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Joalheria religiosa afro-brasileira
Lúcia Gaspar
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
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[...] As jóias usadas pelas mulheres africanas da Bahia são muito bonitas e de concepção muito original. Isto tanto para as que se tornaram livres quanto para as que são ainda escravas a serviço das grandes famílias, preocupadas com a afirmação de sua opulência até mesmo na riqueza dos ornamentos usados por seus escravos de casa. [...] (VERGER, 1981, p. 222)

Objeto de análise para estudiosos e pesquisadores, os adornos e joias afro-brasileiros já eram descritos e pintados por viajantes e artistas estrangeiros desde o período colonial.

Gilberto Freyre, no seu livro Nordeste faz uma detalhada descrição da sua variedade:

[...] Colares e contas grandes sob as rendas do corpete; no alto do braço esquerdo um grande bracelete de ouro; nos punhos, braceletes de contas de ouro e búzios da Costa da África; nas orelhas brincos de ouro ou pendentes de coral. Em seguida vem os balangandãs, uma espécie de argola de prata pendurada numa corrente do mesmo metal, chegando até a metade das costas. Diversos amuletos aí estão presos... [...] (FREYRE citado por VERGER, 1981, p.222).

Joias feitas em ouro e prata no Brasil Colônia significavam poder, tanto para os senhores, quanto para as escravas libertas, que mantinham o costume de enfeitar-se com exuberância, indiferentes ao desprezo das mulheres brancas, deixando para as gerações futuras a herança de objetos preciosos sobre a história do País, hoje conservadas em alguns dos seus museus. 

Nos cultos afro-brasileiros o principal papel das mulheres é o de representar os orixás por meio da dança ritual, onde as divindades são representadas por cores, materiais, gestos, posturas corporais e objetos, que funcionam como distintivos para o reconhecimento do orixá.  Entre esses objetos estão os fios-de-conta, quelês, brincos, pulseiras, braceletes e tornozeleiras.

Os fios-de-conta (ilequês), como diz o próprio nome, são contas enfiadas em fios. Convencionalmente feitos de palha-da-costa, foram depois substituídos pelo cordão de algodão e mais recentemente pelo náilon. Na Umbanda, são conhecidos como guias e no Mina, do Maranhão, principalmente nos terreiros de São Luís, como rosários. Desempenham inúmeros papeis nos cultos afro-brasileiros. As contas, dependendo das cores, identificam os deuses, assim como a forma como são utilizados associam seu usuário às divindades em termos de filiação mítica ou laços de devoção. Determinados tipos de colares, apontam também funções ou cargos sociais do seu portador. 

Segundo Raul Lody (2001, p. 59) “o fio-de-contas é emblema social e religioso que marca um compromisso ético e cultural entre o homem e o santo. É um objeto de uso cotidiano, público, situando o indivíduo na sociedade do terreiro” [...] 

Os materiais mais utilizados são massas, vidros, cerâmica e, mais recentemente, o plástico. Encontra-se também uma combinação de contas especiais com canutilhos de coral, assim como fios trançados de palha-da-costa ou buriti, com miçangas e búzios conhecidos como xubetas e mocãs. Além das contas de diferentes materiais, vários objetos compõem os fios-de-contas, determinando funções sociais e religiosas: figas, feitas de madeira, coral, osso, plástico, marfim, ouro, prata, alpaca; oxê, machado de dois gumes, confeccionado em latão dourado, prata, alpaca, metal prateado e ouro; moeda de prata; patuá de couro ou tecido; mão de pilão em prata, alpaca e metal prateado; ofá (arco e seta) de ouro, prata, latão e metal prateado ou dourado; medalha com imagens de santos católicos como São Jorge, São Cosme e São Damião; crina e cabelo, tufos encastoados em ouro, prata, alpaca, latão dourado e cobre; dente de animais (porco caititu, onça) e esporão de galos, normalmente encastoados de prata, alpaca e ouro; búzios encastoados de prata e alpaca; pomba do Divino Espírito Santo, feita em prata, alpaca e metal prateado; espada, faca e alforje (um tipo de bolsa), em cobre, prata, ouro, metal prateado e dourado; chifre de besouro encastoado em ouro.

Existem ainda os fios-de-conta especiais, compostos por diversos tipos de contas e materiais, alguns importados da África, o que aproxima e legitima os princípios da ancestralidade. São considerados especiais por critérios de raridade, estética, valor monetário e por serem considerados joias para o povo-de-santo. 

Os fios-de-conta, após a morte do seu dono, poderão ser colocados nos ebós fúnebres ou ter suas contas mais valiosas distribuídas entre pessoas da comunidade. Essas contas irão compor novos fios-de-conta ou ser incorporadas a algum já pronto, ou ainda ser utilizadas em brincos. Seja qual for o uso, terá que haver nova sacralização, para purificar a relação das contas com seu usuário de origem.

Os quelês são fios-de-conta dispostos em forma de gargantilha. Marcam os “períodos de iniciação religiosa ou de obrigações que implicam passagens no poder social do candomblé.” (LODY, 2001, p. 37).

Os brincos são feitos com diferentes contas, nacionais ou importadas, de cores, materiais e formas diversas: corais cilíndricos, encastoados de ouro, prata, alpaca e cobre; contas bicolores, rajadas e estampadas, normalmente de vidro, massa, louça e plástico; pitanga e pitanguinha, brincos de forma semelhante ao fruto, com um coral (ou massas coloridas imitando o coral) ao centro e trabalhado ao redor em prata, alpaca e ouro. Encontram-se, embora sejam mais raros, brincos trabalhados em ágata e âmbar; búzios, encastoados de ouro, prata e alpaca; argolas (pequenas, médias e grandes) e lunas, em ouro e prata.

As pulseiras, braceletes (ou braçadeiras) e tornozeleiras, usados cotidianamente,  são aros de latão dourado, cobre, ferro, alumínio, chumbo, prata, bronze, corais, couro, palha-da-costa trançada, com detalhes de búzios e contas. Como tornozeleiras são usadas ainda argolas de cobre, bronze, ferro, além da palha-da-costa trançada com guizo de latão ou outro material prateado ou dourado.

Para a construção desses objetos existe uma mão de obra especializada. São os ferramenteiros ou ferramenteiros de santo, os criadores da joalheria afro-brasileira, responsáveis pelas peças usadas nas cerimônias públicas e privadas dos cultos afro-brasileiros por todo o País.

Recife, 27 de junho de 2013. 

FONTES CONSULTADAS:

BELLANI, Angélica. Joias inspiradas na cultura afro-brasileira Navio Negreiro. 2005. 70 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Design) – Curso de Design, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005.  

JOALHERIA afro-brasileira. Disponível em: <http://tcconline.utp.br/wp-content/uploads//2013/05/JOIAS-INSPIRADAS-NA-CULTURA.pdf>. Acesso em: 19 jun. 2013.

LODY, Raul. Jóias de Axé: fios-de-contas e outros adornos do corpo: a joalheria afro-brasileira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

SAVI, Mônica Mariani. Joalheria de rituais afro-brasileiros: visão etnológica, função e relações religiosas, Florianópolis – SC. 2009.  Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Artes Plásticas )- Curso de Artes, Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2009.  Disponível em: <http://www.pergamum.udesc.br/dados-bu/000000/00000000000C/00000CAC.pdf>. Acesso em: 21 jun. 2013.

VERGER, Pierre. Noticias da Bahia – 1850. Salvador: Corrupio, 1981. 

COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: GASPAR, Lúcia. Joalheria religiosa afro-brasileira. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

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