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Caldo de cana

Maria do Carmo Andrade
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
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Caldo de cana ou garapa é uma bebida extraída diretamente da cana-de-açúcar através de um processo de moagem relativamente simples, principalmente quando a engenhoca para moagem da cana passou a utilizar a energia elétrica. Primeiro raspa-se a casca da cana para eliminar as sujeiras, depois as canas são prensadas ou espremidas e o caldo cai em uma jarra já pronto para ser consumido. Por isso, na região Nordeste, há um ditado popular que se diz: "Na hora, feito caldo de cana", querendo se referir à rapidez com que algo foi realizado.

A origem do consumo do caldo de cana está ligada à própria exploração da cana-de-açúcar e ao processo de produção da cachaça, que foi aprimorado desde a descoberta do vinho da cana, conhecida como garapa azeda, logo após a chegada da cana-de-açúcar ao Brasil, no século XVI. Os escravos foram os primeiros a tomar a bebida que restava nos tachos de rapadura, antes apenas fermentada. Foram também eles que começaram a destilar a mistura, então chamada de cachaça. A título de ilustração, vale salientar que nas usinas de açúcar o caldo da cana é a matéria prima na fabricação de açúcar, assim como o é também para o etanol e a cachaça. O resíduo industrial da destilação para fabricação do álcool e da cachaça resulta no melaço ou “mel de furo”.

O líquido (suco) tem grande valor nutricional. Hoje em tempos globalizados, há quem considere o caldo de cana um biocombustível para o organismo humano. Já foram desenvolvidas pesquisas cientificas no intuito de comprovar a eficácia da dieta com caldo de cana no desempenho físico e na recuperação da massa muscular dos atletas. Pesquisadores da Unicamp estão planejando transformar o caldo de cana num pó que poderia ser diluído em água.

O caldo de cana é composto basicamente de água e sacarose e conserva todos os nutrientes da cana-de-açúcar: minerais, ferro, cálcio, potássio, magnésio, cloro, vitaminas do complexo B e C; contém ainda glicose, frutose, proteínas, amido, ceras, ácidos graxos, corantes, ácidos fenólicos e flavonóides. O consumo de 250 ml de caldo equivale à ingestão de 40mg de fenólicos, sendo então uma importante fonte desses compostos antioxidantes na dieta. Contudo, o conteúdo protéico do caldo de cana é extremamente baixo, constituindo-se num alimento não balanceado. Há grande variedade de cores e tipos de cana. Existe a de cor roxa, branca, amarela, verde, rajada, vermelha e do tipo canina, rainha, tiririca, ubá cristalina, caiana e outras.  A cana caiana é a mais usada para extração do caldo.

É muito apreciado no Brasil principalmente na Zona da Mata onde a cultura da cana-de-açúcar sempre predominou, não apenas pelo seu sabor, mas também pelo grande valor energético que tem. Entre os habitantes do interior é costume tomar caldo de cana acompanhado de pão doce, um lanche gostoso e barato; outros preferem colocar umas gotinhas de limão. Há os que apreciem o caldo mesmo depois de iniciado o processo de fermentação, quando ele adquire sabor semelhante ao do aluá, bebida fermentada típica das festas juninas brasileiras, similar ao quentão, no Sudeste do Brasil.

Com a expansão do consumo do caldo de cana, surgiram variados tipos e modelos de moendas, embora todos os modelos estejam em uso, desde o mais rudimentar até o mais moderno. Afinal a técnica de moagem é basicamente a mesma: a cana entra por um lado e o caldo sai pelo outro. Esses moedores ou engenhocas estão presentes não apenas no interior e na zona rural, mas também nas capitais. O caldo de cana há muito “ganhou o mundo”, melhor dizendo, o caldo de cana virou mania até na China.

É vendido em carrinhos, barracas, mercados públicos, trailers, lanchonetes. As possibilidades de servir o caldo também foram ampliadas. Podes-e tomar um caldo de cana com o nome de “suco energético” ou “jacaré” que nada mais é que caldo de cana, couve e limão, assim como tomá-lo com gengibre e outras combinações. Hoje o caldo pode vir acompanhado de pastel e até do strudel (bolo feito com massa folhada, recheada com maçã, passas, pão ralado, açúcar, manteiga e canela).

Segundo o escritor, pesquisador e folclorista Mario Souto Maior, os habitantes do interior e da zona rural, geralmente com dificuldades de acesso à medicina científica, procuram desenvolvê-la empiricamente, ou seja, usando suas próprias experiências para cuidar das enfermidades. E como não poderia deixar de ser, o caldo de cana é utilizado no tratamento de algumas enfermidades, que a sabedoria popular indicou ou contra indicou. Entre outras, relacionamos as seguintes:

1. NO RESGUARDO (período subsequente ao parto, em que a mulher observa certos cuidados, repouso).

Nesse período o caldo de cana poderá provocar hemorragias. Porém, passado o resguardo, o caldo é bom para ajudar na produção do leite materno.

2. XIXI NA CAMA

Antes de dormir a criança não deve tomar o caldo da cana, pois criará o hábito de urinar na cama.

3. HEMORRÓIDAS

Quando se tem problemas de hemorróidas não se deve tomar o caldo de cana, pois isso pioraria a situação.

4. SANGUE LIMPO

O caldo de cana, tomado de manhã e antes do banho, serve para limpar o sangue de pereba, sarna, cabeça-de-prego.

5. CICATRIZANTE

Quando se dá um corte deve-se usar uma lã molhada com o caldo de cana, que atua como hemostático e cicatrizante.

6. SUBSTITUTO DA ÁGUA

No Sertão quando os cavalos vão fazer uma longa caminhada, a água que tomariam depois de comerem a ração (milho) é substituída pelo caldo de cana. Assim se tornam mais fortes para agüentar a viagem.

7. EMBRULHAMENTO NO ESTÔMAGO

O caldo de cana é usado para provocar o arroto, quando o estômago está embrulhado.

Recife, 30 de agosto de 2011.

FONTES CONSULTADAS:

CALDO de Cana (imagem neste texto). Disponível em: <http://mdemulher.abril.com.br/blogs/karlinha/saude/vai-malhar-tome-caldo-de-cana/>. Acesso em: 18 out. 2011.

CRUZ, G. L. Cana-de-açúcar Saccharum Officinarum, Lineu Família das Gramíneas. In: ______. Livro verde das plantas medicinais e industriais do Brasil. Belo Horizonte: [s. n.], 1965. v. 2,  p. 216-220.

PODEROSO, saudável e natural. Disponível em:  <http://olharglobal.net/2008/09/04/caldo-de-cana-energtico-poderoso-saudvel-e-natural/>. Acesso em: 31 ago. 2011.

SOUTO MAIOR, Mário. Gostosuras populares da cana e do açúcar. Brasil Açucareiro, Rio de Janeiro, ano 41, v. 82, n. 2, p. 32-34, ago. 1973. Publicado também em: Comes e bebes do Nordeste. 3. ed. Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 1985. p. 46.

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: ANDRADE, Maria do Carmo. Caldo de Cana. Pesquisa Escolar online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia  mês  ano. Ex.: 9 ago. 2011.

 

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