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Cajuína
Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
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Sem álcool, clarificada, esterilizada e preparada do suco de caju, com uma cor amarelo-âmbar extraída da caramelização dos açúcares naturais do suco, a cajuína é uma típica bebida do Nordeste brasileiro. Produzida e consumida nos estados do Maranhão, do Ceará e do Piauí, é mais comum neste último, onde se tornou um dos mais conhecidos, difundidos e festejados símbolos da cultura popular. Seu nome deriva do “acaju” ou “acâi-ou”, do tupi “fruto que se produz, fruto do pomo amarelo”, que é o caju como se conhece e se aprecia hoje. 

A origem da cajuína está alicerçada na história indígena. O caju, originário da Amazônia, chegou ao Nordeste no processo migratório e prosperou a ponto de se transformar em uma das frutas mais associadas à região. O costume da “cauinagem” era tradicional entre as populações nativas brasileiras, merecendo ser descrito como um ritual. Era a transformação do caju, fruto abundante, no cauim, bebida servida e sorvida por todos. Com a integração entre os indígenas e os brancos, os descendentes de portugueses e os negros oriundos da África, vieram a miscigenação e a assimilação de costumes. Dessa forma, o cauim se tornou cajuína, adotando uma nomenclatura feminina que fazia jus à sua atividade produtiva — a bebida era feita apenas por mulheres. Levado pelas correntes indígenas que atravessavam o território nacional, o caju teve o consumo popularizado na mesma proporção que seu uso como propriedade medicinal. Quando, no decorrer dos anos, a castanha atingiu alto valor mercadológico, chegando a ser incluído no rol dos produtos a serem exportados, as políticas agroindustriais no Brasil valorizaram o caju e determinaram o surgimento de grandes plantações, o que contribuiu também para a difusão da cajuína.

Feita de maneira artesanal, não contém aditivos químicos artificiais em sua composição e produção. A preparação começa com o suco de caju e a separação do tanino existente no fruto com a adição de um agente precipitador. Antigamente, quem fazia esse papel era a resina do cajueiro; décadas depois, passou a ser a cola de sapateiro e atualmente é a gelatina em pó. Em seguida, a mistura é coada várias vezes em redes ou funis de pano, no processo denominado clarificação. O suco clarificado é então cozido em banho-maria, já em garrafas de vidro, até que seus açúcares sejam caramelizados. Isso permite, por exemplo, que a bebida possa ser armazenada por períodos de até dois anos antes de ser fruída ou comercializada.

É interessante perceber que o modo tradicional de produção da cajuína foi desenvolvido e aperfeiçoado com o passar do tempo. Por mais que as técnicas sejam semelhantes, cada núcleo produtor concebeu melhorias e buscou aprimorar técnicas específicas para que os sabores ficassem distintos. É por isso que cada garrafa de cajuína apresenta o gosto universal mas também as nuances da região onde é produzida. Nas estradas do Piauí, nas cidades do interior ou mesmo nos mercados de Teresina, a capital do estado, o visitante pode escolher entre várias “marcas” de cajuína, sabendo que estará levando um produto que orgulha e enobrece os piauienses.

Por isso tudo, o estado lutou para que a prática e os costumes que envolvem o processo de feitura da cajuína fossem legitimados historicamente. Em 2014, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sacramentou o registro da Produção Tradicional e Práticas Socioculturais Associadas à Cajuína no Piauí como Patrimônio Cultural Brasileiro. Entre as razões alegadas, uma certeza que há séculos havia nos corações e mentes dos nordestinos: a cajuína é mais do que uma bebida ou um item obrigatório em festividades típicas, é um elemento que faz convergir os valores de hospitalidade e os laços entre as famílias produtoras.

O pedido de registro foi apresentado pela Cooperativa de Produtores de Cajuína do Piauí (Cajuespi), com apoio do Governo do Piauí e com o entendimento de que se trata de um bem cultural surgido a partir de um ritual socioafetivo - antigamente, as garrafas eram dadas de presente em aniversários, batizados, casamentos e outros eventos comemorativos. Embora seja uma bebida, a cajuína é considerada um alimento e pertence à categoria dos doces, bolos, biscoitos e outros saberes (alguns deles, como a tapioca do Alto da Sé, em Olinda, ou o acarajé de Salvador também já referendados como patrimônio imaterial) dos lares nordestinos. Sua presença é um forte componente no processo de pertencimento e identidade dos piauienses e brasileiros.

Recife, 25 de maio de 2014.

FONTES CONSULTADAS:

CAJUÍNA do Piauí é o mais novo Patrimônio Cultural Brasileiro. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/portal/montarDetalheConteudo.do?
id=18441&sigla=Noticia&retorno=detalheNoticia
> . Acesso em: 16 maio 2014.

CAJUÍNA. ENCICLOPÉDIA Nordeste. Disponível em: <http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=
Caju%C3%ADna
>. Acesso em: 16 maio 2014.

FUNDAC. Processo de declaração de relevante interesse cultural do modo de fazer tradicional da cajuína no estado do Piauí. maio 2008. Disponível em:
<http://crcfundacpiaui.files.wordpress.com/2012/07/egistro-cajuc3adna.pdf>. Acesso em: 2 maio 2014. 

RIBEIRO, May Waddington Telles. A cajuína em dois momentos do processo de modernização do Piauí. Rev. de Economia Agrícola, São Paulo, v. 58, n. 1, p. 55-71, jan./jun. 2011. Disponível em:
<https://www.academia.edu/3769741/ajuina
_Revsta_de_Economia_Agricola_REA_5-1-11_1_
>. Acesso em: 5 maio 2014.

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: MORIM, Júlia. Cajuína. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:
<http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 
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