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João Martins de Athayde

Lúcia Gaspar

Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco

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         O poeta popular e editor de folhetos João Martins de Athayde nasceu no povoado de Cachoeira de Cebolas, município de Ingá do Bacamarte, Paraíba, no dia 23 de junho de 1880.

Nunca freqüentou uma escola. Aprendeu a ler e escrever sozinho. Segundo seu próprio depoimento, aos oito anos, assistindo pela primeira vez a um desafio de Pedra Azul, um famoso cantador da região, começou a se interessar e fazer poesia popular. Fez sua primeira rima aos doze anos de idade.

 

Em 1898, por causa da seca, migrou da sua cidade natal para Camaragibe, um município da Região Metropolitana do Recife, Pernambuco, mudando-se, posteriormente, para a capital, onde trabalhou como auxiliar de enfermagem no Hospital Português.

 

Seu primeiro folheto de cordel, O preto e o branco apurando qualidade, que alcançou grande sucesso de vendas, foi escrito, em 1908, e impresso na Tipografia Moderna. A partir daí, começou a vender folhetos de sua autoria e de outros em feiras e mercados do Recife.

 

Em 1909, conseguiu montar uma pequena tipografia na Rua do Rangel,bairro de São José, tornando-se um dos maiores editores de folhetos de cordel do País. Da sua oficina saíram, durante mais de quarenta anos, estórias fantásticas, recriações de estórias famosas, crítica de costumes, notícias de acontecimentos da época que divertiam, informavam e educavam o homem da cidade grande e das localidades mais distantes do Nordeste brasileiro.

 

Os folhetos que tivessem a marca de João Martins de Athayde tinham sucesso garantido, independente da autoria. Com um próspero negócio no “ramo do poesia”, Athayde deu oportunidades de emprego a poetas, folheteiros, agentes e distribuidores, dando uma grande contribuição para o desenvolvimento da arte e da comercialização do folheto popular no Recife. Sobre a prosperidade do negócio afirmou Rodolfo Coelho Cavalcanti, conhecido poeta popular alagoano, em 1958:

 

[...] Deu Pernambuco o leão das histórias de princesas e desafios que foi o bravo Leandro Gomes de Barros, e o decano dos trovadores vivos que é o velho cansado João Martins de Ataíde. Em Pernambuco florescem as histórias de cordel do pioneiro editor Ataíde, que, sem o saber, fez da poesia popular uma das mais sublimes indústrias do nosso país. Pernambuco tem produzido tantas histórias em versos que deixa para trás a produção de açúcar das suas usinas e dos seus engenhos. [...] Pernambuco das modernas usinas e de velhos engenhos, de capital que é o orgulho do Brasil, nos matizes arquiteturais dos teus edifícios e das pontes, Pernambuco gigante, eu te cognomino Pernambuco das Histórias e Versos [...]

 

João Martins de Athayde foi o desbravador da indústria do folheto de cordel no País. Industrializando e comercializando sua produção e a de outros artistas, criou uma grande rede de atividades lucrativas no Nordeste, que se espalhou para outras regiões brasileiras, possibilitando a diversos poetas populares se dedicarem exclusivamente à poesia como atividade profissional. Foi o responsável por profundas mudanças na edição de folhetos de cordel, no que se refere à relação entre os artistas e a tipografia, criando, inclusive, contratos de edição com o pagamento de direitos de propriedade intelectual, assim como na apresentação gráfica dos folhetos.

 

Athayde foi aclamado na década de 1940 como o maior poeta popular do Nordeste, sendo elogiado por Tristão de Athayde e Mário de Andrade. Em entrevista concedida a Paulo Pedroza, publicada no jornal Diario de Pernambuco de 16 de janeiro de 1944, sob o título Cangaceiros e valentões, explica como escreveu histórias de cangaço e de cangaceiros:

 

[...] Em algumas me aproveitei do que noticiava o jornal, noutras do que me contava a boca do povo. E em algumas não me baseei em fato nenhum. Imaginei o caso e fiz o meu floreio. Conheci pessoalmente Antonio Silvino. Era no tempo o bandoleiro mais temido. Várias vezes conversou comigo. O povo o chamava “capitão”. Nunca se deixou retratar, a não ser quando foi preso e ainda assim depois de todo amarrado. Escrevi alguns “livros” sobre Silvino e ainda tenho assunto para vários outros que se fossem lançados agora não fariam sucesso. Já Lampião era diferente do “capitão”, com dois anos apenas de cangaço aparecia com o retrato nos jornais, cercado pelo grupo. Para você ver: quando ele entrou em Mossoró, eu soube da notícia pelo jornal. Fiz um “livro”. Mas as cenas, os diálogos, a ação da narrativa, tudo isso foi tirado da minha cabeça. Do mesmo jeito fiz com Os projetos de Lampião onde toda aquela plataforma foi inventada. [...]

 

Tinha uma grande admiração por Leandro Gomes de Barros, escrevendo em sua homenagem, em 1918, o folheto A pranteada morte do grande poeta Leandro Gomes de Barros.

 

Em 1921, comprou à viúva de Leandro, por seiscentos mil réis, os direitos de publicação de toda a obra do poeta paraibano. Foi acusado então de publicar como sua a obra de Leandro e de ter posto o seu nome em poemas de vários outros poetas populares de quem também comprou o direito de edição. No caso da obra de Leandro, no início ele se colocava como editor proprietário e, posteriormente, retirou a informação da autoria de Leandro, chegando até a modificar alguns acrósticos (última estrofe da poesia, cujas letras iniciais identificam o autor da obra).

 

Em 1949, sofreu um acidente vascular cerebral, tendo que se afastar de suas atividades.

 

Em 1950, vendeu a tipografia e os direitos de edição a José Bernardo da Silva, proprietário da Tipografia São Francisco, localizada em Juazerio de Norte, Ceará, que passou a ser o maior centro editorial de folhetos de cordel do Nordeste, posição ocupada até então pelo Recife.

 

Para o pesquisador popular Liêdo Maranhão, os poetas Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde deveriam ter um monumento na Praça do Mercado de São José, pelos relevantes serviços prestados à poesia e ao folclore nordestinos.

 

João Martins de Athayde morreu no dia 7 de agosto de 1959, na cidade de Limoeiro, Pernambuco, onde viveu seus últimos anos de vida.Texto em formato PDF, 28Kb,

 

Recife, 28 de novembro de 2008.

(Atualizado em 28 de agosto de 2009).

 

FONTES CONSULTADAS:

 

ALMEIDA, Átila Augusto F. de; ALVES SOBRINHO, José. Dicionário bio-bibliográfico de repentistas e poetas de bancada. João Pessoa; Ed. Universitária; Campina Grande, PB: Centro de Ciências e Tecnologia, 1978. v.1

BENJAMIM, Roberto. João Martins de Ataíde: biografia. Disponível em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/JoaoMartins/joaoMartinsdeAtaide_biografia.html#>. Acesso em: 26 nov.

 

GRILLO, Maria Ângela de Faria. A arte do povo: histórias na literatura de cordel (1900-1940).255 f. 2005. Tese (Doutorado em História).- Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, 2005.

TERRA, Ruth Brito Lemos. O lugar do poeta/editor João Martins de Ataíde. Recife: Fundaj, Inpso, Centro de Estudos Folclóricos, 1986. (Folclore, 169/170).

 

VALENTE, Waldemar. João Martins de Ataíde: um depoimento. Revista Pernambucana de Folclore, Recife, maio/ago. 1976.

VILA NOVA, Sebastião. João Martins de Athayde: artista popular e empresário urbano. Recife: Fundaj, Inpso, Centro de Estudos Folclóricos, 1985. (Folclore, 162).

 COMO CITAR ESTE TEXTO:

 Fonte: GASPAR, Lúcia. João Martins de Athayde. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 
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