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Hilton Sette

Lúcia Gaspar
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
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Fui um autodidata em quase todas as etapas de minha formação cultural e profissional. Assim é que, nas minhas qualificações de estudante, funcionário público, professor, autor de livros didáticos e de divulgação científica, geógrafo pesquisador e escritor ficcionista, consegui assimilar e sedimentar conhecimentos, habilidades e práticas por minha conta e risco, valendo-me da iniciativa própria e de uma curiosidade nata. Poderia até dizer que “muito mais eduquei do que fui educado” […].
Hilton Sette.

Conhecido, desde a década de 1950, por diversas gerações de estudantes brasileiros, como autor de livros didáticos sobre Geografia Geral e do Brasil, sempre em colaboração com Manuel Correia de Andrade, Hilton Sette, que se confessa um autodidata, tem também uma diversificada produção intelectual incluindo obras científicas, romances, novelas e contos.

Por ocasião das comemorações do centenário do geógrafo, professor e escritor Hilton Sette, em 2011, o projeto Pesquisa Escolar Online, recebeu um texto biográfico, escrito por sua filha Hílcia Maria Sette Melo Rêgo (in memoriam).

O texto, enviado por uma de suas netas, Paula Melo Rêgo Barros, está disponível, a seguir, na íntegra e da forma que foi recebido pelo Projeto.

 

HILTON SETTE (1911-1997)1 : PESQUISA ESCOLAR FUNDAJ

No dia 30 de julho de 1911, em uma das ruas mais recifenses do Recife, a Rua da Aurora, à beira do Capibaribe, no trecho entre as Pontes da Boa Vista e a atual Ponte Duarte Coelho2, nasce Hilton Sette. Aquele que viria a ser conhecido e reconhecido como professor, geógrafo, escritor didático, científico e ficcionista pela intelectualidade pernambucana e, também, brasileira.

Filho de Mário e Maria Laura Sette, Hilton cresceu e foi educado num ambiente de privilegiada cultura. Desde cedo soube lograr da leitura da boa literatura nacional e internacional contemporâneas. Bem como desfrutar da convivência e ensinamentos de seu pai, Mário Sette (1886-1950) – “um humanista que dedicou sua vida à educação e às letras de Pernambuco”3 .

Aos dez anos de idade, Hilton já manifestava vocação pelas letras. Suas historietas e parábolas ganharam páginas em revistas infantis, tais como “O Recreio do Petizado” e o “Tico-tico”. Na mocidade, Hilton escreveu poemas à moda de Mário e Oswald de Andrade, mas também sonetos, artigos e pequenos contos que foram publicados em revistas e jornais locais, caruaruenses e cariocas, a exemplo de “A Pilhéria”, “Vitrina”, “Jazz-Band”, “Fon-fon”, “Para Todos”, “O Malho”, “Cosmos”, “O Jornal”, “A Noite”.

Com intenção de consolidar conhecimentos sócio-humanísticos, diplomou-se  em Ciências Sociais e Jurídicas pela Faculdade de Direito do Recife (1935). E, embora tenha iniciado suas atividades profissionais como Funcionário Público dos Correios e Telégrafos de Alagoas, foi na Geografia e na carreira docente que Hilton encontrou sua verdadeira vocação.

No magistério, Hilton Sette iniciou as funções de professor de Geografia e de Matemática, vindo depois a lecionar somente Geografia, em inúmeros estabelecimentos de ensino recifense (1936/1948). Ministrou a disciplina Geografia no Curso de Geografia e História da Faculdade de Filosofia Manuel da Nóbrega (1946/1956). E, as disciplinas História do Brasil e História da América no Curso de História e Geografia da Faculdade de Filosofia do Recife, desde 1946 até a extinção desse Curso nos Anos 60. Foi Professor da Cadeira de Geografia Humana da Universidade Federal de Pernambuco, onde serviu até aposentar-se por tempo de serviço (1977). Professor Catedrático de Geografia do Brasil do Ginásio Pernambucano (1953/1970).

Como geógrafo, foi sócio efetivo da Sociedade Brasileira de Geologia e da Associação dos Geógrafos Brasileiros - AGB, tendo escrito “Fundamos a Seção Regional de Pernambuco da Associação dos Geógrafos Brasileiros” (1952). Foi membro da diretoria da AGB pernambucana em diversos anos e seu presidente em 1958. Participou das assembléias nacionais reunidas em Campina Grande, Ribeirão Preto, Garanhuns e Santa Maria, no Rio grande do Sul. Colaborou na organização e tomou parte da Excursão Nordeste, através dos estados de Pernambuco e Paraíba, promovida pelo Congresso Internacional de Geografia no Brasil, com a presença de geógrafos franceses, russos, inglês, italiano e sueco.

Como produto de pesquisa4, Hilton Sette elaborou e publicou os ensaios geográficos: “A Micro-região da Serra Negra”, “A Paisagem Física do Cabo de Santo Agostinho”, “O Sítio Urbano de Garanhuns”, “Atividades Pesqueiras de Pernambuco” e a tese sobre Geografia Urbana - com que conquistou a cátedra do Ginásio Pernambucano – e duas teses para concurso: “Regiões Naturais de Pernambuco” (1946) e “Pesqueira” (1955).

Além dos títulos de divulgação científica, Hilton Sette foi autor de obras didáticas que alcançaram mais de quarenta edições de cinco mil exemplares nas Décadas de 50, 60 e 70, vendidos em todo o Brasil.

Em princípio de 1959, Hilton Sette foi vítima de um longo processo de perda de visão. A partir da Década de 70, ele vai se despedindo de suas atividades geográficas e didáticas, atingindo a cegueira total em 1982. Contudo, à proporção em que se aposentava, Hilton sentiu renascer o interesse, o entusiasmo e a criatividade de sua antiga vocação literária. Reescreveu os primeiros capítulos e concluiu o seu romance, iniciado na Década dos Anos 30 “O Rapaz da Vila Maria”, que obteve “menção honrosa” ao concorrer em 1979 ao “Prêmio Literário Lucilo Varejão”, da Prefeitura da Cidade do Recife6.

Desde então, Hilton Sette passou a produzir literatura de ficção7: romances, novelas e contos. Em 16 de novembro de 1987, foi eleito Acadêmico para Cadeira n. 9 da Academia Pernambucana de Letras, cujo patrono é o Monsenhor Muniz Tavares. Tomou posse em 4 de fevereiro de 1988.

Em seus apontamentos autobiográficos, Hilton reflete sobre seu processo criativo: “(...) sinto-me presente em minhas obras literárias, não só é claro, como ficcionista, isto é, o criador de enredos, dos personagens, dos episódios e dos diálogos, mas também o geógrafo imaginador das paisagens e cenários que emolduram os quadros e ainda o memorialista a evocar épocas, costumes, hábitos, músicas e linguagens do passado” .

Hilton Sette faleceu no Recife, em sua residência, em 20 de dezembro de 1997. Legou-nos como herança cultural não apenas a sua obra, mas o exemplo e a dignidade de um homem dedicado à educação e à produção de conhecimento.

 

Recife, 10 de junho de 2011.
Atualizado em 21 de junho de 2017.

 

 

NOTAS:

* Apresentação de um texto sobre Hilton Sette, escrito por sua filha Hílcia Maria Sette Melo Rêgo (in memorian), enviado por sua neta Paula Melo Rêgo Barros, especialmente para o Pesquisa Escolar Online, em junho de 2011.
1 Escrito, a partir dos apontamentos autobiográficos de Hilton Sette, pela Professora Hílcia Maria Sette Melo Rêgo (in memória), com revisão textual da Licenciada Paula Melo Rêgo Barros.
2 Hilton Sette, Minha História – Apontamentos Autobiográficos. http://www.hiltonsette.com.br/
3 Mário Sette, Um Conceito de Pernambucanidade. http://www.mariosette.com.br/.
4 Produção Científica:
.“Regiões Naturais de Pernambuco”. Tese. Recife: 1946.
.“A Micro-Região Geográfica da Serra Negra”. Ensaio. Recife: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Manoel da Nóbrega de Pernambuco, 1952.
. “Paisagem Física do Cabo de Santo Agostinho”. Recife: Separata da revista Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Manoel da Nóbrega (PP.139-147). Recife: 1960.
.“O Sítio Urbano de Garanhuns”. Ensaio. Rio de Janeiro: Boletim Carioca de Geografia, 1954.
.“Pesqueira- Aspectos de sua Geografia Urbana e de suas Inter-relações Regionais”. Tese de Concurso para Provimento de Efetivo da Cadeira de Geografia do Brasil com Colégio Estadual de Pernambuco. Recife: 1956
.“Aspectos da Atividade Pesqueira em Pernambuco”. Separata do vol.XI, Tomo I dos Anais da Assembléia da Associação dos Geógrafos Brasileiro. São Paulo: 1959.
. Geografia Humana, uma Ciência Autônoma. Recife: Revista Verdade e Vida da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Manoel da Nóbrega. Jan/Mar. Tomo II. Fascículo 1. Recife: 1949.
.“Interpretação Geológica do Relevo Brasileiro”. Recife: Revista Verdade e Vida da Faculdade de Filosofia Manuel da Nóbrega.
.“O Nordeste através das Paisagens Pernambucanas. Ensaio
5 Produção Didáticas nas Décadas dos anos 50, 60 e 70 (Editora do Brasil S.A.):
. Compêndios de Geografia e História de Pernambuco. 1955.
. Estudos Pernambucanos.
. Série Ginasial: Iniciação à Geografia; Geografia do Brasil – Nordeste; Geografia do Brasil; Geografia dos Continentes.
. Segundo Grau: Geografia Geral; Geografia do Brasil
6 VAREJÃO, Lucilo Filho in Discurso de Recepção na APL. (Fonte: Discurso de Recepção do Acadêmico Hilton Sette na Cadeira de Número 9 da Academia Pernambucana de Letras por Lucilo Varejão Filho in Cadernos da APL/3 “Na Cadeira de Muniz Tavares”. Recife, 4 de Fevereiro de 1988.)
7 Produção Literária de Ficção
I. Romances: O RAPAZ DA VILA MARIA – 1981; ZÉ DO FOGUETE (1984); APARTAMENTO DE COBERTURA (1984); BIOGRAFIA DE UMA VELHA SENHORA (1989); ESTRANHA PENITÊNCIA (1995). II. Novelas: TIRO DE MISERICÓRDIA (1985) e DONZELAS NA BERLINDA (1988). III. Contos: ESTÓRIAS DA VIDA (1985); ROSAS VERMELHAS (1991) e RESTOS DE TACHO (1995).

 

 

FONTE CONSULTADA:

 

 

HILTON Sette [Foto neste texto]. Disponível em: <http://www.onordeste.com/portal/hilton-sette/>. Acesso em: 21 jul. 2017.

 

 

COMO CITAR ESTE TEXTO:

 
 

Fonte: RÊGO, Hílcia Maria Sette Melo. Hilton Sette. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 

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