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Goiana, PE: patrimônio histórico e cultural

Lúcia Gaspar
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco
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Situada na região da Mata Norte de Pernambuco – a cerca de 60 km do Recife – Goiana era habitada antigamente pelos índios Caetés e Potiguares. Originária de um dos núcleos mais antigos de colonização do Nordeste brasileiro, foi elevada à categoria de freguesia em 1568, de vila em 1711, de cidade em 1840 e, por várias vezes, a sede da capitania de Itamaracá.

Há diversas explicações para a origem do nome: segundo Sebastião de Vasconcelos Galvão, Goyana é um vocábulo de origem indígena, corruptela de guayna, que significa gente estimada. Já Mário Melo afirma que a palavra tem outras formações etimológicas: guaia-na, planta anileira; iguá-anama, semelhante ao que existe na água, charco; guiana, flor de cana. Alfredo de Carvalho fala em guaiana e gua-iãi, porto ou ancoradouro.

Sabe-se com certeza, no entanto, que desde o ano de 1607, existem registros documentais com o nome Goiana para designar o local.

Goiana participou intensamente dos movimentos libertários da Província de Pernambuco e foi a primeira cidade brasileira a considerar livre todos os seus escravos por um decreto da Câmara, de 25 de março de 1888, antecipando-se à Lei Áurea.

Em uma de suas aldeias, Itapecerica, foi realizada a primeira assembleia em que índios pleitearam um governo representativo no país e onde foi criada, em 1901, a primeira empresa de transportes do Brasil, a Companhia de Transportes de Goiana, cujo primeiro ônibus circulou entre aquela cidade e o Recife.

O pioneirismo de Goiana também se estende ao campo cultural: foi a primeira cidade de Pernambuco a possuir uma biblioteca pública e a primeira do Brasil a ter uma banda de música, a hoje centenária Curica, criada em 1848. No ano seguinte, surgiu outra banda a Saboeira, também centenária. Devido ao seu amor à música, Goiana já foi conhecida como a Milão pernambucana. Segundo Valdemar de Oliveira 

[...] Goiana se distingue no terreno da cultura, da arte, toda ela um relicário – nas suas igrejas majestosas, nos seus cruzeiros de pedra, nos seus lavores de prata e ouro, nos seus arquivos musicais, nas suas entidades culturais, nas suas organizações artísticas, em todas essas coisas que dizem pensamento, cultura, inteligência, primado espiritual. Goiana é uma velha matrona coberta de jóias. Nos dias de festas, põe para fora as suas baixelas, os seus adereços, os seus títulos herdados – tem o que mostrar, tem de que se envaidecer. [...]

Importante centro industrial da região da mata norte pernambucana – produtor de cimento, açúcar, cal, algodão, móveis e artefatos de fibra de coco – Goiana possui um significativo patrimônio histórico e cultural.

Seu patrimônio arquitetônico religioso inclui igrejas que datam do século 17. Oito delas são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), desde 1938. Além dos oito templos, também é considerada Patrimônio Histórico Nacional a capela de Santo Antônio do Engenho Novo, situada na zona rural do município, no engenho que pertenceu a André Vidal de Negreiros, um dos principais líderes da luta contra os holandeses

Fazem parte do patrimônio religioso de Goiana as seguintes igrejas: Ordem Terceira do Carmo; Nossa Senhora da Conceição; Nossa Senhora da Misericórdia;  Nossa Senhora da Soledade; Nossa Senhora do Amparo dos Homens Pardos; Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos; Nossa Senhora do Rosários dos Homens Brancos; Nossa Senhora da Conceição; Nossa Senhora dos Milagres; Nossa Senhora do Ó (distrito de Ponta de Pedra); Nossa Senhora da Penha e Santo Antônio (ambas na praia Barra de Catuama); Nossa Senhora do Pilar do Patrimônio (Engenho Patrimônio); Santa Ana (praia de Carne de Vaca); Santo Antônio do Diamante (Engenho Diamante); São Lourenço de Tejucupapo (povoação de Tejucupapo); Santo Alberto de Sicília; São Benedito de Atapuz (praia de Atapuz); São Sebastião de Ibiapicu (praia de Ibiapicu). Existem também os Conventos do Carmo, de Santo Alberto de Sicília do Carmo e de Nossa Senhora da Soledade, além das capelas de Santo Antônio (Engenho Novo), Bom Jesus do Horto (Rua da Baixinha), São Sebastião (Estrada de Cima) e Santa Luzia do Engenho Bujari (Usina Santa Tereza).

O prédio da Prefeitura, localizado na principal avenida da cidade, também é um edifício histórico, assim como o casario da vila operária da antiga fábrica Fiação de Tecidos de Goiana (Fiteg), projetado pelo arquiteto João Evaristo no final do século 19 e construído no início do século 20. É um conjunto arquitetônico completo, composto pela casa do gerente, dos operários, do dono, além do clube, onde todos se reuniam para o lazer.

Ainda na arquitetura civil podem ser destacados como patrimônio de Goiana,  o prédio do Colégio Sagrado Coração, construído em 1920, localizada no centro da cidade; a sede da Loja Maçônica, também dos anos 1920, e a Escola Municipal Manoel Borba, situada na Praça do Convento Santo Alberto de Sicília do Carmo,  que data do século 17 e teve sua construção financiada por André Vidal de Negreiros, o então governador da capitania de Pernambuco.

As restaurações dos monumentos religiosos de Goiana foram iniciadas pelo IPHAN em 1991. Atualmente, já foram restaurados a Igreja Matriz do Rosário dos Homens Brancos, a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, a Igreja da Soledade e seu convento, este último em trabalho realizado pelos próprios frades.

O Museu de Arte Sacra, fundado em 1950, nas instalações da Igreja de Nossa Senhora do Amparo dos Homens Pardos, possui um acervo com destaque para esculturas de santos confeccionadas por artistas pernambucanos dos séculos 17 a 19. Hoje, desativado, tem suas peças  guardadas na Secretaria de Obras do Município.

Além do seu patrimônio histórico e cultural, o município tem uma grande diversidade de recursos naturais: uma orla marítima cheia de praias e enseadas; uma vegetação variada, distribuída em zonas e subzonas fitogeográficas litorâneas, de mangues, de mata (onde estão localizados seus canaviais) e de savanas; uma área de 186 km2 da bacia hidrográrica do Capibaribe-Mirim-Goiana, com diversos afluentes, entre os quais os rios Tracunhaém, Carrapicho, Tejucupapo e Arataca.

Conhecida como a terra dos Caboclinhos – manifestação folclórica de origem indígena –, Goiana possui grupos seculares como o Caboclinho Caetés, o Canindé, o Carijós, o Sete Flechas, o Tabajara, o Tapuias, que se apresentam durante o Carnaval. As Pretinhas do Congo e a Aruenda – folguedos populares de origem africana, praticados por descendentes de escravos na época do Carnaval – também são manifestações típicas de Goiana, assim como a ciranda e o côco, hoje mais comum nas zonas litorâneas do município.
 
Há ainda diversas manifestações religiosas populares, entre as quais a de São Sebastião; a de Nossa Senhora do Rosário, padroeira da cidade; festas em homenagens ao santos do ciclo junino, São João e São Pedro; festa de São Lourenço de Tejucupapo, datas comemoradas com missas, procissões e folguedos de rua.

Goiana também é famosa pela sua culinária, que atrai pessoas de diversos lugares para conhecê-la. Entre os pratos mais característicos estão o guaiamum cozido em pirão, a galinha à cabidela e o muçum de coco frito, além das iguarias de frutos do mar. 

Recife, 31 agosto de 2011.



FONTES CONSULTADAS:

BENS inscritos nos livros de tombo do IPHAN-5 CR. [S.l.]: IPHAN, [s.d.]

FERNANDES, Andréa Gondim. Velhos engenhos de minha terra. Recife: ASA Pernambuco, 1986.

GOIANA. Recife: FIDEPE/FIAM, 1981. (Monografias  municipais).

OUTRO bailado típico de Goiana: a aruenda. Contraponto, Recife, ano 4, n. 11 [s.p.], dez. 1949.

REVISTA DO MUSEU DO AÇÚCAR, Recife, ano 3, v. 1, n. 4, 1970.

SILVA, Beatriz Coelho. Goiana: uma vila operária cercada por igrejas. Continente, Recife, ano 11, n. 128, p. 48-55, ago. 2011. Fotos de Léo Caldas.

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: GASPAR, Lúcia. Goiana, PE: patrimônio histórico e cultural. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

 

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