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Maria Quitéria: Primeira mulher do Exército Brasileiro e heroína da Independência do Brasil
Cláudia Verardi
Bibliotecária - Analista em C&T da Fundação Joaquim Nabuco
 

Foto 1: Estátua “Maria Quitéria de Jesus, Soldado Medeiros”.
 
Maria Quitéria de Jesus Medeiros nasceu em Feira de Santana no dia 27 de julho de 1792, em uma pequena propriedade no Arraial de São José das Itapororocas, atual município de Feira de Santana, no estado da Bahia.
 
Era filha do português Gonçalo Alves de Almeida e de Joana Maria de Jesus. Sua mãe faleceu quando ela tinha dez anos de idade e ela assumiu a casa e cuidou de seus dois irmãos. O pai de Maria Quitéria casou pela segunda vez, mas em pouco tempo ficou viúvo. Posteriormente casou pela terceira vez e teve mais três filhos. O comportamento independente de Maria Quitéria não agradava à mulher de seu pai que o aconselhava a vigiar as atitudes da filha.

O Soldado Medeiros, como Maria Quitéria mais tarde ficou conhecida, não chegou a frequentar escolas, mas demonstrava, desde cedo, aptidão para usar armas de fogo bem como era habilidosa em montaria e caça.
 
Em 1821 começaram as agitações em Portugal por causa do início do movimento de independência do Brasil na Bahia, que fazia parte da Guerra da Independência do Brasil

Mesmo após a proclamação da Independência por D. Pedro I, na Bahia os portugueses resistiram. Ao contrário do que se imagina a proclamação às margens do riacho Ipiranga não permitiu verdadeiramente a Independência do Brasil que só veio a se concretizar após muitas batalhas por terra e por mar com a perda de muitas vidas.  A Independência na Bahia, apesar de ter antecedido a expulsão dos exércitos portugueses de Pernambuco e as reações insurgentes ao Dia do Fico, aconteceu antes da brasileira, e só teve seu desfecho no dia 2 de julho de 1823, praticamente um ano após o 7 de setembro de 1822.
 
Foi improvisada uma frota de saveiros com canhões roubados de Fortes da Baía de Todos os Santos para enfrentar a esquadra de Portugal. D. Pedro I enviou tropas comandadas pelo general Labatut e naus comandadas por Lo Cotrem, porém, de acordo com Oliveira (2019) a verdadeira luta foi do Exército de voluntários em batalhas secretas sendo a de Pirajá, bairro de Salvador, a pior delas.

O Conselho Interino do Governo da Bahia após serem deflagradas as lutas de apoio à independência em 1822, procurava voluntários para suas tropas para defender o movimento. Maria Quitéria então com 19 anos, decidiu se alistar no Exército e, para tanto, pediu autorização ao pai que negou o seu pedido.

De acordo com Ferraz (1923, p. 58) Maria Quitéria intercedeu e argumentou a sua vontade de participar na luta pela Independência mesmo sendo mulher, com essas palavras: É verdade, que não tendes filho, meu pai. Mas lembrai-vos que manejo as armas e que a caça não é mais nobre que a defesa da pátria. O coração me abrasa. Deixai-me ir disfarçada para tão justa guerra. Respondeu-lhe o pai: ‘Mulheres fiam, tecem e bordam; não vão à guerra’.
 
Não encontrando apoio do pai para se alistar no Exército Maria Quitéria decidiu desobedecer e fugiu para a casa de sua meia-irmã, Teresa Maria. Após cortar o cabelo e vestir as roupas do seu cunhado José Cordeiro de Medeiros, apresentou-se ao Regimento de Artilharia na vila de Cachoeira, como se fosse um homem. Com o nome de “Medeiros” passou a fazer parte do batalhão dos "Voluntários do Príncipe Dom Pedro".

Alguns anos depois seguiu com o Batalhão dos Periquitos (assim chamados por causa da farda verde) para a defesa da ilha de Maré e, logo após, para Conceição, Pituba e Itapuã. Participou também de batalhas na foz do Rio Iguaçú, integrando a Primeira Divisão de Direita.
 
No combate da Pituba, em fevereiro de 1823, demonstrou bravura ao atacar uma trincheira inimiga fazendo vários prisioneiros portugueses e escoltando dois deles sozinha para o cativeiro.
 
Tendo sido a primeira mulher a ser reconhecida por assentar praça numa unidade militar das Forças Armadas Brasileiras e a primeira mulher a entrar em combate pelo Brasil, foi promovida ao posto de Primeiro Cadete na Bahia tendo recebido as honras pelo General Pierre Labatut - Militar francês, veterano de guerra, que teve um papel de extrema relevância na Independência do Brasil, pois foi o organizador do chamado "Exército Pacificador" desde o Rio de Janeiro para os confrontos da Guerra de Independência do Brasil em Salvador conseguindo transformar civis, em um exército disciplinado que conseguiu derrotar e retirar os portugueses da Bahia. O Exército Pacificador segundo Kraay (2002, p. 2) possuía um efetivo de aproximadamente 15.000 homens.
 
Para formar esse Exército foram convocados também escravos, alguns foram confiscados de suas casas até mesmo sem a autorização de seus senhores que estavam viajando. Fato que posteriormente teria acarretado conflitos com algumas consequências para a sociedade escravista, pois os que serviram à Pátria poderiam se tornar homens livres, esse fato teria contribuído para enfraquecer a escravidão no país.
 
De fato, houve recrutamento de escravos na Bahia, mas foi um esforço muito improvisado, que não foi ordenado nem regulado por decreto. Antes, o general francês nomeado pelo imperador Dom Pedro I para comandar as forças patriotas na Bahia, Pierre Labatut, recrutou e alistou escravos que foram confiscados de senhores-de-engenho portugueses ausentes. Embora Labatut solicitasse autorização formal para tal recrutamento da junta patriota local, o Conselho Interino do Governo, ele não a recebeu, e pouco depois foi destituído do comando num golpe pacífico em maio de 1823 (por razões não ligadas diretamente ao seu empenho ao recrutamento de escravos). Contudo, a guerra desordenou profundamente a ordem social dessa sociedade escravista, da mesma maneira que os conflitos em outras regiões das Américas afetaram a instituição. A necessidade de mão-de-obra militar levou os patriotas a abandonarem a exclusão de não brancos das forças armadas regulares (o exército), vigente na época colonial, e contribuiu à fácil aceitação de trabalhadores escravos em funções militares auxiliares. A conseqüente proximidade de escravos e soldados levou inexoravelmente ao recrutamento de alguns escravos sob pretexto de serem livres. (KRAAY, 2002, p. 2).
 
Os portugueses foram cercados em Salvador por terra e mar e, acuados, decidiram então abandonar a cidade e fugir pelas vias marítimas. Assim foi encerrada no dia 2 de julho de 1823, a Guerra da Independência da Bahia (que foi um movimento que se iniciou no dia 19 de fevereiro de 1822). Pela manhã, o “Exército Pacificador” entrou vitorioso na cidade de Salvador agora livre do domínio português. Maria Quitéria marchava com o Batalhão saudada e homenageada pela população por haver se tornado exemplo de bravura e coragem.

Vale registrar que, a despeito do comportamento de Maria Quitéria, a escritora inglesa Maria Graham (Lady Maria Dundas Graham Callcott - escritora de  literatura  infantil e de informação, além de notável desenhista, pintora  e ilustradora), que a conheceu pessoalmente, ressaltou: “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educasse, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis” (BIBLIOTECA NACIONAL (BRASIL), 1940).
  
Desde 1826 passou a haver uma comemoração cívica na data da vitória, 2 de julho, que se fortaleceu durante o século XIX e competia com o 7 de setembro de 1822. 
 
Em 2 de julho de 1923, em Salvador, foi comemorado o primeiro centenário da Independência nacional na pretensão de estabelecer uma memória coletiva. Em comemoração à referida data, o Diário Oficial da Bahia publicou uma Edição Especial dando a conhecer todo o processo histórico do estado e o Diário de Notícias publicou:
 
...“A César o que é de César”: Embora se pensasse tirar o prestígio da Bahia, “jamais aquilo seria possível, pois a justiça da história aí esta para afirmar que no pedestal da glória, onde se erige a coluna memorável da nossa emancipação política, a Bahia ocupa, com muita justiça, a cúspide do monumento”. Que a Bahia foi a heroína da nossa Independência atestam o patriotismo de Maria Quitéria de Jesus Medeiros e as pugnas cruentas de 7 de janeiro em Itaparica, de 25 de julho em Cachoeira e o valor dos nossos bravos nos campos de Cabrito, Funil e Pirajá; que a Bahia foi mártir na Independência, afirma o sangue de nossos avós, tantas vezes derramado, nas legiões de Labatut e de Lima e Silva; mais ainda, o sangue augusto e glorioso de Joanna Angélica, no Convento de Lapa. O mesmo jornal, desconhecendo o lugar da memória nacional proposto pelo Rio de Janeiro, afirmou que o título de Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, oferecido a Pedro I, dava uma impressão de incoerência esquisita. As opiniões estavam divididas, entendendo alguns, como os liberais bombásticos de 1830, que ele havia sido ventoinhas e tirano, e outros que não passou de um mísero títere nas mãos hábeis dos chefes políticos do seu tempo. (LEDEZMA, 2009, p. 73).
 
Até hoje a Bahia celebra a data que marcou a história do Brasil e que relembra os heróis que lutaram pela Independência.
 

Foto 2: Desfile do 2 de julho de 2019.

Maria Quitéria se casou após deixar o Exército, com um antigo namorado chamado Gabriel Pereira de Brito, com o qual teve uma filha, Luísa Maria da Conceição.

Após a morte do marido Quitéria mudou-se para Feira de Santana, na intenção de receber parte da herança de seu pai que veio a falecer em 1834.  Ela acabou desistindo do inventário por causa da morosidade da justiça e foi viver em Salvador com a filha.
 
A heroína da Guerra da Independência, uma das principais mulheres da cultura nordestina, cujos feitos são comparados constantemente ao da mártir francesa Joana d'Arc, morreu praticamente cega e no anonimato, em Salvador, no dia 21 de agosto de 1853.
 
Maria Quitéria recebeu do Estado brasileiro o título de  Patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro em 1996.



Recife, 30 de outubro de 2019.
 
 
 

FONTES CONSULTADAS:
 
  

BIBLIOTECA NACIONAL (BRASIL). Maria Graham no Brasil. Anais da Biblioteca nacional do Rio de Janeiro. Rio de janeiro, 1940. v. 40, 335 p. Disponível em: <http://objdigital.bn.br/acervo_digital/anais/anais_060_1938.pdf>.
Acesso em: 30 ago. 2011.
 
DESFILE do 2 de julho na Bahia [Foto neste texto]. Disponível em: <https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2019/07/02/conheca-o-2-de-julho-na-bahia-
 
DUARTE, Cristina de Moraes. Viva o Nordeste: 15 célebres nordestinos que marcaram a cultura brasileira. Disponível em: <https://blog.chicorei.com/viva-o-nordeste-15-celebres-nordestinos-
que-marcaram-a-cultura-brasileira/>.Acesso em: 14 out. 2019.
 
ESTÁTUA "Maria Quitéria de Jesus, Soldado Medeiros" de José P. Barreto. de José P. Barreto - Salvador, BA [Foto 1 neste texto]. Disponível em: <https://www.flickr.com/photos/mariltontrabuco/3684251183>. Acesso em: 25 out. 2019. 
 
FERRAZ, Brenno. A guerra da independência da Bahia. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia, 1923.
 
FRAZÃO, Diva. Maria Quitéria: militar brasileira. Disponível em: <https://www.ebiografia.com/maria_quiteria/> . Acesso em: 14 out. 2019.
 
KRAAY, Hendrik. "Em outra coisa não falavam os pardos, cabras, e crioulos": o "recrutamento" de escravos na guerra da Independência na Bahia. Revista Brasileira de História, São Paulo v.22, n.43, 2002.

LEDEZMA, Gerson Galo. Religiosidade cívica na Bahia: comemorando o primeiro centenário da Independência a 2 de julho de 1923: entre a memória nacional e a memória regional. Revista Esboços, Florianópolis, Santa Catarina: UFSC, v. 16, n. 21, p. 69-87, 2009.
 
LOPES, Gabriella Assumpção da Silva Santos; SILVA, Marcela de Oliveira Santos. Heroínas bahianas: personagens femininas nas comemorações do centenário da independência da Bahia. In: XII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HISTÓRIA, 2014.
Anais... Aquidauana, Mato Grosso do Sul: UFMS/CPAQ, 13-16 out., 2014.
 
MARIA Quitéria. Resgate da Memória, n. 2, p.34-36, Jul. 2014. Disponível em: <http://200.187.16.144:8080/jspui/bitstream/bv2julho/840/1/RM_n02_Maria%20
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OLIVEIRA, Alan. Conheça o 2 de Julho na Bahia e a representatividade da data: com a palavra, os baianos. Disponível em: <https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2019/07/02/conheca-o-2-de-julho-na-bahia-
 
 


COMO CITAR ESTE TEXTO:
 
  

Fonte: VERARDI, Cláudia Albuquerque. Maria Quitéria: primeira mulher do Exército Brasileiro e heroína da Independência do Brasil. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php>. Acesso em: dia mês ano. Ex.: 6 ago. 2009.
 
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