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Entrudo

Lúcia Gaspar

Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco

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Era no tempo em que ao carnaval se chamava entrudoo tempo em que em vez das máscaras brilhavam os limões de cheiro, as caçarolas d’água, os banhos, e várias graças que foram substituídas por outras, não sei se melhores se piores.

 

                                                Um dia de entrudo, Machado de Assis

 

 

 

Entrudo, do latim introitu (introdução) é sinônimo de carnaval e, no Brasil, também designa uma antiga brincadeira carnavalesca, trazida pelos colonizadores portugueses, no século XVI. Sua designação refere-se ao período que introduz a Quaresma (do latim quadragesima), data cristã que é utilizada para designar o período de quarenta dias que antecedem à Páscoa e que começa na Quarta-feira de Cinzas e termina no Domingo de Ramos. O Entrudo acontecia nos três dias anteriores à Quarta-feira de Cinzas.

 

Em Portugal, era conhecido como “dias gordos”, por ser uma festa onde havia abundância de vinho, carne e sexo, contrapondo-se à quarentena da Páscoa, período de abstinência, jejum e penitência para os católicos.

 

Conhecido como Gordo Entrudo, era festejado também em diversos países da Europa.

 

São raros os registros sobre o Entrudo no Brasil nos séculos XVI a XVIII. Só a partir do século XIX é que há várias informações sobre a festa, realizada em praticamente todas as regiões brasileiras.

 

A brincadeira, que persistiu durante o Brasil Colônia e o Brasil Império, consistia basicamente em atirar água uns nos outros, utilizando-se jarras, vasilhas, seringas, bisnagas. Complementava-se o “banho” com farinha, goma, barro ou cal.

 

Era uma festa simples que contava com uma boa dose de espontaneidade e improviso, prescindindo de grandes preparativos como acontecia com as festas públicas.

 

Cerca de dois meses antes do evento, começava a fabricação de limas, laranjas ou limões de cheiro - pequenos objetos com a forma e o tamanho de uma laranja, feitos de cera fina, contendo produtos perfumados que eram usadas também nas “guerras carnavalescas” do Entrudo. Depois se começou a utilizar materiais pouco recomendáveis como lama, frutas podres e urina.

 

As famílias normalmente brincavam em um espaço privado, previamente escolhido. As ruas e praças serviam de palco para as classes menos favorecidas, como os homens livres pobres e os escravos. Esses últimos, só podiam brincar em horários permitidos pelos senhores, quando não havia muita demanda de trabalho. Geralmente, saíam às ruas tatuados ou pintados de branco ou vermelho, ao anoitecer, dançando e cantando ao som de instrumentos musicais de percussão como atabaques, marimbas e zabumbas.

 

No que se refere à culinária típica no período do Entrudo podem ser citados o filhós e o sonho, doces que eram comercializados pelos negros, livres ou escravos, em tabuleiros ornamentados, espalhados pelas ruas da cidade.

 

Pelo menos dois viajantes estrangeiros registraram nas suas crônicas o Entrudo em Pernambuco: o inglês Henry Koster, no seu livro Viagens ao Nordeste do Brasil (1816) e o francês Louis-François Tollenare nas suas Notas dominicais tomadas durante uma viagem em Portugal e no Brasil em 1816, 1817 e 1818.

 

Na época do Brasil colonial, o Entrudo era um dos maiores entretenimentos públicos, celebrado tanto nas cidades como no campo.

 

Apesar de ter havido por parte das autoridades públicas tentativas de proibir o Entrudo no Brasil Colônia - há registros de avisos e alvarás contrários à brincadeira desde o século XVII -  foi só a partir da década de 1820 e, principalmente, na de 1830, que intensificou-se a proibição e o combate ao Entrudo, através de campanhas sistemáticas.

 

Em 1822, com a Independência do Brasil, houve modificações na estrutura político-organizacional do país, trazendo mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais, com o objetivo de construir um novo Estado Nacional.

 

A partir da década de 1830, a campanha contrária à brincadeira ganhou um grande reforço com a entrada da imprensa, poderoso instrumento de informação e penetração social.

 

Nos jornais e publicações da imprensa pernambucana podem ser encontrados diversos registros de protestos e críticas ao Entrudo. O jornal O Carapuceiro (1832-1847), publicado no Recife pelo Padre Lopes Gama, em 1834, condenava abertamente a brincadeira, atribuindo-lhe um caráter bárbaro, grosseiro e pagão. Com isso, ajudava a construir a idéia de que o folguedo tinha origem em festas e cultos religiosos da época do paganismo ou pré-cristã, além de incentivar o espírito de oposição a tudo que vinha do português colonizador, intensificando o sentimento de nacionalidade, que aflorou após a Independência do Brasil.   

 

Diario de Pernambuco também fazia uma campanha sistemática contra o Entrudo, atribuindo-lhe origens pagãs, responsabilizando-o por fomentar sentimentos indecentes e promover desordens e crimes, acarretando selvageria e violência. Em 1837, o jornal publicou um artigo condenando o Entrudo, mas diferentemente dos outros, sugeria que os festejos fossem dignos d’hum povo civilisado, decente, moderado e com modo.

 

Folhinha de Almanak ou Diario Ecclesiastico e Civil para as Províncias de Pernambuco, Parahyba, Rio Grande do Norte, Ceará e Alagoas, publicada no Recife, em 1858 (p. 96), traz um regulamento para a brincadeira na época:

 

 

                       

ENTRUDO E MASCARAS

 

Extracto do regulamento de 2 de fevereiro de 1858

 

He expressamente prohibido o jogo de entrudo com água, limas de cheiro, lama, fructas podres e outro qualquer objecto.

Os mascaras não podem usar de caracter alusivo à religião ou pessoas designadas.

Os escravos não podem usar de mascaras.

As armas dos mascaras serão de papelão ou madeira frágil.

Os mascaras por occasião do carnaval só podem transitar pelas ruas até as 8 horas da noite.

Não se permitte fazer perguntas ou travar conversações com o s mascaras, que não sejam decentes: assim como o procurar descobrir o segredo dos mascaras.

Serão punidos os mascaras que praticarem actos indecentes ou provocarem rixas.

 

 

Apesar de todos os protestos, críticas e tentativas de condenar e proibir o Entrudo, especialmente os jogos que se realizavam nos espaços públicos, o folguedo  encontrava-se muito arraigado no inconsciente coletivo do folião. Nos anos de 1960, a brincadeira fazia parte do Corso, no chamado mela-mela.

 

 O Entrudo continuou a existir, com algumas modificações, animando o carnaval do Recife até a década de 1970, quando foi decidido acabar-se com a passarela da Avenida Dantas Barreto e fazer o chamado carnaval participação em todas as ruas do centro, mantendo-se o trânsito de veículos coletivos normal. A brincadeira perdeu o clima e desapareceu.

 

 Nos subúrbios e periferia da cidade, no entanto, o mela-mela ainda perdurou por muito tempo, principalmente como uma brincadeira levada a cabo por crianças que se divertiam em promover o mela-mela  com talco, farinha de trigo, batom, goma e dar banhos de água nos desavisados que passavam nos carros com as janelas abertas.

 

 

Recife, 31 de março de 2008.

(Atualizado em 28 de agosto de 2009). 

 

FONTES CONSULTADAS:

 

 ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. Festas : máscaras do tempo : entrudo, mascarada e frevo no carnaval do Recife. Recife: Prefeitura. Fundação de Cultura, Cidade do Recife, 1996.

 

ENTRUDO: In: DICIONÁRIO Cravo Albin da música popular brasileira. Disponível em: <http://www.dicionariompb.com.br/verbete.asp?tabela=T_FORM_C&nome=Entrudo>. Acesso em: 8 fev. 2008.

 

RABELO, Evandro. Memórias da folia: o carnaval do Recife pelos olhos da imprensa 1822-1925. Recife: Funcultura, 2004.

 

SETTE, Mário. Entrudo e frevo. Anuário do carnaval Pernambucano, Recife, 1938.

 SILVA, Leonardo Dantas. Carnaval do Recife. Recife: Prefeitura. Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2000.

 

COMO CITAR ESTE TEXTO:

 

Fonte: GASPAR, Lúcia. Entrudo. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 
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