a família para Rio Largo, onde foi trabalhar novamente na indústria têxtil. Rodolfo, então, começou a prestar pequenos serviços para ajudar no orçamento familiar. Em decorrência do trabalho precoce, só estudou até a terceira série do hoje chamado ensino fundamental. Entretanto, logo cedo revelou grande talento para a poesia. Criava versos com facilidade, tendo sido escolhido entre os alunos de sua escola para saudar com um verso de sua autoria o tenente Juarez Távora, por ocasião de sua passagem em Rio Largo, depois da vitória da Revolução de 1930:
Salve Juarez Távora, / O militar glorioso,
Estrela do nosso exército, / Que será vitorioso
Marchando para o porvir, / Vibrando consciencioso.
A família de Rodolfo voltou a morar em Maceió, onde ele conseguiu um emprego fixo nas Lojas Paulistas. Como sua função era atrair os fregueses, ele inventava versos adaptando letras de músicas conhecidas para cantar em frente da loja. O que ganhava por esse trabalho era entregue a mãe. Porém, a imprensa de Maceió denunciou o que hoje chamamos de “exploração do trabalho infantil”, e por esse motivo Rodolfo perdeu o emprego.
Em seguida, foi trabalhar na empresa Western Cable Telegraph Company. Para conseguir esse emprego, Rodolfo foi registrado (até então ele não tinha registro de nascimento) como tendo nascido em 1917, quando, na verdade, nascera em 1919. Quando foi despedido, não teve coragem de dizer para sua mãe. Fugiu de casa a pé com destino ao Recife, seguindo a linha férrea. No capital pernambucana, fez vários biscates (serviços eventuais) até conseguir uma quantia razoável e retornar para casa em 1932.
Em 1934, saiu de casa novamente. Na luta pelo pão de cada dia e usando sua habilidade nata de comunicador, Rodolfo vendeu até pedra tipo seixo, convencendo os fregueses de que elas tinham poder de cura. Foi vendedor de remédios falsificados e professor primário (ensino fundamental) concursado em Luzilândia, Piauí, até 1938. Com saudades da família, decidiu voltar para casa. Antes, comprou na Paraíba um lote de folhetos de João Martins de Athayde, iniciando a sua carreira de vendedor de cordel. Foi preso enquanto vendia os folhetos, pois na época os poetas populares eram perseguidos pelas autoridades.
Interessado pelos folhetos de cordel, escreveu o seu primeiro quando estava de passagem por Fortaleza, contando a tragédia de um afogamento na praia de Iracema. O cordel fez sucesso e em poucos dias vendeu cerca de três mil exemplares. Ainda durante o trajeto de volta para casa, se aventurou como palhaço de circo. Antes de um espetáculo, recebeu um telegrama dando a notícia, com três meses de atraso, da morte de seu pai, que ocorrera em janeiro de 1939.
Finalmente, chegou em casa, mas não demorou muito tempo e logo retomou as andanças. Em Conceição do Canindé, no Piauí, apaixonou-se por Hilda, com quem se casou em 1939. Em 1942, Rodolfo se estabeleceu na capital, Teresina, onde começou sua carreira de cordelista com o folheto Os clamores dos incêndios em Teresina, um sucesso de vendas, e escreveu mais outros 34 folhetos. Entusiasmado, instalou um ponto para venda de folhetos e miudezas. Contudo, por problemas na administração do pequeno comércio, teve prejuízo. Chateado, mudou-se, em 1945, para a cidade de Salvador, Bahia.
Salvador era considerado um bom mercado para a literatura de cordel e, aproveitando o momento político, escreveu e publicou, dois dias depois da queda de Getulio Vargas, o folheto A volta de Getúlio. Os primeiros mil exemplares esgotaram em apenas dois dias. Quando Otávio Mangabeira assumiu o governo da Bahia, em 1946, Rodolfo não perdeu a oportunidade e lançou o folheto ABC de Otávio Mangabeira.
A propósito desse fato, conta-se que certo dia, quando estava vendendo seus folhetos na rua, chegou um oficial do gabinete do governador e “convidou-o” para se apresentar ao chefe do Estado que, para surpresa de Rodolfo, disse que havia gostado do seu folheto ABC de Otávio Mangabeira. Depois de uma amigável conversa, o governador perguntou ao cordelista o que poderia fazer por ele. Rodolfo imediatamente falou sobre a falta de liberdade para vender seus folhetos. O governador, que gostava desse tipo de literatura, logo determinou que o trovador Rodolfo Cavalcanti podia comercializar seus folhetos em qualquer praça do estado da Bahia.
Livre de perseguições e motivado pelo III Congresso Brasileiro de Escritores (Salvador, 1950), começou a vislumbrar a possibilidade de um evento dessa natureza para a classe dos trovadores. A partir daí, começou a trabalhar nessa direção, fazendo parcerias, articulando-se com pessoas influentes no meio cultural, político e econômico. Em 1954, conseguiu uma coluna no Diário da Bahia chamada “Quando falam os trovadores”, e iniciou, também por conta própria, a edição do jornal A Voz do Trovador

Finalmente, depois de quase cinco anos de muito trabalho e determinação, foi realizado, em Salvador, de 1º a 5 de julho de 1955, o I Congresso de Trovadores e Violeiros, cujo principal objetivo era a fundação de uma organização que reunisse a classe. Assim, foi fundada a Associação Nacional de Trovadores e Violeiros (ANTV), com registro, em ata de presença, de 87 congressistas. Entretanto, alguns membros da ANTV queriam transformá-la em instrumento político partidário. Rodolfo, contrariado com essa idéia, pediu demissão do cargo de presidente em agosto de 1956, o que ocasionou a dissolução da Associação.
Em 1958, fundou o Grêmio Brasileiro de Trovadores (GBT), que também teria vida efêmera, pois a ideia de reunir, na mesma organização, representantes de movimentos literários diferentes, provocou muitas divergências. Contudo, a GBT ainda conseguiu realizar, em setembro de 1960, em São Paulo, o II Congresso de Trovadores e Violeiros.
Rodolfo, apesar dos reveses da vida, como a morte de sua primeira filha, a jovem Israelita, continuou firme na luta pela classe cordelista. Em novembro de 1976, reuniu-se em Salvador com trovadores e violeiros na I Feira Regional da Literatura de Cordel, evento também idealizado por ele, com o apoio oficial da Divisão de Cordel da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Aproveitando a oportunidade, Rodolfo fundou sua terceira agremiação de classe, a Ordem Brasileira de Literatura de Cordel, que conduziu até o fim de sua vida.
Em 1984, se dá mais um infortúnio na vida de Rodolfo. Um incêndio no Mercado Modelo, em Salvador, destruiu seu ponto de venda de folhetos. Sem mercado, não havia freguês; sem freguês, não havia dinheiro para sustentar sua esposa Hilda, e os filhos Rodolfinho, Ismoca e Nilza. A Fundação Cultural ofereceu-lhe um emprego garantindo sua subsistência. 
Rodolfo estava em plena atividade quando morreu atropelado no dia 7 de outubro de 1986. O seu trágico desaparecimento causou comoção geral, repercutindo nos meios literários do Brasil e até do exterior. Mais de uma dezena de folhetos de cordel sobre ele foram publicadas. E, como uma premonição de sua própria morte, Rodolfo havia enviado para o II Concurso de Trovas de Belém do Pará a seguinte trova:
Quando este mundo eu deixar, /A ninguém direi adeus. /
Dos poetas quero levar / Suas trovas para Deus.
Parte dos quase dois mil folhetos escritos por Rodolfo Coelho Cavalcanti pode ser encontrada no acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, que disponibiliza para consulta, em versão digital, 507 peças. A busca e o acesso a essas peças podem ser feitos pelo título, local de publicação, editora/tipografia, data e assuntos listados no vocabulário de cordel.
Recife, 28 de setembro de 2012.
FONTES CONSULTADAS:
O ACERVO em versão digital está disponível para consulta. Disponível em: . Acesso em: 227 set. 2012.
ALMEIDA, Átila Augusto F. de; ALVES SOBRINHO, José. Dicionário biobibliográfico de repentistas e poetas de bancada. João Pessoa: Editora Universitária; Campina Grande: Centro de Ciências e Tecnologia, 1978.
PINTO, Maria do Rosário. Rodolfo Coelho Cavalcanti. Disponível em: . Acesso em: 13 set. 2012.
WANKE, Eno Theodoro. Introdução. In: RODOLFO Coelho Cavalcanti. São Paulo: Hedra, 2000. (Biblioteca de cordel).
COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: ANDRADE, Maria do Carmo. Rodolfo Coelho Cavalcanti. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: . Acesso em: dia mês ano. Ex. 6 ago. 2009.
 

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