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Capiba

Lourenço da Fonseca Barbosa [Capiba]

Por ele mesmo




Sempre compus todo gênero de música. Gosto também, e muito, do frevo porque me dá uma constante sobrevivência artística, como compositor. Apresento-me nos carnavais pernambucanos desde 1934, para manter uma fogueira que vem acesa desde os idos da década de 20, ou melhor, para não deixar cair a peteca. Mas, meu fraco mesmo são as canções, valsas e serestas. Quando cheguei no Recife, em setembro de 1930 para trabalhar no Banco do Brasil S/A, tratei, logo, de organizar com outros colegas estudantes, a Jazz Band Acadêmica, orquestra que dominou os salões do Recife naquela época.

Na qualidade de diretor da orquestra que fundara eu tinha que ser acadêmico. E, para tal, tentei o vestibular de direito, em 1931, para poder ostentar o honroso título de acadêmico, uma vez que os demais elementos de orquestra eram todos estudantes superiores. Onde eu morava, muito embora dormisse no quarto onde nasceu o grande abolicionista, Joaquim Nabuco, não cheguei a assimilar os seus conhecimentos e ensinamentos e, por isso, levei pau no vestibular daquele ano. No ano seguinte passei no vestibular. Não estava, portanto, enganando a mais ninguém. Era, de fato e de direito, acadêmico para todos os efeitos. (Hoje, com o correr dos tempos, não se diz mais acadêmico e sim, universitário). A honra do patrono da Fundação Joaquim Nabuco estava salva.

E, por causa dessa minha teimosia de ser estudante de Direito, terminei como bacharel em 1938. Está aí, mais uma coisa que a música me deu,- não sei se boa ou má. Só de uma coisa eu sei: nunca fui buscar o meu diploma que, certamente, está armazenado na Secretaria da famosa primeira escola de Direito do País.
 Eu disse acima que meu fraco são as canções, valsas, serestas e são mesmo. Daí, ter lançado em 1931, o meu cartão de visita como compositor daValsa Verde, com belos versos de Ferreyra dos Santos. Com esta valsa abriram-se os caminhos para o tímido matuto de Surubim, que eu era. Vieram outros sucessos. Em 1932, É de Tororó, com letra de Ascenço Ferreira, gênero de música lançado por mim, nos salões do Recife, à frente da Jazz Band Acadêmica. Em 1933, Coração, Que Mais Queres? com versos do poeta Leovigíldo Júnior. Novo sucesso em 1934: É de Amargar - frevo que todo o Recife cantou em uníssono, no carnaval daquele ano. Esse frevo é, até hoje, lembrado nos salões dos grandes e pequenos clubes da Capital do Frevo - Recife. Daí em diante, nada mais tenho a dizer sobre canções de carnaval. Todo o Recife conhece a minha trajetória. Tenho feito, no decorrer de todos estes anos, uma série interminável de canções com os maiores poetas brasileiros e, até, estrangeiros. Posso citar dentre eles, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes,Ariano SuassunaCarlos Penna FilhoJoão Cabral de Mello Neto, Alfonsus Guimarães, Ascenso Ferreira, Jorge de Lima, Geraldo Brasil, Jayme Griz, Langston Hughes e muitos outros. Para o Teatro do Estudante e para o Teatro Popular do Nordeste (TPN), do qual fui presidente e compositor oficial, musiquei várias peças, como: "A Pena e a Lei", de Ariano Suassuna, "Mandrágora" de Maquiavel, "Dom Perlimpim com Beliza em seu Jardim", de Garcia Lorca, "Cabra Cabriola", de Hermilo Borba Filho e, mais recentemente, "0 Coronel de Macambira", do poeta Joaquim Cardozo, entre outras.

Antes, eu havia musicado uma crônica do jornalista Guerra de Holanda, saída na sua seção "Bacia de Pilatos”, do Diário da Noite, com o título: Haja Pau, posteriormente transformada em peça para o Teatro de Bonecos, por José de Moraes Pinho. Tomei parte no Movimento Armorial lançado por Ariano Suassuna no início da década de 70, compondo uma peça em 3 movimentos, que se chama Sem Lei Nem Rei, título do romance de Maximiano Campos, publicado pela Editora "0 Cruzeiro”, em l968. Essa peça foi a primeira coisa que se fez, no gênero, a pedido do próprio criador do movimento. Não podia deixar de render, aqui, as minhas homenagens ao meu mestre e amigo Maestro Guerra Peixe, que me possibilitou a oportunidade de enveredar por um caminho da música, não digo erudita, mas de um caráter mais elevado.

A minha amizade com Guerra Peixe começou quando Teófilo de Barros Filho, aindaem São Paulo, pediu que ele orquestrasse a minha Suite Nordestina, feita originalmente para piano. Esta peça, em 5 movimentos, que foi executada pela Orquestra Sinfônica do Recife, sob a regência do Maestro Vicente Fittipaldi, foi composta aproveitando a idéia, digo, a sugestão, de cinco quadros de uma exposição do grande pintor e amigo Lula Cardoso Ayres. Aproveitando a vinda do Maestro Guerra Peixe ao Recife, a chamado da Rádio Jornal do Commercio, no final dos anos 50, recebi do mesmo, aulas de composição e harmonia, o que me proporcionou uma maior consciência no que compunha. No decorrer das aulas compus algumas peças para piano (Instantâneos n0 I e n0II), uma peça para flauta-solo, em 2 movimentos, que dediquei ao flautista argentino Esteban Eitler, que a executou não só no Brasil, como pelo resto do mundo. Foi, para mim, uma experiência de grande valor. Não cultivei esse gênero de música, porque era muito difícil de ouvi-las executadas e, acima de tudo, porque já estava muito acostumado com o sucesso fácil de minhas produções populares. 

Agosto 1982.

Recife, 21 de julho de 2003.
(Texto atualizado em 28 de setembro de 2007)

COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: CAPIBA por ele mesmo. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <
http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 
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