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Terreiro do Gantois / Ilê Axé Iyá Omin Iyamassê
Júlia Morim
Consultora Fundaj/Unesco
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Citado por Jorge Amado, cantado por Caymmi, retratado por Carybé, o Terreiro do Gantois ou Ilê Axé Iyá Omin Iyamassê é o mais famoso e um dos mais importantes terreiros do País. Forma com o Terreiro da Casa Branca e o Ilê Axé Opô Afonjá, cujas origens são comuns, uma tríade difusora do culto afro-brasileiro no Brasil.
 
Fundado na primeira metade do século XIX, provavelmente decorrente de um processo de dissidência do Ilê Axé Iyá Nassô Oká (Terreiro da Casa Branca) —sabe-se que a primeira Ialorixá do Gantois foi iniciada no Casa Branca —, o seu nome africano, Ilê Axé Iyá Omin Iyamassê , faz alusão a uma divindade feminina, senhora das águas. Já o nome em português refere-se ao antigo proprietário do terreno onde está estabelecido o terreiro: um europeu chamado Gantois. 

O terreiro está situado na Rua Mãe Menininha do Gantois, s/n (antigo Alto do Gantois, n.23), bairro da Federação, Salvador, Bahia, e ocupa uma área de cerca de 3.600 m2, entre a parte cumeada do morro e o vale. Seus espaços são divididos em áreas de acesso público, semipúblico e restrito.

 No alto, o templo principal, ou barracão, é formado por salão de festas públicas, clausura, cozinha sagrada, sala-refeitório, vestuário e cômodos residenciais. Como anexo ao templo, há o Memorial Mãe Menininha do Gantois. Nessa área, ainda estão os santuários (ilê orixá) de Omolu, Ogum e Exu, uma gameleira sagrada associada a Iroko e uma jaqueira sagrada dedica a Ogum.

Na encosta há uma vegetação densa, ou “mato” (abô) de Oxossi, que representa a natureza, origem de todas as coisas. No “mato” estão plantas utilizadas nos rituais, de forma que a vegetação é parte essencial para o funcionamento do terreiro. Na parte mais baixa do terreno há um santuário para Oxum, uma fonte e residências de membros da comunidade de culto. Como antigamente o terreiro ocupava uma área bem maior que foi sendo perdida pelo crescimento urbano, há árvores sagradas que são cultuadas pela comunidade do Gantois no Largo da Pulqueria, que é uma praça pública. Todo o espaço do terreiro é marcado por referências simbólicas e a realização de “liturgias cíclicas em torno a monumentos do terreiro assinalam sua área total como um templo” (SERRA, p. 10). 

De tradição religiosa Ketu, o Ilê Axé Iyá Omin Iyamassê é comandado por uma Ialorixá (sacerdotisa), cargo máximo ocupado apenas por mulheres iniciadas e que tenham laços de parentesco com as fundadoras. Portanto é um cargo hereditário, cuja escolha da sucessora se dá, após a morte da mãe, por meio de um rito de consulta aos orixás chamado de jogo de búzios. Dentre as Ialorixás do Gantois, sobressai-se Mãe Menininha do Gantois, que presidiu a casa por sessenta anos e ganhou reconhecimento e destaque como liderança religiosa no país.
 
De acordo com Serra (p.6-8), a ordem de ocupação do cargo de sacerdotisa no terreiro foi a seguinte:

Maria Júlia da Conceição Nazaré; 
Pulqueria Maria da Conceição Nazaré, ou Iyá Pulqueria;
Maria da Glória Nazareth;
Maria Escolástica da Conceição Nazaré (filha de Glória), conhecida como Mãe Menininha do Gantois;
Cleusa Millet (filha de Mãe Menininha);
Carmen Oliveira.

Ainda que seja predominante a presença de negros e trabalhadores de baixo poder aquisitivo, o Terreiro do Gantois tem filhos de diversas origens e classes sociais. Para integrar a comunidade religiosa, o individuo é iniciado por meio de ritos específicos e, assim, contrai uma relação de filiação com os antepassados nagô, os fundadores. Para os que lá são iniciados, o terreiro é tido como “um lugar de origem: o sítio onde renasceram.”(SERRA, p.9).

O candomblé, resultado de trocas e adaptação entre diversas religiões de diferentes nações africanas trazidas para o Brasil para o trabalho escravo, é, desse modo, um culto afro-brasileiro, nascido das conformações históricas e sociais de nosso País. Os terreiros, a exemplo do Gantois, são espaços sagrados,
 
marcos urbanos e paisagísticos e importantes testemunhos históricos da resistência cultural dos povos africanos e de sua luta para, nas condições adversas da escravidão, construir o espaço religioso e de transmissão cultural que lhe era negado. 
Os terreiros de candomblé são, ainda, lugares privilegiados de transmissão de conhecimentos tradicionais religiosos e medicinais, de produção cultural, de preservação de memórias ancestrais e, como já mencionado, de preservação das línguas africanas que já não tem uso cotidiano. (SANT’ANNA, 2012, p. 28). 

Para fugir da repressão policial e do preconceito, mas também para ter privacidade em determinados rituais, o terreiro instalou-se em local outrora isolado e longe do adensamento urbano. Ao longo dos anos, a região foi agregando pessoas e se tornou um bairro populoso, o que fez com que, aos poucos, o Terreiro do Gantois fosse sofrendo perda de área, inclusive para abertura de vias públicas. 

Com a forte pressão imobiliária ameaçando sua permanência, em 1982, Mãe Menininha realizou um contrato com a proprietária das terras, adquirindo o direito de uso. Estudos realizados pelo Projeto de Mapeamento de Sítios e Monumentos Religiosos Negros na Bahia, executado pela então Fundação Nacional Pró-Memória, Prefeitura Municipal de Salvador e Fundação Cultural do Estado da Bahia, levou, em 1985, a Prefeitura a declarar, por lei, a área do terreiro como Área de Preservação Cultural e Paisagística, o que é um reconhecimento oficial de sua importância e um modo de assegurar sua permanência. Em 2000, foi solicitada a proteção em âmbito federal da área delimitada pela Lei Municipal visando garantir sua integridade, ameaçada por invasões territoriais incompatíveis com a prática, conforme consta no pedido assinado por Mônica Millet, neta de Mãe Menininha do Gantois: 

Lembramos que todo esse conhecimento se transmite apenas por intermédio da comunicação oral. Nosso único livro é o chão em que pisamos e os signos nele inscritos são as coisas e as pessoas que sobre ele se movimentam. A sobrevivência desse sofisticado sistema simbólico depende, portanto, de um santuário concreto, deste lugar sagrado em que se concentra e se reproduz a prática cultural coletiva que é o candomblé da Bahia. (IPHAN, 2000, p. 2).

 Em 2002 o tombamento do Terreiro é aprovado para inscrição nos Livros do Tombo Histórico e do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), um reconhecimento de sua importância para o país e um meio de salvaguardar seu espaço físico e, consequentemente, simbólico. 

Recife, 22 de abril de 2014.

FONTES CONSULTADAS:

IPHAN. Processo de tombamento n. 1.471-T-00. Terreiro de Candomblé Ilê Axé Iyá Omin Iyamassê. Salvador, 2000.

_____. Parecer Técnico n. 383/02 – 7ª SR/IPHAN, de 2 de setembro de 2002. Terreiro do Gantois, Ilê Axé Iá Omin Iamassê, em Salvador/BA. In: IPHAN. Processo n. 1.471-T-00 – Terreiro de Candomblé Ilê Axé Iyá Omin Iyamassê. Salvador, 2002. f. 085-099.

SANT’ANNA, Márcia. O tombamento de terreiros de candomblé no âmbito do IPHAN: critérios de seleção e de intervenção. In: IPHAN. Políticas de Acautelamento do IPHAN para Templos de Culto Afro-Brasileiros. Salvador, 2012. p. 25-33.

SERRA, Ordep. Laudo antropológico: exposição de motivos para a instrução de pedido de tombamento do Terreiro do Gantois/Ilê Axé Iá Omin Iamassê como Patrimônio Histórico e Etnográfico do Brasil. Disponível em:

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: MORIM, Júlia. Terreiro do Gantois/Ilê Axé Iyá Omin Iyamassê. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:
<http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
 

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