Home
São João em Caruaru

Lúcia Gaspar
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.

Do leste ao oeste
Do norte ao sul
Da beira-mar ao Sertão
Do famoso Pajeú
O São João melhor que tem
É o de Caruaru
[...]
Da véspera até o dia
Só se vê arrasta pé
E forró por todo lado
Só não dança quem não quer
E o jantar preferido
É pamonha, queijo e café
[...]
E os bacamarteiros
Dando volta no salão
Com uma flor no chapéu
Suas armas em posição
Fazem bonitos disparos
E gritam Viva São João!
 [...]
Um São João em Caruaru, cordel de Maria do Carmo Cristóvão, [197?].

A cidade de Caruaru, conhecida como a Princesa do Agreste e a Capital do  Forró, está situada a 135 km do Recife e oferece aos seus visitantes uma grande variedade de atrações folclóricas e turísticas, características da cultura popular do Nordeste brasileiro.  

Desde o final do século XIX, as festas juninas de Caruaru já atraíam pessoas das vizinhanças e até do Recife. Eram festejos organizados em propriedades rurais particulares, com fogueiras, balões, fogos de artifício, quadrilhas juninas, muita canjica, pamonha, milho e alegria. 

Em Caruaru, na década de 1950, uma feira de fogos, dos mais variados  tipos, característicos do Nordeste – buscapés, rojões, bombas, vulcões, pistolões, foguetes, traques de massa, estrelinhas, girândolas – fazia a alegria de crianças e adultos. Os fogos de artifício chegaram ao Brasil através dos portugueses e espanhóis que, por sua vez, os receberam dos chineses e dos árabes.

Nessa época, segundo o escritor caruaruense Nelson Barbalho, era assim o São João da cidade:

[...] Em todos os lares se iniciavam os preparativos para a noite: lenha na porta de casa para as tradicionais fogueiras, mesas postas com toalhas e utensílios novos em comemoração à data e “porque vinha gente de fora”, últimos retoques em vestidos. [...] Afinal escurecia. Pontos vermelhos surgiam de casa em casa – eram as fogueiras que se acendiam. Todas as janelas se abriam e ostentavam balõesinhos multicores acesos por dentro com tocos de vela. Jantava-se apressadamente – cangica, pamonha, bolo, café e milho cozido à vontade. A criançada corria para as calçadas – os pequenininhos queimando estrelinhas, soltando rodinhas presas em varas de madeira mole; os maiorzinhos soltando diabinhos, caraduras, traques; garotos taludos divertindo-se a jogar mosquitos nos pés dos transeuntes ou a sustentar pistolões de repetição, cujas bolas de fogo se projetavam à grande distância. Muito marmanjo aproveitava-se e caía no frevo também, jogando bombas gigantes, arremessando longe fogosos quebracanelas. Era o reinado da pólvora, o que contagiava qualquer pessoa. [...]

[...] Havia centenas de danças, de folguedos espalhados pela cidade inteira. [...] uma turma de moças e rapazes adquiriam um carro-de-boi, enfeitavam-no de modo típico e transformavam-no em carro nupcial. Sim, em carro nupcial, que eles organizavam um casamento matuto ironicamente engraçado e o carro-de-boi não poderia faltar.

[...] a gente passeava de mãos dadas à namorada, em redor da enorme fogueira, ouvindo-lhe o crepitar dos galhos de madeira e esquentando-se dento da esfera formada pelo seu calor acariciante. Escutava os milhos assados virando pipocas, os ruídos dos fogos diversos, as palmas das moças a cada novo balão soltado na imensidão do céu.

[...]  E no meio de tudo, os bailes, os sambas, os cocos dançados em chão batido durante toda a noite, gostosos como os pés-de-moleque existentes em qualquer casa.

Atualmente, a cidade realiza, durante todo o mês de junho, uma festa de São João que é considerada uma das mais importantes do ciclo junino nordestino, destacando-se pelo resgate à tradição e à originalidade. É o evento mais tradicional   do calendário turístico da cidade, atraindo milhares de turistas de todo o Brasil e do exterior.

Com anos de tradição em festas juninas, o São João de Caruaru acontece, desde 1994, no Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, um complexo com 41.500 metros quadrados, que abriga a Fundação de Cultura de Caruaru, os Museus do Barro e do Forró, um pavilhão para exposições, a Secretaria Municipal de Turismo, um palco para shows e a Vila do Forró, onde é reproduzida uma típica vila do interior com uma pequena igreja, prefeitura, mercearia, postos de serviços bancários e de correios, construídos em alvenaria.

Na Vila do Forró estão localizados vários bares e restaurantes, decorados com motivos juninos, como balões, bandeirinhas coloridas, chapéus de palha, que oferecem comidas típicas da culinária regional: feijão-de-corda, assado de bode, manteiga de garrafa, pamonha, canjica, milho verde cozido e assado.

Em janeiro de 2011, a Prefeitura de Caruaru demoliu a Vila, informando que outra será erguida novamente. Entretanto, hoje, o processo para a nova construção está apenas em fase de projeto.

Durante os festejos, que se destacam pela animação e grandiosidade, chegando a atrair mais de um milhão e meio de turistas, o visitante pode assistir apresentações de bacamarteiros e bandas de pífano, shows de artistas consagrados como Alceu Valença, Dominguinhos, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Zé Ramalho, Nando Cordel e de diversos forrozeiros do país, saborear a culinária regional e dançar o autêntico forró pé-de-serra nordestino.

As comidas e bebidas gigantes também se constituem em grandes atrações da festa, sendo servidas em dias previamente marcados: o maior chocolate quente, o maior quentão, a maior pipoca do forró, a maior pamonha, o maior cuscuz, o bolo de milho gigante, o maior pé-de-moleque, o maior arroz doce, a canjica gigante,  o maior bolo de macaxeira, o maior xerém (tipo de angu) e o tradicional cozido gigante.

Há ainda a maior fogueira de São João, feita com madeira ecológica, e colocada na frente da Igreja do Convento, onde é acesa no dia 28 de junho.

A partir das quadrilhas comuns, em 1989, surgiram no São João de Caruaru as Drilhas, blocos juninos semelhantes aos trios elétricos do carnaval de Salvador. Para não descaracterizar as tradições da festa junina, elas só se apresentam à tarde, na Avenida Agamenon Magalhães. As mais antigas e tradicionais são a Gaydrilha, onde só homens participam vestidos de matutos e matutas e outros personagens típicos e a Sapadrilha, com mulheres vestidas de homem, ambas criadas em 1989. Hoje há várias, entre as quais a Piradrilha; Diversãodrilha; Turisdrilha; Trokadrilha; a Brinkadrilha e a Nova Drilha. Segundo seus participantes o que vale é o forró no pé e disposição para seguir o trio elétrico.

Em 2009, o São João de Caruaru homenageou o centenário de Mestre Vitalino – famoso ceramista caruaruense – e, no mesmo ano, o evento foi registrado, por proposição da Assembléia Legislativa do Estado, como Patrimônio Imaterial de Pernambuco.

Recife, 26 de janeiro de 2011.

 

FONTES CONSULTADAS:

AXÉ invade São João de Caruaru. Disponível em: <http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/05/axe-invade-sao-joao-de-caruaru28052010.html>. Acesso em: 19 jan. 2011.

BARBALHO, Nelson. Caruaru, cidade princesa: visão histórica e social, 1905 a 1908.     Recife: [s.n.], 1981.

BARBALHO, Nelson. São João. In: ______. Caruraru, Caruaru: nótulas subsidiárias para a história do Agreste de Pernambuco. Caruaru (PE): [s.n.], 1972.

CARUARU. Disponível em: <http://www.turismodonordeste.com/caruaru.htm>. Acesso em: 20 jan. 2011.

FARIAS, Edson. Faces de uma festa-espetáculo: redes e diversidades na montagem do ciclo junino em Caruaru. Sociedade e Cultura, Goiania, v. 8, n. 1, p. 7-28, jan./jun. 2005.

GIL, Wagner. Demolição da Vila do Forró revolta Caruaru. Jornal do Commercio, Recife, 25 jan. 2011. Cidades, p. 4.

LIMA, Maynara. Viva o São João de Caruaru. Disponível em: <http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/1004722>. Acesso em: 19 jan. 2011.

SÂO João em Caruaru (Foto no Destaques do Mês). Disponível em: <http://julianobeckeylocutor.blogspot.com/2009_05_17_archive.html>. Acesso em: 8 jun. 2011.

COMO CITAR ESTE TEXTO:

GASPAR, Lucia. São João em Caruaru, Pernambuco. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009

 

Busca "Palavra-chave"

Busca "A a Z"


Copyright © 2017 Fundação Joaquim Nabuco. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido pela Fundação Joaquim Nabuco