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Casa das Minas / Querebendã de Zomadônu
Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
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A Casa das Minas, ou Querebentã de Zomadônu, localizada na Rua São Pantaleão, atual Rua Senador Costa Rodrigues, 857/857a, bairro da Madre de Deus, em São Luís, é a mais antiga casa de religião afro-brasileira do Maranhão e uma das mais antigas do Brasil. Foi, provavelmente, fundada em meados do século XIX por negros jeje oriundos do sul de Benin (antigo Daomé). 

A memória oral, transmitida entre as gerações, conta que a Casa das Minas foi fundada por Maria Jesuína – que adorava Zomadônu e que teria passado pelo ritual para se tornar mãe ainda na África. Poucas informações sobre a fundadora da casa foram repassadas pelas integrantes mais velhas às mais jovens, entretanto há a possibilidade de Maria Jesuína ter sido a Rainha Nã Agotimé, ou ter sido filha de santo dela, apesar do nome da rainha não ser reconhecido pelas filhas da casa. (FERRETTI, 1996, p. 59). 

De acordo com Ferretti (2008, p. 19), 

[Pierre] Verger apresentou a hipótese, confirmada em 1985 por experts da UNESCO, de que a rainha Na-Agontimé, viúva do rei Agonglô e mãe do futuro Rei Ghezo, foi vendida por um enteado aos negreiros e trazida para São Luís, no Maranhão, onde se tornou conhecida como Mãe Maria Jesuína, de Toi Zomadônu, que fundou a  Casa das Minas e introduziu o culto dos voduns do Daomé no Brasil. Zomadônu é considerado o vodum mais poderoso do Reino Fon em Abomey e seu nome significa “não se põe o fogo na boca”, que traduz a importância dos segredos para essa religião. 

O documento mais antigo de que se tem notícia sobre a Casa das Minas é a escritura do prédio da esquina, data de 1847 e está em nome de Maria Jesuína e suas companheiras. As primeiras mães, chefes da casa, eram africanas. De acordo com relatos de integrantes da casa, algumas tinham o rosto com marcas tribais e mal falavam português (FERRETTI, 1996, p. 59). Já nas primeiras décadas do século XX, as mães eram crioulas. Durante 40 anos (1915-1954), a casa foi dirigida por Mãe Andresa, que se destacou por sua bondade, grande conhecimento religioso, articulação entre outras casas e com a sociedade em geral (ela recebeu diversos pesquisadores durante sua gestão, entre eles Roger Bastide e Pierre Verger). Atualmente, a Casa está sob o comando de dona Deni, iniciada por Mãe Andresa. (FERRETTI, 2012).

Um templo onde todos os seus espaços são sagrados, a Casa das Minas ocupa uma área de 1.500 m2, em um bairro populoso e antigo, e é composta por três edificações térreas, sendo duas geminadas, interligadas internamente por um pátio central, constituindo um formato de U. Duas delas foram construídas no século XIX, uma, na primeira metade, e outra, na segunda; e a terceira, na segunda metade do século XX.  O espaço arquitetônico é dividido em conformidade com divisões entre voduns: cada parte da casa é destinada a famílias específicas das entidades africanas cultuadas. Por exigência do culto, na Casa há vários ambientes com terra batida: o comé ou quarto de todos os voduns; o pátio ou gume; a varanda de dança ou guma; a cozinha onde se preparam os alimentos dos rituais em caldeirões de ferro sobre tempre, feito com fogo a lenha no chão. No quintal, como um pedaço da floresta sagrada africana, há árvores consideradas sagradas e plantas locais com efeitos medicinais utilizadas nos cultos. 

As pedras de assentamento da Casa, que recebem a força de voduns e representam divindades, também chamadas de fundamento, foram trazidas da África por suas fundadoras. Estão assentadas em várias partes da casa e acredita-se que lá reside a força mágica das divindades e é por onde chega primeiro a força do vodun, antes de ir para as filhas. 

A comunidade da Casa das Minas é composta em sua maioria por mulheres, que detêm papéis e cargos importantes. Os homens têm atuação específica e limitada, com a função principal de tocar os tambores (eles não recebem voduns). É um grupo religioso discreto e muito tradicional que cultua divindades chamadas de voduns: entidades a quem se pede ajuda; que possuem defeitos e estão espalhados para administrar o universo; que estão hierarquicamente entre os homens e os santos e, assim, fazem o intermédio entre eles.

As divindades cultuadas estão dividas em três grupos ou famílias: Davice, Quevioçô e Dambirá, cada uma com características próprias. Os Davice são da família real, formada por voduns que são nobres. Os Quevioçô, quase todos mudos, são das águas e dos astros. Os Dambirá são da terra, combatem doenças e pestes e curam com raízes e remédios. 

Os voduns masculinos são chamados de toi e os femininos de nochê. Os voduns mais jovens são chamados de toqüês ou toqüenos. Há também as tobossis (meninas), entidades femininas infantis, recebidas apenas por vondúnsi-gonjaís, aquelas que fizeram um processo especial de iniciação para serem filhas completas. Contudo, não há mais nenhuma gonjaí viva (as últimas morreram na década de 1970), de modo que estas entidades não frequentam mais a Casa das Minas. 

Os cultos e ritos promovidos pela Casa das Minas são dirigidos aos cerca de 45 voduns cultuados. O toque dos tambores e os cânticos os chamam. Cada médium só pode ter um vodun, entretanto este pode ter mais de uma filha, também chamada de dançante. Enquanto estão de posse das vondúnsis, os voduns não comem, não bebem e não dormem, de modo que eles não podem ficar horas demais para não debilitá-las. Como o vodun é força, o médium precisa se preparar para recebê-lo. Cada vodun tem um papel específico junto à natureza – água, ventos, plantas, doenças – e adora um santo. Assim sendo, as pessoas pedem ajuda ao vodun e este pede a seu santo de adoração. 

As cerimônias, divididas em uma parte pública e uma privada, acontecem majoritariamente em dias de importantes santos católicos. Geralmente as festas duram três dias: a véspera, o dia do santo e o dia seguinte. É nesses dias que os voduns se comunicam com seus fiéis. As dançantes os recebem por meio do transe. Os voduns dançam, cantam e brincam. Nos intervalos visitam seus filhos, dão conselhos, ensinam remédios. 

Segundo Ferretti (1996), são realizadas aproximadamente dez festas por ano, divididas nas seguintes categorias: festas de aniversário de voduns, festa do Divino e festas de obrigação. As de aniversário devem ser promovidas pela dançante daquele vodun e tem duração de um dia. A do Divino dura cinco dias e ocorre entre os meses de maio e junho. As de obrigação são especiais, duram três dias e não podem deixar de ser realizadas. São elas: 4 de dezembro, dia de Santa Bárbara; 25 de dezembro; 19, 20 e 21 de janeiro, quando se comemora São Sebastião; antes do carnaval; Quarta-feira de Cinzas; Sábado de Aleluia. Para o autor “as festas de terreiro são, pois, uma obrigação realizada por devoção e promessa, ao mesmo tempo que uma brincadeira em compensação ao seu caráter penoso de obrigação”. (FERRETTI, 1996, p. 142).

A continuidade da Casa das Minas vem sendo objeto de preocupação de estudiosos. As atividades da Casa das Minas são exercidas com rigidez, fazendo com que novos integrantes não se sintam atraídos. O quadro reduzido de participantes, a perda de rituais importantes, a preservação dos segredos (sem serem repassados), o crescimento de religiões pentecostais e a perseguição a terreiros contribuem para seu declínio. Em artigo, Ferretti (2012, p. 7) reflete acerca desse processo:

a Casa das Minas encontra-se em declínio há muito tempo. Este declínio se acentuou após a morte das últimas gonjaí na década de 1970. Mas como desde 1914 não foram preparadas outras gonjaí, podemos concluir que desde esta data se inicia praticamente o declínio da Casa, embora tenha havido períodos com maior número de participantes no grupo de culto. 

Mesmo assim, a Casa das Minas prossegue realizando suas obrigações e vem estabelecendo estratégias para a continuação de suas atividades, a exemplo da promoção de festas do catolicismo e da cultura popular. Cabe destacar que, ainda que haja um processo de declínio, a Casa das Minas é um exemplo de resistência, visto que outras casas da mesma época não existem mais.

Em 2000, como uma forma de resistência e permanência, assim como de reconhecimento dos quase duzentos anos de atuação, a chefe da casa solicitou o tombamento da Casa das Minas em nível federal. O pedido foi uma demanda ao Estado por valorização e por proteção jurídica de seu espaço físico, garantindo assim sua continuidade. O Parecer da 3ª Superintendência Regional do Iphan (BRITO; BOGÉA, 2001), que recomenda o tombamento do terreiro, destaca seu inegável valor etnográfico “apesar do suposto fim da vida ativa da Casa das Minas”. O Parecer de Luiz Phelipe Andrès, membro do Conselho Consultivo do Iphan, órgão responsável pela preservação do patrimônio nacional, ressalta o papel do espaço físico da casa:

Em última análise, o Querebentan de Zomadonu sobreviveu até os nossos dias porque os rituais foram preservados, e os rituais foram preservados porque eles possuem seu “lócus” de celebração que é a Casa. A Casa é o corpo, e como tal é “orgânica” em seus materiais e formas (ANDRÈS, 2001, p.6-7).

Em defesa do tombamento, Ferretti (2000, p. 6) alega: 

A Casa das Minas é um dos exemplos mais expressivos de afirmação de identidade étnica por afro-brasileiros e de valorização de uma cultura, mesmo quando esta não é vista pelos de fora como a mais evoluída ou autêntica. Por essas e outras razões, merece ser tombada como bem cultural pelo patrimônio histórico.

Em 2005, o terreiro da Casa das Minas (o imóvel) foi inscrito como patrimônio nacional no Livro do Tombo Histórico e no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico reconhecendo sua importância e, consequentemente, a contribuição do negro para a construção da nação brasileira.

Recife, 7 de maio de 2014.

FONTES CONSULTADAS:

ANDRÈS, Luiz Phelipe de Carvalho Castro.  Parecer do membro do Conselho Consultivo do IPHAN, Luiz Phelipe Andrès sobre o Processo nº 1464-T-00 de Tombamento da Casa das Minas. In: COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE (Org.). Boletim On-Line n. 24, São Luis, p. 4-7, dez. 2001. Disponível em:< http://www.cmfolclore.ufma.br/arquivos/b9763d00ea737bafaeb3ec1e6d3b1a26.pdf>. Acesso em: 17 mar. 2014.

BRITO, Stella Regina Soares de; BOGÉA, Kátia Santos. Parecer da 3ª SR/IPHAN, de 17 de agosto de 2001, à folha 178 do Processo de Tombamento nº 1464-T-00 – Terreiro Casa das Minas. Mimeo.

FERRETTI, Sérgio. Querebentã de Zomadônu – Etnografia da Casa das Minas do Maranhão. 2. ed. rev. atual. São Luís: EDUFMA, 1996.

______. A importância da Casa das Minas do Maranhão. In: COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE (Org.). Boletim On-Line n. 16, São Luís, p. 5-7, ago. 2000. Disponível em: <http://www.cmfolclore.ufma.br/arquivos/4abbce9b6d214e578683cf72f03e1325.pdf>. Acesso em: 12 mar. 2014.

______. Estórias da Casa Grande das Minas Jeje. In: IPHAN. Casa das Minas, Querebentã de Zomadonu. São Luís: Iphan, 2008. p 15-24.

______. O longo declínio da Casa das Minas do Maranhão – um caso de suicídio cultural? 2012. Disponível em: <http://www.museuafro.ufma.br/arquivos/5e467aa1f2be08c8c4f0d4cf2190c346.pdf>. Acesso em: 10 mar. 2014. 

COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: MORIM, Júlia. Casa Das Minas/Querebentã De Zomadônu. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 
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