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Terreiro do Bate Folha
Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
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Reconhecido como Território Cultural Brasileiro pela Fundação Palmares, e como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Terreiro do Bate Folha, ou Mansu Bandu Kenkê (Manso Banduquenqué), é um importante centro de culto afro-brasileiro de Nação Congo-Angola (ou apenas Angola), localizado no município de Salvador, Bahia.

O Terreiro do Bate Folha, situado na Rua Dionísio Brito Santana, antiga Travessa São Jorge, n. 65-E, bairro da Mata Escura do Retiro, é o maior da cidade em termos espaciais e um dos mais antigos em atividade. Fundado em 1916, por Manoel Bernardino da Paixão, ou Ampumandezu, ocupa uma área de 14,8 hectares, pertencente à Sociedade Beneficente Santa Bárbara, que o representa civilmente. É dedicado ao Inquice Bamburucema, equivalente a Santa Bárbara entre os santos católicos e a Iansã nos orixás. 

O trabalho com as folhas, cultivadas na mata sagrada (manhonga), deu nome ao terreiro. A valorização e o cultivo do conhecimento associado à flora pelos membros do terreiro fazem desse lugar, além de um centro cultural e espiritual, um espaço de preservação ambiental. O Bate Folha destaca-se pela enorme área ocupada por remanescente da Mata Atlântica, cerca de 70% da área total, onde estão árvores sagradas centenárias. 

Sob o comando de homens — visto que o cargo mais alto na rígida hierarquia deve ser ocupado por iniciados do sexo masculino e que entrem em transe —, no terreiro são cultuados inquices, divindades da tradição banto. Desde sua fundação, o Bate Folha foi liderado por seis sacerdotes, chamados de Tata: 

Manoel Bernardino da Paixão – Ampumandezu (1916 – 1946)
Antônio José da Silva – Tata Bandanguame – (1949 - 1965)
Pedro Ferreira – Tata Dijineuanga – (1965 -1970)
João José da Silva (Joca) – Tata Nebanji – (1970 – 1991)
Eduarlindo Crispiano de Souza – Tata Molundurê – (1991 – 2007)
Cícero Rodrigues Franco Lima - Tata Munguaxi – atual

Os rituais de iniciação e formação dos noviços são chamados de “barco”. Ao longo de sua existência foram realizados quinze “barcos” no Terreiro do Bate Folha. O processo de iniciação compreende um período de três meses de recolhimento total mais três de recolhimento parcial em espaços específicos do terreiro, chamados de runcó, o qual é fechado e interditado para leigos.

Os terreiros, lugares de preservação da memória, refletem em seus espaços físico e simbólico aspectos de sua sociedade de origem. No caso do Bate Folha, sua estrutura de ocupação assemelha-se à dos terreiros jêje-nagô, com exceção do área destinado ao processo de iniciação. Conforme descrição contida no Parecer n. 163/03- 7ª SR/ Iphan (IPHAN, 2003, f. 147),

na parte mais alta, plana e próxima à atual entrada principal estão localizadas as duas edificações principais do terreiro: a casa grande ou templo principal — onde estão o runcó, a cozinha ritual, as áreas de estar e os cômodos dos principais sacerdotes — e o barracão, onde têm lugar as celebrações públicas. Neste último prédio estão também os santuários de Lembá (Oxalá), Bamburucema (Iansã) e Unzanzi (Xangô). 
[...]
Na área fronteira a esses dois edifícios está localizada a maioria dos pequenos santuários individuais dedicados às divindades cultuadas no terreiro. [...] Ao fundo dos dois edifícios principais, encontra-se a casa dos Ogãs; o santuário do deus Tempo, numa gameleira; quatro assentamentos de Ungira (Exu) e, devidamente afastada da área de culto dos inquices, já dentro do mato, a casa de Vumbi ou dos antepassados.
 
As festas promovidas pelo terreiro são momentos de celebração e de socialização, bem como de demarcação de diferenças e semelhanças. A linguagem utilizada nos rituais, chamada de língua angola, é, na verdade, uma mistura de outras línguas africanas e da língua portuguesa e, de acordo com Serra (2002, p. 10), “funciona como um código religioso e um marcador de identidade”. 

De acordo com Raul Lody (IPHAN, 2001, f. 126-130), em comunicação para o Iphan no âmbito do processo de tombamento do Terreiro do Bate Folha, seu ciclo anual de festividades compreende onze festas, com momentos privados e públicos, fortemente associadas ao calendário católico:
 
Festa de Lemba – no primeiro sábado de janeiro, com duração de dezesseis dias, entre rituais privados e públicos, em homenagem ao inquice responsável pela criação do mundo e do homem;
Festa de Kavungo e Zumbá – no último sábado de janeiro, com duração de dezesseis dias, dos quais dois abertos ao público, dedicada aos inquices relacionados com a terra e com a criação do mundo;
Fecha – antes da Quaresma;
Abertura – no Sábado de Aleluia;
Festa de Kukueto – no último sábado de maio, com duração de dezesseis dias, em louvor ao inquice do mar e da maternidade;
Festa de Unkossi e Mutacolombô- no dia 13 de junho (dia de Santo Antônio) ou no primeiro sábado seguinte, durando dezesseis dias, consagrada aos inquices das matas e da caça;
Festa de Unzazi – no dia 24 ou dia 29 de junho, com duração de dezesseis dias é marcada pelas fogueiras;
Festa do Caboclo – em 2 de julho, quando se comemora Independência da Bahia;
Festa de Tempo – no dia 10 de agosto, (dia de São Lourenço no calendário cristão), com duração de dezesseis dias;
Festa de Ongorô e Katendê – no dia 24 de agosto ou em sábado subsequente, durando dezesseis dias;
Festa de Bamburucema e Dandalunda – em 4 de dezembro (dia de Santa Bárbara) ou no primeiro sábado seguinte.

O prestígio do Terreiro do Bate Folha na sociedade em geral e entre as outras nações é tal que Mãe Stella de Oxóssi, Yalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, solicitou o seu tombamento em nível federal, alegando a necessidade de se preservar um espaço de culto de nação Angola.

 A categoria nação utilizada no candomblé refere-se ao lugar de origem de seus fundadores e, consequentemente, à língua falada. Negros congos e angolas, como foram chamados no Brasil, são povos do grupo etnolinguístico banto, oriundos da região onde hoje são Angola e Moçambique. A sua presença no Brasil influenciou enormemente nossa cultura e nosso modo de falar. Utilizamos cotidianamente inúmeros termos de origem banto (cachaça, quitute, samba), a exemplo de candomblé, que significa rezar, cultuar, orar. 

O candomblé, resultado de trocas e adaptações entre diversas religiões de diferentes nações africanas trazidas para o Brasil durante o regime escravocrata, é um culto afro-brasileiro, nascido das conformações históricas e sociais de nosso país. Os terreiros, a exemplo do Bate Folha, além de sagrados, são espaços de resistência cultural e de preservação da memória, onde valores e saberes são transmitidos.
Recife, 30 de abril de 2014.

FONTES CONSULTADAS:

IPHAN. Processo de Tombamento n 1.486–T–01. Terreiro de Candomblé do Bate-Folha, município de Salvador, estado da Bahia. Salvador, 2001. v. I. 

_____. Parecer n. 163/03 – 7ª SR, de 22 de abril de 2003. Ref.: Processo n. 1.486-T-01 – Terreiro do Bate Folha, em Salvador, BA. Salvador, 2003.

SERRA, Oderp José Trindade. Laudo antropológico – exposição de motivos para fundamentar pedido de tombamento do Terreiro do Bate-Folha como patrimônio histórico, paisagístico e etnográfico do Brasil. 2008. Disponível em:
<http://ordepserra.files.wordpress.com/2008/09/laudo-bate-folha.pdf>. Acesso em: 10 mar. 2014.

COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: MORIM, Júlia. Terreiro do Bate Folha. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:
<
http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar> . Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 
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