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O Bolo de Casamento ou Bolo de Noiva
Cláudia Verardi
Bibliotecária - Analista em C&T da Fundação Joaquim Nabuco

 
O costume de comemorar ocasiões especiais com bolo é bem antigo e os primeiros registros históricos são de mais de 7000 anos antes de Cristo e remontam à Palestina.
 
Segundo a Bíblia, três anjos foram à casa de Sara e Abraão para anunciar que eles, mesmo velhos, teriam filhos. O anfitrião pediu à mulher: "Depressa, amasse três medidas de farinha e faça bolos" — a melhor maneira de celebrar, com os visitantes, a dádiva concedida por Deus. Assim como Sara e Abraão, os homens vêm repetindo esse gesto de comunhão, em volta de bolos, ao longo dos séculos. (BRAGA, 2008, p.2).

O bolo de casamento é a principal iguaria nessa data festiva quando duas pessoas se unem em matrimônio. Essa deliciosa tradição possui uma história que está relacionada aos costumes da Roma Antiga. De acordo com Barrozo (2015?, p.2), as primeiras notícias que temos da confecção de bolos em casamento remontam à Roma Antiga. Os romanos eram na época os detentores das técnicas de fermentação e produziam um misto de bolo e pão recheado de frutas secas, mel, nozes e especiarias. O bolo, que mais se assemelhava a um pão, era rasgado sobre a cabeça dos noivos e quanto mais farelos caíssem sobre eles, mais prosperidade e fertilidade teriam.
Hoje em dia o desejo de prosperidade e felicidade é representado pela chuva de arroz atirada nos noivos na saída da celebração religiosa e alguns bolos possuem mais de um andar podendo significar também esses desejos. Um dos primeiros bolos de andares foi confeccionado para o casamento de Catarina de Médici, amante e inovadora da boa gastronomia, no século XVI.

O bolo de casamento de três andares teria, segundo Barrozo (2015?, p.9), um sentido: o primeiro andar seria o compromisso, o segundo, o casamento, o terceiro, a eternidade. Para as cortes europeias, a altura do bolo demonstrava o poder e a riqueza das famílias que se uniam; portanto, quanto mais altos, melhor.

De acordo com Bass (2015, p.2), vem do século XIX  (quando os bolos de vários andares se tornaram comuns) o costume de guardar a camada superior do bolo de casamento para ser servido no batizado do primogênito do casal, normalmente um ano após o casamento. Essa prática evitava a tarefa de planejar um bolo para o batizado, porém, com o passar do tempo, esse costume foi abolido devido ao fato de a maioria dos casais não planejarem ter um filho no primeiro ano de casamento. Atualmente comer juntos o bolo de noiva guardado no aniversário do primeiro ano de casamento faz com que o casal relembre aquele momento de felicidade e renove a alegria de estar juntos celebrando novamente o amor e a união.

A tradição pede que a primeira fatia do bolo seja cortada pelos noivos, ambos segurando a faca para cortá-la, sendo a noiva a primeira a experimentar a iguaria, depois o noivo e, posteriormente, os convidados. Esse momento tão românico do casal cortando o bolo juntos nasceu da necessidade de a noiva ser ajudada por causa da dificuldade de cortar as diversas camadas.

O bolo de noiva em Pernambuco é diferente dos bolos de casamento do restante do Brasil e tem uma história relacionada com a presença dos ingleses no estado. O sociólogo Gilberto Freyre escreveu um livro sobre a rica culinária pernambucana onde apresenta as receitas mais famosas e suas histórias. Freyre considera o açúcar um dos principais ingredientes na mesa do pernambucano, pois muitos são os doces típicos do estado, entre eles os bolos, tão apreciados nas "merendas" e festas familiares. O bolo de noiva ou bolo de frutas também recebe destaque por estar presente não só em casamentos, mas também em diversos momentos da vida dos pernambucanos.

O mês de maio é tipicamente conhecido como o mês das noivas. “E Maio é chamado de mês das noivas, hábito europeu, porque nele a primavera do hemisfério norte explode em flores e cores” (BRAGA, 2008, p.2) e é quando se celebram muitas bodas em todo o país, inclusive Pernambuco. Nesse período, é quando entra em cena e se destaca a receita tradicionalíssima do bolo de noiva do Nordeste que é inspirada no bolo de frutas inglês.

De acordo com Stradley  (2004, p.1), a mais antiga referência que encontramos sobre um bolo de frutas remonta à época romana. A receita inclui sementes de romã, pinhões e passas que misturavam-se em mash de cevada. Durante a Idade Média foram adicionados o mel, especiarias e frutas cristalizadas. Eram feitos inicialmente para os Cruzados e os caçadores se alimentarem durante os longos períodos de tempo fora de casa. E foi no século XV que os britânicos começaram seu caso de amor com o bolo de frutas, época em que chegaram os frutos secos do Mediterrâneo.

A receita original do Christmas Cake, ou bolo inglês, vem de uma antiga tradição que remonta à Revolução Francesa. Teve origem nas papas de aveia utilizadas para aliviar a fome por causa dos jejuns na noite de Natal. Com o tempo foram recebendo outros ingredientes, como os frutos secos, o mel e as especiarias. No século XVI, a aveia foi substituída por ovos, farinha e manteiga. O bolo era feito com muita antecedência, guardado numa caixa e borrifado semanalmente com brandy ou uísque até a noite de Natal.

No século XVIII, o bolo de frutas  já era inteiramente conhecido em toda a Europa Continental. Segundo Stradley  (2004, p. 2), entre 1837 e 1901, o bolo passou a ser extremamente popular e um "chá" não estaria completo se não fosse servida a iguaria. A própria Rainha Victoria teria esperado um ano para comer um bolo de frutas que ela recebeu na ocasião do seu aniversário.

A versão básica do bolo inglês mais conhecida no Brasil consiste em uma massa branca recheada com frutas cristalizadas e passas.

No estado de Pernambuco, foram feitas adaptações da receita do bolo inglês acrescentando alguns ingredientes como ameixas e vinho que somados às passas e frutas cristalizadas conferiu à massa um sabor muito marcante, resultando num bolo de consistência úmida e doce. Para incrementar ainda mais a receita, foi incluída também a cobertura de glacê à base de açúcar, claras de ovos e suco de limão para dar a beleza e o toque pessoal de cada doceira. Mais recentemente, também é utilizada a pasta americana para cobrir os bolos possibilitar lindas decorações.

O bolo de noiva é tão famoso no Estado que existem receitas de família guardadas a sete chaves, repassadas de geração a geração e que divergem de outras basicamente na quantidade de ingredientes utilizados, mas a tradição do bolo de frutas se mantém independentemente da disputa pelo título de melhor receita.
 
 
Receita do bolo de noiva preparado pela doceira pernambucana Ana Paiva:

Dificuldade: Média
Rendimento/porções: 30 fatias
Tempo  médio de preparo: 2 horas e meia

INGREDIENTES:
½ kg de açúcar refinado
½ kg de manteiga com sal
½ colher rasa (de sobremesa) de sal
9 ovos
½ kg de farinha de trigo
com fermento
500 ml de leite
400 g de achocolatado
Doce de ameixa (veja receita abaixo)
½ kg de frutas cristalizadas
½ kg de passas sem caroço (deixadas de molho em
750 ml de vinho moscatel por, pelo menos, 48 horas)
Dica: peneire os ingredientes secos

MODO DE PREPARO:
Bata a manteiga, com o açúcar e o sal, até que ela fique esbranquiçada
Adicione as gemas uma a uma e siga batendo
Acrescente a metade da
farinha de trigo e a metade do leite
Depois, a outra metade de ambos
Adicione o achocolatado
Coloque o doce de ameixa, as frutas cristalizadas, as passas e ½ xícara do vinho em que passas estiveram de molho
Bata tudo muito bem
Acrescente manualmente as claras em neve
Unte uma forma com margarina e polvilhe com farinha de trigo
Leve ao forno preaquecido
Faça o teste com um palito de dente: fure a massa e, se ele sair limpo, estará pronta

COBERTURA:
2 claras
½ kg de açúcar de
confeiteiro
Suco de 1 limão
Coloque os ingredientes na batedeira e bata até que a calda adquira consistência espessa de marshmallow
Quando estiver pronto, cubra o bolo

DOCE DE AMEIXA:
Bata ½ kg de ameixas sem caroço no liquidificador com 250 ml de água
Adicione ½ xícara de açúcar e leve ao fogo até ferver
Deixe esfriar para enfeitar
 
 
 
CURIOSIDADE: Na Inglaterra, era costume dos convidados solteiros do casamento colocarem uma fatia do bolo sob seu travesseiro à noite para que sonhassem com a pessoa com a qual se casariam.



Recife, 25 de maio de 2015.
Atualizado em 25 de outubro de 2016.
Atualizado em 28 de novembro de 2018.
 
 


FONTES CONSULTADAS:
 
 
 

BARROZO, Ruy. Bolo de casamento: história e significados. [2015?]. Disponível em: <https://www.hagah.com.br/roteiros/bolo-de-casamento-historia-e-significados-3353950>. Acesso em: 18 maio 2015.

BASS, Janece.  Por que comer o bolo de casamento um ano depois?. Tradução de Camille Sampaio. Disponível em: >.  Acesso em: 18 maio 2015.

BOLO DE CASAMENTO [imagem neste texto]. Disponível em: <http://www.muitochique.com/variedades/bolos-de-casamento-dicas-estilos-precos.html> Acesso em: 16 jun. 2015.

BRAGA, Ana. História do bolo de noiva pernambucano. 2008. Disponível em:<http://aninha-braga.blogspot.com.br/2008/08/histria-do-bolo-de-noiva-pernambucano.html>Acesso em: 20 maio 2015.

CASAMENTO & Cia. Bolo de casamento e sua tradição. Disponível em: <http://www.casamentoecia.com.br/?option=com_cerimonias_home&content=outras&id=520>. Acesso em: 20 maio 2015.

FREYRE, Gilberto. Açúcar: em torno da etnografia, da historia e da sociologia do doce no Nordeste canavieiro do Brasil. 3.ed. rev. aum. Recife: Fundaj, Massangana, 1987.
 
NO MÊS  das noivas, aprenda a fazer o bolo de casamento típico do Nordeste. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/comida/1087371-no-mes-das-noivas-aprenda-a-fazer-o-bolo-de-casamento-tipico-do-nordeste.shtml>. Acesso em: 28 nov. 2018.
 
STRADLEY, Linda. History of Fruitcake. 2004. Disponível em: <http://whatscookingamerica.net/History/Cakes/Fruitcake.htm>. Acesso em: 20 maio 2015.

UOL comidas e bebidas. Inspirado em receita inglesa, Bolo de Noiva é tradição no Nordeste: entrevista com a doceira Ana Paula Paiva. São Paulo, 2013. Disponível em: <goo.gl/QVp9wA>. Acesso em: 20 maio 2015.
 
 


COMO CITAR ESTE TEXTO:
 
 
 

Fonte: VERARDI, Cláudia Albuquerque. O bolo de casamento ou bolo de noiva. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 
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