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Casa-grande (engenho)

Maria do Carmo Andrade
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
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A casa-grande foi casa de morada, vivenda ou residência do senhorio nas propriedades rurais do Brasil colônia a partir do século XVI. Tudo no engenho girava em torno da casa-grande, sendo ela uma espécie de centro de organização social, política e econômica local. No Brasil colonial, a casa-grande era estrategicamente construída próxima ao engenho propriamente dito (fábrica), a senzala, a casa de farinha e a capela. Alguns sociólogos acreditam que a distribuição espacial das construções nos engenhos possibilitava maior convivência entre as diferentes classes sociais, o que teria tornado a experiência da colonização brasileira diferente de outras.

Naquela época, o poder e a riqueza dos donos de engenhos eram demonstrados através de luxuosas vestimentas e do grande número de escravos que possuíam. Havia uma preocupação maior com a aparência do que com a moradia ou a alimentação. As casas-grandes dos primeiros engenhos eram modestamente mobiliadas. Usavam-se redes e colchões para dormir, tamboretes e bancos para sentar. Na cozinha, os utensílios eram cerâmicas indígenas, objetos de estanho, prata e vidro.

O colonizador português não reproduziu no Brasil o estilo das casas portuguesas, preferindo criar uma casa que correspondesse ao ambiente físico brasileiro e que, ao mesmo tempo, atendesse as necessidades de trabalho e pessoais dos residentes. As casas-grandes eram erguidas visando à segurança e não à estética. Os donos de engenhos, chamados posteriormente de senhores de engenhos, sentiam-se inseguros com a possibilidade de ataques dos índios e dos negros, já que essas casas representavam o poderio feudal brasileiro. O senhor de engenho em sua propriedade, tinha poder total sobre a vida de seus escravos, empregados e moradores.

Por esse motivo, as casas eram construídas com alicerces profundos utilizando óleo de baleia e grossas paredes de taipa (barro amassado para preencher os espaços criados por uma espécie de gradeado de paus, varas ou bambus); pedra e cal; teto de palha, sapê ou telhas com o máximo de inclinação para servir de proteção contra o sol forte e as chuvas tropicais; piso de terra batida ou assoalho; poucas portas e janelas e alpendres na frente e dos lados. Todavia essas quase fortalezas, feitas para durarem séculos, não seriam suficientes para impedir que ainda “na terceira ou quarta geração”, começassem a desmoronar por falta de conservação.

Estudiosos em arquitetura consideram possível que as casas-grandes tenham assimilado elementos típicos das habitações indígenas, como os grandes espaços sem divisão, semelhante às ocas coletivas. A casa-grande, além de fortaleza, serviu de escola, enfermaria, harém, hospedaria, e foi também banco, pois dentro de suas paredes ou no chão, guardavam-se e enterravam-se dinheiro, jóias e ouro. Até nas capelas deixavam-se jóias enfeitando os santos (naquela época os ladrões não se atreviam, pelo menos não tanto quanto os de hoje, a entrar nas capelas para roubar os santos).

Outra particularidade das casas-grandes era o costume de enterrarem seus mortos dentro das capelas, que a partir do século XVIII, principalmente na Bahia e em Pernambuco, passaram a ser construídas como uma espécie de anexo da casa. Em algumas havia até um acesso privado para os familiares do senhor de engenho. Um exemplo desse tipo de construção era a casa-grande do engenho Poço Comprido, na Mata Norte de Pernambuco.

Os santos eram considerados parte da família, tanto quanto os familiares mortos. Em muitas casas-grandes conservavam-se os retratos dos familiares mortos no santuário, entre as imagens dos santos. É interessante observar que algumas igrejas resistiram mais a ação do tempo do que algumas das casas-grandes, como foi o caso da capelinha de São Mateus do Engenho Massangana, onde Joaquim Nabuco viveu oito anos da sua infância.

Por ocasião das comemorações do Ano Internacional Joaquim Nabuco (2010), a casa-grande e a capela do Engenho Massangana, que se transformou em Centro Cultural Engenho Massangana, situado no Km 10, da PE 60, município do Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, foram restauradas e abertas à visitação pública de segunda a sexta feira no horário de 8h às 12h e das 14h às 18h.

Além da proximidade entre mortos e santos era comum a comunicação dos vivos com os mortos. Por esse motivo, as casas-grandes frequentemente passavam a ser consideradas mal-assombradas. Com o costume de enterrar tesouros dentro de casa, muitas vezes o senhor de engenho morria sem ter tempo de dizer aonde havia escondido o tesouro. Daí ser comum “almas penadas” quererem indicar o lugar onde haviam enterrado seus (ou dos outros) tesouros, que eram chamadas de botijas; outras vezes,  desníveis no piso, tijolos soltos e outras causas, faziam cadeiras de balanço balançarem, portas se abrirem sozinhas, levando os vivos a acreditar que havia alguma alma se movimentando ou usando a cadeira. Eram muitas as histórias de assombrações.

A preocupação dos senhores de engenhos com a segurança foi se dissipando ao longo dos séculos XVII e XVIII. Com a chegada da corte portuguesa para o Brasil, no início do século XIX, começaram as mudanças nas condições gerais das casas-grandes. Elas se tornaram maiores e mais luxuosas, seus donos passaram a gastar mais dinheiro em móveis, objetos de arte, decoração e utensílios domésticos.

Nesse período, o material de construção também ficou mais diversificado. Além do material já existente, passou-se a usar também alvenaria de pedras e tijolos nas paredes; madeira recoberta com telhas cerâmicas nas coberturas; lajotas de barro e/ou assoalhos de madeira nos pisos. Usava-se também um tipo de tijolo circular que servia para construção de colunas para alpendres de capelas, casas-grandes, senzalas e, eventualmente, de fábricas. Tudo dependia das condições financeiras do senhor de engenho e da disponibilidade de material na região.

O início do uso da máquina a vapor nos engenhos, da Bahia e Pernambuco, em 1815 e 1817, respectivamente, promoveu grandes mudanças, principalmente quanto ao aumento da produção. Todavia, por ser um investimento caro, nem todos os senhores de engenho tinham disponibilidade financeira para instalar as inovações em suas fábricas. Em decorrência disso, muitos engenhos acabaram sendo incorporados por outros cujos donos tinham maior poder aquisitivo. Assim, um único senhor de engenho ou uma única família passou a ser proprietário de vários engenhos, através da compra, herança ou pelo casamento. O fato é que o número de senhores de engenho diminuiu, mas os que sobreviveram ficaram mais ricos e poderosos.

A riqueza mudou a vida dos senhores de engenho e de seus familiares, possibilitando a construção de novas casas-grandes e a reforma de outras. Nesse período surgiram três tipos de casas de engenho: o bangalô, o sobrado neoclássico e o chalé. A sociedade agrária, patriarcal, escravocrata do açúcar passou a ocupar a mais alta classe social da época.  A imagem de riqueza era evidenciada através de bonitas e confortáveis casas, devidamente equipadas com móveis em madeira de lei, louça de porcelana da melhor qualidade, títulos de nobreza, brasões gravados sobre os portais e outros objetos. As mulheres passaram a frequentar salões de festas, teatros e a viajar para capital da Província. Filhos eram mandados para estudar na Europa.

Ainda hoje podem ser encontradas em vários estados do Brasil casas-grandes remanescentes de diferentes períodos da história dos engenhos de açúcar, principalmente as do período áureo do ciclo do açúcar (entre os séculos XVI e meados do XVII). No engenho Poço Comprido em Vicência, Pernambuco, é mantido o conjunto casa-grande e capela com as características originais do século XVIII; no engenho Freguesia em Candeias, na Bahia, é mantido o conjunto, casa e capela que mostra bem a riqueza da época; em Quissamã no Rio de Janeiro, são conservados suntuosos casarões do ciclo do açúcar.

Algumas dessas casas foram convertidas em museus que testemunham esse longo período da historia do Brasil. Outra opção local para se conhecer um pouco sobre esse período é o Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco no Recife, que detém em seu acervo objetos e utensílios usados no cotidiano das casas-grandes de engenhos.

Recife, 15 de abril de 2011.

FONTES CONSULTADAS:

ANDRADE, Manuel Correia de. Historia das usinas de açúcar em Pernambuco. 2.ed. Recife: UFPE, Editora Universitária, 2001.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.

PIRES, Fernando Tasso Fragoso; GOMES, Geraldo. Antigos engenhos de açúcar no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

WANDERLEY, F. J. Casa Grande, Engenho e Capela: um reencontro com o passado. Revista do Museu do Açúcar, Recife, v.1, p.91-96, 1968. 

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: ANDRADE, Maria do Carmo. Casa-grande (engenho). Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 

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