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O Carapuceiro (jornal)

Lúcia Gaspar

Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco

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[...] a minha antiga tarefa de talhar carapuças e não só estas, senão bonés, toucas, chapéus, gorros, barretes e até mitras e coroas.

                                   Padre Carapuceiro, Diario de Pernambuco, 1º mar. 1847.

 

 

 

            Com o subtítulo Periódico Sempre Moral e só per Acidens Politico, o jornal recifense O Carapuceiro, fundado pelo Padre Miguel do Sacramento Lopes Gama, circulou pela primeira vez no dia 7 de abril de 1832, com quatro páginas e formato de 21 x 15cm. Impresso na Tipografia Fidedigna, de José Nepomuceno de Melo (Rua das Flores, n. 18) traz no cabeçalho a ilustração de uma loja de chapéus e um chapeleiro experimentando uma carapuça na cabeça de um corcunda. No balcão da loja pode-se ver uma coroa, uma mitra, um barrete e uma cartola, à espera dos fregueses.

 

         Foi o segundo jornal do Recife a publicar uma ilustração no cabeçalho. O primeiro, O Carcundão: Alfarrábio velho por 40 réis, circulou um ano antes, em abril de 1831, só publicando três números, sendo o último, em 16 de maio do mesmo ano.

 

Tornando-se conhecido como Padre Carapuceiro, Lopes Gama foi, além do fundador, o único redator do jornal. Seu objetivo sempre foi o de distribuir carapuças: Façam de conta que, assim como há lojas de chapéus, o meu periódico é fábrica de carapuças. As cabeças em que elas assentarem bem, fiquem-se com elas, se quiserem; ou rejeitem-nas, e andarão com a calva às moscas.

 

O jornal circulou, em diversas fases, com periodicidade irregular, de abril de 1832 até dezembro de 1842 e de forma esporádica entre 1843 e 1847.  O próprio Padre Carapuceiro esclareceu aos leitores sobre o assunto, quando publicou essa pergunta e a respondeu: Em que dias certos sairá esse periódico? Sairá o pobrezinho quando Deus o ajudar, e conforme a generosidade que com ele quiserem ter os Padrinhos, que são os srs. Leitores.

 

Tendo como objetivo distribuir carapuças, quer a absolutistas, comerciantes, parlamentares, profissionais liberais ou ao clérigo, o periódico fazia crítica aos vícios e costumes sociais e retratava a sociedade brasileira da época. Suas crônicas e artigos registravam todas as novidades e costumes da sociedade da época, nos mais variados temas como educação, comportamento, inclusive do clero, religião, intrigas políticas, cultura popular, folclore, moda, literatura, culinária. Publicava também fábulas e anedotas.

 

É do Padre Carapuceiro um dos mais antigos registros sobre a tradicional feijoada brasileira, publicado no Diario de Pernambucodo dia 3 de março de 1840.

 

Nas famílias onde se desconhece a verdadeira gastronomia, onde se tomam regabofes, é prática usual e comezinha converter em feijoada os fragmentos do jantar da véspera, ao que chamam enterro dos ossos [...]Lançam-se em uma grande panela ou caldeirão restos de perus, de leitões assados, fatacões de toucinho e de presunto, além disto bons vassalhos de carne seca vulgo ceará, tudo vai de mistura com o indispensável feijão: fica tudo reduzido a uma graxa!

 

O jornal criticava as influências trazidas pelos estrangeiros ao Brasil, afirmando lhes ser permitido se estabelecer no País com bastante liberdade, concedendo-lhes privilégios econômicos que não eram acessíveis aos brasileiros, além de propiciarem, com a sua presença, o aumento da licenciosidade entre os brasileiros, devido à  vocação, desses últimos, de “macaquear” os hábitos alheios.

 

No período de 1835 a 1836, as matérias d`O Carapuceiro foram publicadas pelo Diario de Pernambuco, assim como, por um curto período, em 1844.

 

Depois de mais de dois anos fora de circulação como jornal autônomo, reapareceu no dia 19 de abril de 1837, com uma nova ilustração no cabeçalho: uma chapelaria com dois fregueses em pé, o dono da loja sentado e, ao seu lado, diversos cabides onde aparecem pendurados uma coroa, uma mitra, barretes, cartolas e outros tipos de chapéus. Publicado duas vezes por semana, terminou o ano com 73 edições, em 23 de dezembro.

 

Em 1838, circulou também bissemanalmente, do dia 17 de janeiro até o dia 29 de dezembro, com uma crônica na seção Variedades, intitulada A mania dos sorvetes:

 

[...] Não se fala senão em sorvetes, não se vê senão casas, baiúcas, tascas e até espeluncas de sorvete.[...] e sujeito conheço eu, tão destro na química sorveteira, que é capaz de reduzir a sorvete um molho de bredos e até um par de chinelos velhos.[...] Dois tostões, por um calicezinho de sorvete não fazem bom cabelo; e no Poço da Panela custam doze vitens[...] um absurdo!      

 

Em 1839, foram publicadas 53 edições e, em 1840, a partir do número 17, de 29 de maio, foi novamente suspensa a sua circulação. Dessa vez, porque o seu redator viajou para o Rio de Janeiro, onde passou a publicar o jornal O Carapuceiro na Corte.

 

O Carapuceiro voltou a circular depois de dois anos, em 2 de abril de 1842, com algumas modificações: não trazia mais o clichê do cabeçalho e o subtítulo passou a ser Periódico Moral, e só Per Acidens Político, tendo desaparecido a palavra sempre. Continuou a ser publicado, duas vezes por semana, até o número 18, de 22 de março de 1843, quando mais uma vez foi suspensa a sua publicação, só retornando no dia 1º de março de 1847, com o mesmo formato, a mesma periodicidade, porém sendo publicado com algumas lacunas, e impresso na Tipografia Imparcial, de Luiz Inácio Ribeiro Roma (Rua da Praia, n. 55)

 

O jornal foi encerrado no número 25, datado de 28 de setembro de 1847, quando  voltou a exibir o cabeçalho com o clichê da loja de carapuças.

 

Recife, 25 de abril de 2008.

(Atualizado em 25 de agosto de 2009).

 

FONTES CONSULTADAS:

 

 

 

GAMA, Miguel do Sacramento Lopes. O Carapuceiro, 1932-1842. Prefácio de Leonardo Dantas Silva; estudo introdutório de Luiz do Nascimento. Recife: Prefeitura, Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1883. Edição fac-similar.

 

MELLO, José Antônio Gonsalves de. O padre Lopes Gama e o Diario de Pernambuco 1840-1845. In: SILVA, Leonardo Dantas (Org.) O Carapuceiro. Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 1996. p. 7-93.  187 p.  (Obras de consulta, 17). 

 

NASCIMENTO, Luiz. O Carapuceiro. In:GAMA, Miguel do Sacramento Lopes. O Carapuceiro.Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1883. v.1 Estudo introdutório.    

 

 

PERIOTTO, Marcília Rosa. O jornal “O Carapuceiro” (1832-1845): uma leitura na perspectiva da história da educação. Disponível em: <http://www.alb.com.br/anais16/sem05pdf/sm05ss16_07.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2008.

 

 

COMO CITAR ESTE TEXTO:

 

Fonte: GASPAR, Lúcia. O Carapuceiro. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 
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