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Sítio de Pai Adão / Terreiro de Ilê Obá Ogunté
Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
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O bairro de Água Fria, no Recife, foi o lugar escolhido por Ifatinuké para estabelecer seu terreiro, o Ilê Obá Ogunté, uma das casas matrizes do culto afro-brasileiro pernambucano, hoje também conhecido como Sítio ou Terreiro de Pai Adão. 

A história oral conta que Ifatuniké, que assumiu no Brasil a identidade de Inês Joaquina da Costa (Tia Inês), teria sido de família real na África, de onde foi trazida na condição de escrava. Após liberta, adquiriu um terreno em Água Fria, onde fundou seu terreiro no último quartel do século XIX. O primeiro toque realizado pelo terreiro teria ocorrido em 1875. 

Com a morte de Tia Inês em 1919, a chefia do terreiro teria sido assumida por José Quirino que, poucos meses depois, passou a liderança religiosa para Pai Adão, que era filho-de-santo e assistente de Tia Inês. Pai Adão teria ido à Nigéria aprofundar o conhecimento sobre a tradição e a língua Iorubá. O papel de liderança desempenhado no terreiro e no culto religioso afro-brasileiro foi de grande destaque. Pai Adão viajava pela Nordeste brasileiro para auxiliar outras casas de culto e, até hoje, mesmo após mais de setenta anos de sua morte, o terreiro é conhecido por seu nome. Com o falecimento de Pai Adão em 1936, a sucessão na casa vem sendo feita a partir da relação de parentesco biológico ou de santo com os fundadores do terreiro. Atualmente, o babalorixá da casa é Manoel Papai e a ialorixá é Mãe Luiza.

Localizado na Estrada de Água Fria, 1644, no bairro homônimo, no Recife, numa área de 4.190m², o terreiro é um dos mais antigos e mais importantes templos de culto afro-brasileiro de Pernambuco. De nação Nagô-Egbá, segue a tradição dos povos iorubanos. É consagrado a Iemanjá, divindade das águas, vinculando-se, assim, à cidade do Recife, entrecortada por rios e banhada pelo mar.

A estrutura física do Sítio de Pai Adão é marcada por uma edificação principal, duas árvores sagradas e residências. O prédio principal é composto por uma capela dedicada a Santa Inês, alguns espaços sagrados (Peji, Balé, salão de dança, cozinha de dentro e de fora, quartos de apoio) e três pequenas residências. Estes ambientes são ligados por um terraço. No restante do terreno, estão dez residências de moradores e as duas árvores sagradas de grande porte, localizadas na entrada, um pé de abricó/gameleira, e nos fundos do terreno, o Iroco.

A grande importância simbólica do Iroco, uma gameleira, está relacionada à sua origem — em uma versão, a compra do terreno onde está o terreiro se deu pela existência dessa árvore no local. Em outra, sua semente teria sido trazida da África por Tia Inês — e ao fato de, na época de grande repressão policial aos cultos afrodescendentes, nos anos 1930 e 1940, indumentárias e imagens dos orixás terem sido escondidas em seu interior, que é oco. No Sítio de Pai Adão a árvore é tida com um templo onde são cultuados os ancestrais, os Eguns.

A capela, que teria sido construída pela fundadora do terreio, Tia Inês, abriga objetos relativos à religião católica, como imagens de santos, e também relativos ao Xangô, a exemplo de símbolos, indumentárias e louças dos Orixás. Atualmente constitui-se em mais um espaço de memória, uma vez que está havendo maior distanciamento com o catolicismo.
 
Presente no cotidiano local, o terreiro tem forte influência no bairro e na cidade do Recife. Segundo Lody (1993), o terreiro integra, participa e atua na vida da população. Instalado num bairro de forte presença da cultura popular, mantém  estreitas ligações com as festas de Carnaval e de São João. Além de atender a comunidade, disponibilizar espaços para visitação e celebração e promover ações de cidadania, o terreiro mantém relação com casas de outras nações, formando uma rede. Possui, no país e até no exterior, dezenove casas filiadas, ou seja, aquelas cujos pais e mães de santo foram iniciados no Terreiro de Pai Adão. 

As festas promovidas pelo Terreiro de Pai Adão são abertas à participação de todos, inclusive frequentadores e integrantes de outros terreiros. Antigamente os toques tinham início no sábado e término na segunda-feira. Entretanto, devido à violência urbana, a maioria das festas está sendo realizada aos sábados das 16 às 23 horas, com exceção da Festa de Iemanjá que tem início à noite e termina ao raiar do dia. Dentre as festividades destacam-se a Festa de Ogum, em abril; a Festa de Oxum, em julho; e a Festa de Iemanjá, em novembro. Esta última é a mais importante de todas, visto que Iemanjá é o orixá da casa. Além disso, é a festa que abre os toques a Iemanjá no estado, ou seja, o primeiro presente a Iemanjá sai do Sítio de Pai Adão.  

O Terreiro de Pai Adão, conforme destacou Raul Lody em pedido de tombamento ao Governo do Estado, é um “verdadeiro polo, centro catalizador e ao mesmo tempo irradiador da cultura africana” é está “presente na fisionomia cultural da cidade”. (LODY, 1993).

Em 1985, o terreiro de Pai Adão foi tombado pela Fundação do Patrimônio Artístico e Histórico de Pernambuco (Fundarpe) num ato de “reconhecimento da legitimidade de uma tradição cultural que até há pouco tempo fora objeto de discriminação e até perseguições oficiais” (LODY, 1993). 

Atualmente, está em andamento um processo de instrução de tombamento em âmbito nacional para que o Ilê Obá Ogunté seja reconhecido como patrimônio do Brasil, logo, um local de memória e de ação dos afro-brasileiros de grande valor para o país. 

Recife, 20 de maio de 2014.

FONTES CONSULTADAS:

BRANDÃO, Maria do Carmo; MOTTA, Roberto. Adão e Badia: carisma e tradição no xangô de Pernambuco. In: SILVA, Vagner Gonçalves da (Org.). Caminhos da alma: memória afro-brasileira. São Paulo: Summus, 2002. p. 48-87.

IPHAN. Relatório Analítico. Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) do Ilê Obá Ogunté/Sítio de Pai Adão (PE). Recife, 2012. v. 1.

LODY, Raul. Terreiro Obá Ogunté: Seita africana Obaoumin – um estudo sobre a organização do Terreiro, sua importância para o Xangô Pernambucano e para a cidade do Recife. 1993. Mimeo. Não paginado.

COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: MORIM, Júlia. Sítio De Pai Adão/ Terreiro Ilê Obá Ogunté. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

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