Home
Ciganos no Brasil
Lúcia Gaspar
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.

Roupas coloridas, tendas alegres e olhares atentos ao destino alheio. A maneira como o povo cigano se relaciona com a história brasileira o coloca na condição de agente e vítima das impressões que governantes, policiais e toda a sociedade criam sobre homens que tinham suas vidas alteradas pelo deslumbramento que causavam. [...]
Dos debates acadêmicos às conversas informais, os ciganos são retratados a partir de sentimentos que oscilam entre o fascínio que suas tradições exercem e os temores alimentados por estigmas e superstições atrelados ao seu estilo livre
[...] Perseguidos ou incorporados à nossa hierarquia social, os ciganos são mais do que leitores do futuro, podendo ser considerados também escritores do nosso passado. [...]
(Dossiê Medo e Sedução, Revista de História, Biblioteca Nacional, n. 14, 2006, p. 15.)

Originários provavelmente da Índia, os ciganos chegaram ao Brasil na segunda metade do século XVI, expulsos de Portugal como degredados. 

É provável que os primeiros ciganos degredados de Portugal tenham chegado ao Brasil nas décadas de 1560 e 1570. Há registros de ciganos acusados e condenados a cumprir pena no Reino que, por motivos pessoais, solicitaram a comutação da pena pelo degredo, sendo então enviados para a Colônia. 

Por não conseguir êxito na integração dos ciganos à sociedade portuguesa, além da necessidade de povoar os territórios de além-mar, Portugal enviou vários indivíduos e suas famílias, primeiro para a África e depois para o Brasil. Esperava-se que os ciganos ajudassem a povoar áreas dos sertões nordestinos, ocupadas por índios. Apesar de serem considerados perigosos, o Reino preferia os ciganos aos indígenas.

A primeira lei portuguesa a impor o degredo data de 28 de agosto de 1592. Os homens deveriam se integrar à sociedade ou abandonar o Reino, em no máximo quatro meses, do contrário ficavam sujeitos à pena de morte e suas mulheres seriam degredadas de forma perpétua para o Brasil. 

Um decreto de 18 de janeiro de 1677 impôs o degredo de ciganos para a Bahia ou para as capitanias do Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Rio de Janeiro, entre outras. Também o deportação entre colônias foi imposta a ciganos infratores por diversas vezes e sob vários pretextos. Houve ainda tentativas de separar homens e mulheres, com o objetivo da extinção dos ciganos como povo.

Não se tem conhecimento de documentação que contenha informações sobre a quantidade de ciganos deportados para o Brasil na época, nem para quais destinos ou por quais motivos, principalmente a partir de 1718, quando aumentou a  deportação de ciganos na política portuguesa.

Pereira da Costa, na sua obra Anais pernambucanos, traz informações sobre os  ciganos em Pernambuco no ano de 1718: 

[...] Os ciganos andavam em bandos mais ou menos numerosos, e aqueles que não se entregavam à pilhagem, e a certos negócios, como a compra e venda de cavalos, nos quais os indivíduos pouco experientes sempre saíam logrados, eram geralmente caldeireiros ambulantes e onde quer que chegassem, levantavam as suas tendas, e saíam à procura de trabalho que consistia, especialmente, no conserto de objetos de latão e cobre. As mulheres, porém, importunas, astutas e minimamente loquazes, saíam a esmolar, e liam a buena dicha pelas linhas das mãos, predizendo a boa ou má-sorte do indivíduo, mediante uma remuneração qualquer. [...]

[...] Os ciganos diziam-se cristãos, mas batizavam os filhos várias vezes, como um laço armado aos obséquios e proteção dos compadres; e tinham a sua Germânia ou gíria particular a que o vulgo dava o nome de geringonça.

Documentos históricos comprovam que houve um grande crescimento populacional e econômico da comunidade cigana na Bahia. Salvador, a primeira capital colonial brasileira, tornou-se a cidade mais importante para os ciganos no Brasil.

Da Bahia, muitos deles foram em direção a Minas Gerais, causando desconforto para as autoridades da época, que tentaram de várias maneiras impedir a presença deles na região por ser considerado um povo desobediente e malcriado

Existem notícias de ciganos em São Paulo, no ano de 1726, quando foram solicitadas providências às autoridades para sua expulsão, dentro de 24 horas, sob pena de serem presos, uma vez que era um povo afeito a jogos e outras perturbações. Em 1760, os vereadores paulistas resolveram expulsar um bando de ciganos composto de homens, mulheres e filhos, por causa de queixas da população, também num prazo máximo de 24 horas.

Há ciganos nos quatro cantos do território brasileiro desde os primórdios de sua história.

No século XIX, um grupo de ciganos acompanhou D. João VI na sua vinda para o Rio de Janeiro, em 1808. Eram artistas de teatro que vinham com a missão de distrair a Corte Portuguesa.

A partir da Primeira Guerra Mundial, 1914 a 1918, houve um grande número de famílias ciganas que imigraram para o Brasil, oriundos principalmente, de países do Leste Europeu. Ao chegar, eles se dedicaram ao comércio de burros, cavalos, ao artesanato de cobre, às atividades circenses, viviam em barracas e praticavam o nomadismo. Hoje, poucos ciganos ainda são nômades no Brasil. 

De acordo com dados do Censo 2010 do IBGE, existem no País cerca de 800 mil ciganos. Pela primeira vez foram mapeados oficialmente os acampamentos ciganos no País. A pesquisa do IBGE encontrou assentamentos em 291 cidades brasileiras, concentradas, principalmente, no litoral das Regiões Sul, Sudeste e Nordeste, destacando-se o estado da Bahia, com o maior número de grupos. Vivem em tendas de lona, que são geralmente montadas em terrenos baldios.

Em São Paulo, há informações sobre acampamentos em 25 municípios, entre os quais a capital, Sorocaba e Campinas. A maioria dos ciganos vive do comércio e as mulheres se dedicam a leitura de mão. Grande parte da população cigana vive em casas e não praticam mais o nomadismo.

Não foram encontrados acampamentos nos estados do Amapá, Roraima, Amazonas, Rondônia e Acre.
De uma maneira geral, há uma taxa muito alta de analfabetismo entre eles, além de não estarem incluídos em programas governamentais de assistência social à saúde ou educação. 

Hoje, existem dois grandes grupos de ciganos no País: 

o Calon, oriundo de Portugal, que fala o dialeto caló, é tradicionalmente nômade, ligado ao comércio de cavalos, carros, correntes e artefatos imitando ouro. As mulheres praticam a quiromancia em praças públicas, exibem dentes de ouro e pintas (sinais) no rosto;

o Rom, vindos principalmente do Leste Europeu e que falam a língua romance (romani). No Brasil, encontram-se ciganos dos seguintes subgrupos Rom: Kalderash que se dizem “puros”, alguns ainda nômades, trabalhando no comércio de carros e as mulheres na quiromancia e cartomancia; Macwaia ou Matchuai, vindos basicamente da Sérvia (antiga Iugoslávia), vivem sedentários em grandes cidades, não se identificam com o vestuário cigano e, na sua maioria, sobrevivem de atividades da arte advinhatória; Horahane, de origem turca ou árabe, com atividades semelhantes aos Matchuaias. Vivem principalmente no Rio de Janeiro e só poucos ainda são nômades; Lovaria, um grupo de poucas pessoas que se dedica ao comércio e à criação de cavalos e é basicamente sedentário; e os Rudari, também em número reduzido, dedicados ao artesanato de ouro e madeira, sedentários e que também vivem basicamente no Rio de Janeiro.

No sertão da Paraíba, numa área menos nobre de Sousa, município localizado a 420 quilômetros de João Pessoa, há uma comunidade de ciganos do ramo dos Calons que, por questões de sobrevivência, deixou de lado o nomadismo e fincou raízes no local há mais de 25 anos. Apesar da falta de informações oficiais sobre a quantidade de habitantes, é composta por cerca de duzentas famílias e considerada a maior comunidade cigana do Brasil. Eles moram em casas simples, de alvenaria ou taipa, e vivem em condições muito precárias. Não têm acesso aos serviços públicos básicos e enfrentam problemas comuns às comunidades carentes como o desemprego e o alcoolismo. 

As primeiras discussões sobre a inclusão dos ciganos aos direitos sociais só começaram no País a partir de 2002. Pela Constituição Federal de 1988, a etnia cigana foi incluída na classificação de minorias étnicas. 

Atualmente, foram concretizadas algumas ações governamentais a nível nacional:  a instituição do Dia Nacional do Cigano, comemorado em 24 de maio, em homenagem à sua padroeira, Santa Sara Kali; a criação do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) e a publicação de uma cartilha de direitos da cidadania cigana. Existem também algumas ações pontuais e regionalizadas, fruto de articulações com outros segmentos da sociedade civil organizada.

Para o povo cigano é muito importante o sentimento de pertencer a um grupo, a um clã ou tribo e o cumprimento do código da etnia. Os seus dialetos (romani, sinto, caló entre outros) são ágrafos, ou seja, não possuem escrita e o nomadismo, reconhecido como uma referência da identidade cigana, em muitos casos, lhes foi imposto devido às constantes perseguições, preconceitos e hostilidade de que foram e continuam sendo vítimas.

Recife, 23 de agosto de 2012.

FONTES CONSULTADAS:

BARROS, Carlos Juliano. Uma vila cigana no sertão paraibano: descendentes de nômades, eles se fixaram no Nordeste e enfrentam pobreza e preconceito. Problemas Brasileiros, São Paulo, ano 47, n. 397, p. 58-62, jan./fev. 2010.

BUENO, Virginia R. S. A globalização e o espaço do cidadão: espaço global, mundo fragmentado. Travessia: Revista do Migrante, São Paulo, ano 10, n. 27, p. 15-21, jan./abr. 1997.

COSTA, Elisa Maria Lopes da. Ciganos em terras brasileiras. Revista de História, Rio de Janeiro, ano 2, n. 14, p. 16-19, nov. 2006.

COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Anais pernambucanos. Recife: Arquivo Público estadual, 1953. V. 5, p. 299-303.

DERLON, Pierre. Tradições ocultas dos ciganos. São Paulo: DIFEL, 1975. 238 p. 

MOONEN, Frans. As minorias ciganas e o direito: projeto de estudo interdisciplinar. João Pessoa: UFPB, MCS, 1995. 51p. (Cadernos de ciências sociais, 36).

PEREIRA, Cristina da Costa. Povo cigano. Rio de Janeiro: MEC Editora, 1986. 266 p. 

SENNA, Ronaldo. A seda esgarçada: configuração sócio-cultural dos ciganos de Utinga. Feira de Santana, BA: UEFS, 2005. 284 p. 

SOUZA, Mirian Alves de. Ciganos, Roma e Gypsies: categorias de atribuição e classificações identitárias. Travessia: Revista do Migrante, São Paulo, n. 67, p. 37-44, jul./dez. 2010.

TEIXEIRA, Rodrigo Corrêa. História dos ciganos no Brasil. Recife: Núcleo de Estudos Ciganos, 2008. 127 p. Disponível em: <http://www.etnomidia.ufba.br/documentos/rct_historiaciganosbrasil2008.pdf>. Acesso em: 13 jul. 2012.

VANELLI, Marta. Nomadismo Cigano: migração dos excluídos. Cadernos do CEOM, Chapecó, SC, ano 23, n. 32, p. 257-266, jun. 2010. 

COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte:GASPAR, Lúcia. Ciganos no Brasil. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

Busca "Palavra-chave"

Busca "A a Z"